FRASES DA AUTORA

“O LUTO e o NASCIMENTO são acontecimentos que unem verdadeiramente as pessoas. (TODOS IRÃO ENFRENTAR MAIS CEDO OU MAIS TARDE). A morte e o nascimento são fatos encantadores que sempre serão grandes mistérios da humanidade. Não sabemos o que vamos encontrar do lado de lá e quando voltamos também não nos lembramos de nada. Não devemos ver com maus olhos a SENHORA MORTE, em todo seu mistério, em todo o pavor que nos causa tem um brilhantismo. Sempre saímos da devastação causada pela PERDA com um ensinamento: Viva se queira viver, mas sempre com a certeza de que há algo do outro lado.”  Lina Stefanie

“Mais um dia e a vida passa… A vida passa deixando marcas, levando pessoas, deixando lembranças e saudades. A vida passa mas algo sempre fica, as marcas das experiências permanecem intactas em nossas almas, marcas estas que nos modificam e nos fazem crescer, esquecer a infância, deixar a criança adormecida e trazer à tona o adulto para viver a REALIDADE, aí descobrimos que a tal REALIDADE nem sempre é boa. Cabe a nós ou ao destino tornar a SOBREVIVÊNCIA suportável, fazer amigos, fazer amores e o resto é vida que se vai, seguindo o ritmo natural do viver. ” Lina Stefanie

“Esta é a liberdade que quero sentir. O vento batendo no rosto. Sem medo do que possa acontecer no futuro, sem pensar em nada, apenas SENTIR. Sentir cada sensação em sua forma distinta. Cada sentimento que causa uma reação em meu corpo. Aproveitando tudo que este mundo ainda possa me oferecer.” Lina Stefanie

“A sociedade não compreende e não aceita que todo mundo tem o direito de vez ou outra ficar triste, vez ou outra deixar verter lágrimas pelo rosto já cansado da vida. A tristeza em si não é má, ela surge como um turbilhão dentro do peito e às vezes recebe o nome de saudade, vem rasgando tudo por dentro como punhal de corte cego, desatina como ferimento à bala, explode numa tempestade de lágrimas e depois passa como chuva passageira e a dor fica amena, quase palpável. A tristeza deve ser permitida, aceita e compreendida. ÀS vezes apenas queremos ficar TRISTES e apalpar nossa DOR. Fosse eu RAINHA do mundo baixaria um decreto: Todos estão permitidos a serem tristes o tempo que queiram, que vertam lágrimas ou apenas se entristeçam fazendo com que o VIVER  e o CONVIVER seja suportável.”  Lina Stefanie

“Tudo que preciso agora é sentir a brisa leve de uma tarde de calor, com apenas um tecido leve e diáfano cobrindo meu corpo, os cabelos ao vento e os pés descalços correndo livres pelos campos dourados de trigo. Sem amarras e sem ressentimentos deixando para trás todas as pessoas egoístas, frias e materialistas deste mundo insano. Isto não é um convite e sim, uma ordem.” Lina Stefanie

“Acima da dor que me assola só o seu amor me consola.” Lina Stefanie

“A felicidade faz transcender a nossa beleza interior ressaltando a beleza física.” Lina Stefanie

“A todos aqueles que eu mal conheço, aqueles que passam na rua sem ao menos dar um bom dia, aqueles que fazem a diferença em minha vida ou que tanto faz estarem vivos, desejo uma bela jornada e que Deus sempre esteja presente em suas vidas, que todas as forças da natureza ajam a favor de seus benefícios. A natureza é sábia e DEUS se mostra a todo instante através dela, nos mostrando o caminho, nos guiando silenciosamente para o futuro.” Lina Stefanie

“Às vezes encontramos nosso cantinho, arrumamos à nossa maneira, transformamos, encantamos as pessoas que nos rodeiam com nosso jeito verdadeiro de ser e tudo fica com a nossa cara, cada canto, cada móvel, cada riso, cada momento ganha nossa personalidade, tudo nos remete à lembranças boas. Mas o destino é cruel e nos surpreende, por força maior somos obrigados a abandonar tudo e deixar pra trás tudo que criamos juntos com aqueles que nos ama, simplesmente somos forçados a partir e deixar que outros tomem nosso lugar e apenas ganhem os louros daquilo tudo que construímos.” Lina Stefanie

“No campo de batalha da vida todos os dias enfrentamos nossos medos, anseios e vontades não correspondidas. Às vezes vencemos todos e às vezes levantamos o lenço branco.” Lina Stefanie

“Quando você pensa que já viu e já sentiu de tudo nesta vida, chega o acaso e mostra que você ainda não viu nada.” Lina Stefanie

“As pessoas são muito preconceituosas. O que há de errado em simpatizar com a morte se ela é apenas uma passagem para um plano superior, perfeito, diferente deste mundo insano e pútrido que vivemos aqui?” Lina Stefanie

“Ser triste é diferente de ESTAR triste. As pessoas comuns não aceitam sua tristeza porque na verdade não te aceitam entre elas por se considerarem melhores que você. Falam enquanto o que deveriam fazer é apenas se calar e deixar que você viva da forma que escolheu ou que a vida lhe impôs. Ser triste é ser melhor que os demais, é enxergar o que os COMUNS não veem, ser triste é contemplar o mundo no que há de mais belo a ser contemplado. Ser triste é acreditar na morte como fuga de um mundo cruel e insalubre. Tudo isso aqui é uma grande MENTIRA! Mentira esta que forçaram a vivenciar.” Lina Stefanie

“As pessoas costumam apregoar fidelidade, amizade, compaixão, quando tudo o que deveriam fazer é apenas SER aquilo que afirmam todo tempo com as mãos sobre a bíblia.” Lina Stefanie

“Peça-me para explicar qualquer coisa, a teoria da evolução, o azul do céu, o brilho das estrelas, o calor do sol, mas não me peçam para explicar este vazio aqui dentro, esta dor no peito, a falta de sono. É como se você carregasse um peso imenso, uma dor que vem de séculos, um anseio que não tem fim. Mas em tudo não é ruim, te faz refletir mais sobre todas as verdades, te faz vivenciar a vida ao fundo.” Lina Stefanie

“Cantos gregorianos ecoando em minha mente e me carregando suavemente para o caminho da serenidade eterna.” Lina Stefanie

 


Anúncios
Publicado em Contos | Deixe um comentário

Maresia

image

  Aos noventa e nove anos de idade e mesmo com toda dificuldade de andar, vovó parecia criança quando chegamos ao porto de Santos. O navio ancorado se assemelhava a uma visão dos sonhos que eu tivera outrora, não parecia real. Uma maravilha da engenharia moderna com seus diversos andares, piscinas, restaurantes e cabines luxuosas. Para nós, jovens acostumados com o novo e o moderno, o navio, um dos maiores do mundo, já encantava por si só, para vovó, no auge da idade, era como uma aparição surreal em meio ao azul do mar.
Eu via através dos olhos dela quando vislumbrou o salão principal do navio, o brilho do seu olhar confundia-se com o brilho dos diversos cristais espalhados pelo ambiente. Vovó apoiou-se firmemente no andador, escorregou devagar o pé direito no carpete vermelho. Com dificuldade e com tremor característico esticou o olhar pelo Hall principal. Permaneceu estática como se algo em especial lhe chamasse a atenção.
− Sentindo algo, vovó? – indaguei ao notar sua apreensão.
Vovó prolongou o silêncio por alguns segundos, mas respondeu entre sorrisos.
− Nada não, minha querida. Lembranças povoam a cabeça desta velha. Muita emoção em estar finalmente neste lugar magnifico.
− Tudo bem, vamos seguir para o quarto, depois você pode me contar sobre estas lembranças. Com a ajuda de um tripulante colocamos vovó na cadeira de rodas e seguimos para o elevador panorâmico. A vista que nos era ofertada denotava o bom gosto e o luxo utilizados na decoração dos ambientes. Muito dourado e cristais Swarovski, tão conhecidos no mundo por sua beleza e delicadeza. Beleza era a peça chave da construção do navio e não havia um lugar sequer que nossa vista pudesse alcançar que não nos deslumbrasse.
Em pouco tempo estávamos defrontes à nossa cabine no décimo segundo andar. Vovó ficaria comigo enquanto mamãe, papai e os demais ficariam em outras cabines no mesmo andar. A vista da varanda era magnifica. Logo que entramos vovó pediu que a deixasse por alguns minutos na varanda.
− Está bem para ficar neste vento forte, vovó?
− É tudo que mais quero minha neta, sentir a maresia, o cheiro salgado do mar. Parece que isto está entremeado em mim. Vovó era uma mulher de seu tempo, até mesmo em idade avançada tinha uma lucidez impressionante, seu corpo já não acompanhava sua mente, envelhecera sem perder seu raciocínio, mas a saúde já não a acompanhava. Vivera bem, soubera viver. Criara seis filhos, sozinha após a morte prematura do marido. Escrevera algumas histórias infantis e fazia-nos sonhar com seus mundos paralelos. Esta sempre foi vovó. Criou-nos e nos amou sem limites, dando-nos tudo o que lhe foi possível sem nada pedir em troca.
A vida passou e vovó chegou aos seus quase cem anos de idade e ao ser questionada a respeito de qual seria um bom presente para os seus cem anos, vovó foi categórica em responder: queria ver o pôr-do-sol na proa do navio. Não pensamos duas vezes e marcamos o cruzeiro o mais rápido possível.
− Se precisar de algo é só me dizer, vovó. – interrompi os devaneios dela.
− Agora não preciso mais nada, minha fia. Está tudo bom por enquanto.
− Acho que esperou demais para fazer este cruzeiro, não é vovó?
− Esperei não, minha fia, tudo tem seu tempo certo.
− Está feliz então? Parece criança quando ganha presente.
− Estar aqui me faz lembrar muitas coisas, minha querida. Faz-me lembrar de minha mãe. Como fosse hoje me lembro de tudo que ela me contou repetidas vezes. A história de vida dela e por consequência a minha.
Vovó apertou os olhos como se forçasse as lembranças virem à tona.  
                                ***
Ela repetidas vezes me contava. Era Abril de 1912, quando seu pai a presenteara com a tão desejada viagem de navio. Como influente comerciante da época, meu avô não tivera problemas em arranjar de última hora um bilhete garantindo-lhes estadia numa das melhores cabines. Mamãe, já considerada velha para se casar, há tempos desenrolava uma história de amor pelo capitão do navio, Edward Smith. Seu pai nem imaginava algo semelhante, pois Smith era um homem já de idade e mamãe nunca havia se casado. Na sociedade da época isto seria inadmissível.
O navio iniciou a sua viagem inaugural de Southampton, na Inglaterra, com destino à cidade de Nova York, nos Estados Unidos, com o Capitão Edward J. Smith no comando. Mamãe contava que o navio superava todos os seus rivais em termos de luxo e riqueza. Na Primeira-classe tinha uma piscina, um ginásio, uma quadra de squash, banhos turcos, o famoso Café Verandah. As salas comuns da Primeira-classe eram adornadas com painéis de madeira esculpidos, móveis caros e outras decorações. Além disso, o Café Parisien oferecia culinária aos passageiros da primeira-classe, com uma varanda iluminada pelo sol. Havia até mesmo bibliotecas e cabeleireiros no navio. Painéis de pinheiro e móveis robustos incorporavam recursos avançados para a época. Para mamãe seria a viagem de seus sonhos, navegar no maior navio até então construído pelo homem e estar ao lado do homem pelo qual tinha verdadeira adoração.
Tudo já fora previamente combinado. Meu avô jogaria a noite toda com os amigos a bordo do navio enquanto mamãe aproveitava para dar suas fugidelas com o capitão Smith. O capitão, já feliz pela presença de sua amada a bordo, preparara uma cabine especial para eles. Mandara providenciar um verdadeiro banquete com direito a champanhe. Logo após o jantar de gala, onde sua presença era indispensável, ficariam juntos em sua cabine. O jantar transcorrera normalmente. Mamãe contava os segundos para estar nos braços de seu amor. Durante o jantar, Capitão Smith tirara mamãe para dançar. Rodopiaram por todo o salão iluminado como se estivssem sozinhos no mundo. Os homens aplaudiam enquanto as mulheres contorciam-se de inveja de mamãe. A noite fora linda e terminara na cabine do capitão onde passaram sua primeira noite de amor.
Três dias depois, ao anoitecer de domingo, a temperatura caíra demais, quase causando congelamento e o oceano estava calmo. A lua era visível e o céu estava limpo. Capitão Smith, teve de traçar um novo curso que levava o navio um pouco mais ao sul, em resposta aos diversos avisos de icebergs recebidos pelo rádio nos dias anteriores. Smith fez o possível para desviar o imenso navio dos icebergs, mas após o último aviso tardio, a proa do navio começou a deslocar-se do obstáculo e, segundos após a visualização do iceberg, houve o choque. O iceberg arranhou o lado direito do navio, deformando e rasgando o casco como fosse papel.
O pânico tomou conta do navio, o local caiu em caos, pessoas gritando, crianças chorando. Horas depois do impacto o navio já submergia na imensidão do oceano. Os botes não eram suficientes para todos e muitos brigaram por um lugar para salvar-se da morte certa por afogamento ou hipotermia devido à baixa temperatura da água. De dentro dos botes, os passageiros assistiram o navio afundar para sempre na imensidão negra do oceano em meio a milhares de gritos de pavor e pânico. Milhares de pessoas foram lançadas à água congelante. Após a popa desaparecer, os segundos que se seguiram foram de silêncio enquanto uma fina névoa branca acinzentada provocada pela fuligem do carvão e pelo vapor que ainda havia no interior do navio cobria o local do naufrágio. O silêncio só fora quebrado por uma infinita gritaria por pedidos de socorro. Todas aquelas pessoas que não morreram durante o naufrágio, lutaram para se manterem vivas nas águas gélidas, tentando agarrar qualquer coisa que boiasse. Aos passageiros dos botes não restava nada a fazer a não ser esperar passivamente por socorro.
E fora isto que mamãe fizera. Aguardou em silêncio, sendo a última coisa que poderia fazer. Nada lhe restara, e as lembranças que a assombrariam seriam as mais abissais. Dias depois se confirmou a morte de Capitão Smith e também a morte de seu pai. Mas em tudo a vida não lhe fora tão cruel dando a ela uma chance de recomeço, mamãe descobre por fim que esperava uma criança de seu amado Edward Smith, esta velha que lhe conta esta história após cem anos.
                                ***
A esta altura meus olhos já ardiam em lágrimas que desciam pela minha face como lava de vulcão.
− Que bela história, vovó, bela história! Bela história de vida. – eu soluçava.
O momento recordação foi interrompido por batidas na porta. − Vamos, filha, logo o navio vai deixar o porto. Sua avó quer ver o pôr-do-sol, lembra-se?
− Vamos, vó. Mamãe nos chama. Está preparada para ver o pôr-do-sol? Ela me olhou com os olhos mais belos e vivos que eu poderia imaginar. Eram olhos de esperança e de alegria.
− Estou sim, minha querida neta. Estou preparada. A tarde já caía, o céu estava límpido de um azul borrado com os alaranjados e avermelhados característicos do pôr-do-sol. Vovó agarrava-se a mim com uma das mãos enquanto que com a outra segurava firme o andador. Seu olhar encarava timidamente o horizonte como se pedisse permissão aos céus para vislumbrar tamanha beleza. Permanecemos ali por eternos minutos como se nada fosse nos impedir, como se nada nos diferenciasse, éramos como duas meninas de braços abertos para o mar, sentindo a brisa marítima a cariciar a pele. O vento balouçava os cabelos da cor de neve e ela apenas fechava os seus olhos já cansados de tudo que vivera. Era como se eu adentrasse sua mente, visse todas as suas dificuldades, dores e alegrias e tudo estava cravado em sua carne, cada dor, cada amor. Os cem anos não pesavam neste momento, como fardo carregado há tempos.
Vovó soltou-se de minha mão e abandonou o andador, apenas abriu os braços com os olhos semicerrados e deixou o vento abraçar o seu corpo esgalgado. O apito do navio soou alto. As lágrimas ainda cobriam minha face e vovó as secou com as costas de sua mão franzida.
− Eu te amo, minha fia. – ela balbuciou.
Deitei vovó por alguns instantes para que descansasse antes do jantar. Fui banhar-me e tomar um café. Quando retornei minutos depois, vovó já não respondia meus chamados. O rosto pálido, as mãos gélidas denunciavam. Vovó partira deste mundo. Não fora com dor nem tristeza e, sim com muito amor no coração.
                              ***
Seu corpo foi levado pela guarda costeira em um cortejo fúnebre digno de solenidades. Todos os tripulantes estavam vestidos de branco em seus trajes de gala, enfileirados observavam o barquinho levar o seu corpo para longe do navio. Você se foi, mas um pedaço seu permanecerá em mim.
O vento espalhou as lágrimas de lava vulcânica pelo meu rosto.
                              ***
Enquanto você beijava o meu rosto eu te observava de perto. Eu era o vento que soprava suave por entre seus cabelos. Eu estava ali e com você sempre estarei…
Uma leve brisa acariciou minha face.

Publicado em Contos | Marcado com | Deixe um comentário

Matéria de Capa

Lina Stefanie e Jack Sawyer

O tic-tac do relógio na parede e minha respiração eram os únicos sons que meus ouvidos captavam, vez ou outra o roçar do lápis sobre o papel, riscando uma palavra escrita pela metade. Minha mente estava vazia. Indescritível como uma ameaça pode acabar com o bom desempenho de uma mente fértil.

As palavras do diretor da revista foram bem claras para mim. Era a chance que eu precisava. O objetivo de qualquer jornalista, um cargo na editora mais prestigiada do país. Tudo o que mais queria estava ali, naquela proposta.

Um vazio.

Eu simplesmente não conseguia pensar em nada. Revirei os jornais, a internet em busca de algum assunto interessante que merecesse ser apurado, minuciosamente explorado. E nada. Nada, foi o que encontrei. As coisas só mudaram quando conversei com um amigo que trabalhava na editora como assistente do assistente do Diretor. Ele era o tipo de cara que sabia das coisas. Vivia esgueirando-se pelas salas e corredores da editora. Ouvia e via tudo o que se passava ali dentro.

— Valkyr San Venez. Ouvi muito bem, sim. – disse o assistente. — Mas quem é este homem?

Ele terminou com o café em um gole só.

— Pelo que ouvi dizer, trata-se de um empresário mega bilionário da indústria farmacêutica francesa que está interessado em abrir filial no Brasil. O senhor Carlos parecia muito interessado na história de San Venez.

O assistente parou um instante, deu uma mordida no pão de queijo fumegante e em seguida prosseguiu.

— Ouvi-o dizer que uma entrevista com San Venez renderia boas vendas.

Enquanto o rapaz devorava seu pão de queijo, aquelas informações eram processadas no meu cérebro. Aquele nome não me era estranho. Deveria se tratar realmente de alguém mundialmente conhecido.

— O que sabe mais sobre San Venez? – Perguntei.

— Trata-se de um emergente. Em pouco tempo ficou conhecido por reerguer uma indústria farmacêutica já falida e criar um império. Está à frente de um grande laboratório de pesquisas que reúne profissionais do mundo todo. Mas o que mais interessa à editora é conhecer a vida do homem por trás do empresário, o que ninguém conseguiu até hoje. Uma aura de mistério o cerca.

— Está aí! – exclamei. — Vou fazer uma matéria sobre a vida de San Venez. Vou conseguir meu cargo naquela editora.

O assistente me fitou com um ar quase melancólico.

— Acho que você não entendeu bem. É impossível alguém tirar alguma informação de San Venez ou de sua equipe. Isso já foi tentado. Já contrataram os melhores detetives particulares, mas nada foi descoberto. Não quero desanimá-lo, estou sendo bem realista com você.

— Você não sabe quão importante este cargo é para mim. Farei o possível para conseguir uma entrevista com ele.

— Bem… Se puder ajudá-lo, me coloco à disposição. Sei que ele estará em um evento de medicina que acontecerá amanhã no centro da cidade.

— Você me ajudou muito. Agradeço. Tenha um bom dia.

Paguei a conta e saí rapidamente.

Logo que cheguei em casa, fui até o computador. Vasculhei diversos sites de busca à procura de alguma informação sobre a vida pessoal de San Venez. Bem como me afirmara o assistente, nada encontrei. A única esperança estava em encontrá-lo no evento.

No dia seguinte levantei-me cedo, preparei meus materiais de trabalho e me dirigi ao local.

Havia muitas pessoas no evento. Dentre os nomes dos palestrantes estava o nome de Valkyr. Seria possível que concedesse uma coletiva à imprensa.

Nada ocorreu como pensara. San Venez não concedeu nenhuma coletiva. Falou brevemente sobre seus interesses no Brasil. Comentou sobre suas pesquisas com células-tronco na recuperação de pessoas com deficiências físicas e a busca da cura para o câncer entre outras doenças.

Como última tentativa, decidi seguir San Venez e sua equipe. Estavam de carro. Desci me esgueirando como felino até o estacionamento.

Escondi-me detrás de uma coluna de concreto e esperei. Não demorou até que avistasse o grupo. Não pareciam muitos desta vez, mas pareciam mais misteriosos agora do que quando estavam diante das luzes do evento. Falavam pouco, olhavam papéis, gesticulavam.

Logo mudaram o passo e vieram em minha direção. Os carros estavam próximos. Abriram o porta-malas e jogaram algumas pastas lá dentro. No primeiro descuido de um de seus homens, me joguei no porta-malas me cobrindo com um plástico preto.

Foi tudo muito rápido. Com um pouco de sorte não me notaram. Bateram com força a porta do carro e logo o veículo começou a movimentar-se.

Meu coração palpitava.

O trajeto pareceu o mais longo de toda minha vida. O silêncio só era cortado pelo ronco potente do motor. Tive tempo suficiente para pensar se o que estava fazendo era certo ou não.

Assim que o veículo parou, rapidamente alguém abriu o porta-malas. Foi como se já soubessem da minha presença.

Um dos homens me encontrou.

— Valkyr, veja isto! O tom de voz era brando.

— Leve-o! – ordenou Valkyr.

Seu tom de voz era mais para um pedido do que uma ordem.

Rapidamente me tiraram do carro, dois homens brancos e longilíneos, rasgaram uma tira do plástico preto e amarram sobre meus olhos. Levaram-me para dentro e me jogaram com violência em um quarto. O local não tinha janelas, não havia nenhum móvel, apenas uma vela e uma caixa de fósforos.

Desta vez senti que podia me desesperar.

San Venez me observou durante algum tempo, mas logo bateu a grossa porta de ferro me deixando naquele lugar escuro.

Segundos depois acendi a vela.

A espera por algum sinal de esperança foi longo. Esperei sentado no chão frio durante intermináveis horas. Por sorte o celular ainda estava comigo, mas não dava sinal. Também não saberia explicar onde estava. Desliguei o aparelho para economizar bateria.

Era por volta das oito horas da noite quando um dos homens veio me trazer comida. Um prato generoso de macarronada. Comi sob o olhar frio de meu carcereiro.

Antes que terminasse a refeição, San Venez veio até nós.

— Leve-o para baixo. – ordenou sem tirar os olhos de mim.

— Para baixo? – indaguei incrédulo. — O que querem comigo? Por que estão fazendo isso? Deixem-me ir.

Tentei gritar e me sacudir, mas fora em vão. Logo prenderam meus braços e pernas e me carregaram. Descemos por uma escada estreita até chegar a um corredor extenso, todo iluminado como um corredor de hospital, mas ao invés de salas comuns havia uma espécie de jaulas. A maioria vazia.

Fui jogado em uma das celas.

As luzes eram muito fortes e brancas, a propósito, tudo ali era branco, as paredes, o chão, as grades, o que irritava demasiadamente meus olhos.

Algumas salas estavam ocupadas e a que estava de frente para a minha era uma delas. Havia um homem sentado no chão encostado na parede ao fundo. Ele me olhava friamente.

— Que lugar é este? – perguntei em voz alta.

O homem aproximou-se da grade.

— Não sei. – disse ele.

— Há quanto tempo está aqui? – insisti.

— Não faz muito. Mas não vai demorar.

— Demorar? Demorar a que?

— Morrer. Todos vão morrer! E não demora.

Aquelas palavras me atingiram como uma pancada. Fiquei trêmulo, suando frio. Não podia ser! O que havia feito com minha vida?

— Não pode ser. Por que diz isso? – eu gaguejei.

— É verdade. Já estou aqui há alguns dias e observo tudo. Sei que minha vez está próxima. Ninguém sai vivo de lá. – apontou para uma sala no fim do corredor. — Os “brancos” vêm aqui, leva as pessoas e depois trazem o corpo já sem vida.

— Como pode ter certeza? Podem estar apenas dormindo. – eu queria um fio de esperança.

— Saem de lá apenas corpos em pedaços.

Eu caí de lado. Faltou-me o ar. Minha cabeça latejava. Era a confirmação da morte certa.

Neste momento, três homens aproximaram-se seguidos por San Venez.

A tensão era total.

Um rapaz da cela ao lado fora o escolhido.

— Valkyr San Venez! – gritei quando se afastaram.

Desta vez olhou em minha direção. Um olhar frio e penetrante. Não desviei um momento sequer. Ele não esboçou reação alguma. Seguiu com o que estava prestes a fazer.

Escorreguei pela grade até cair no chão. Fiquei naquela posição tempo suficiente para adormecer. Um sono sem sonhos.

Logo que acordei, nada havia mudado. O homem da cela em frente permanecia lá.

— Eles já o levaram. – o homem comentou.

— Estava vivo? – indaguei.

Ele balançou negativamente a cabeça. Seus olhos fitavam o chão.

— Morto também. – concluiu.

— O homem… De cabelos pretos… Ao passar pelo corredor, parou e olhou durante alguns segundos em sua direção.

O comentário tirou-me do chão. Estava em um estado de dormência. Difícil explicar, mesmo para um jornalista, o que se sente em um momento como esses. Duas vertentes: uma é quando se noticia uma história de sequestro, de morte, e outra totalmente diferente é quando se vivencia tudo isso na pele. É nesse momento que o ser humano compreende seu verdadeiro valor, e é insignificante. Senti-me como o gado no frigorífico à espera da execução.

O que me restava era esperar.

Os carrascos não demoraram a aparecer seguidos de seu possível líder.

Valkyr San Venez aproximou-se e abriu a fechadura. Logo dois homens me seguraram e me vestiram com uma camisa de força. Não demonstrei resistência. Levaram-me para a tão temida sala.

O medo que se apoderou de mim foi tão violento que estive perto de perder os sentidos.

Em seguida, sentaram-me em uma cadeira e me prenderam pelas mãos e pés.

O local parecia uma sala de cirurgia. Era fria e tinha uma bancada de instrumentos cirúrgicos. Não havia sangue, isso me deu uma falsa esperança.

San Venez parou próximo a mim. Virou meu rosto e examinou o meu pescoço.

— Não é um deles. – comentou com um de seus homens.

— O que querem comigo? – inquiri.

— O que queremos? Acho que devíamos fazer-lhe esta pergunta, senhor…

— Marcos Corrêa… Ao seu dispor. – respondi sarcástico.

— Vejo que há um mal entendido aqui, senhor Corrêa. Poderia explicar o seu súbito aparecimento em nosso caminho?

A névoa de tensão dissipou-se neste momento.

— Eu… Posso explicar!

— Estamos aqui para ouvir sua explicação, senhor Corrêa. Podem soltá-lo. – ordenou San Venez.

Rapidamente livraram minhas mãos.

Senti-me aliviado.

— Bem… Eu sou jornalista e estou em busca de um cargo em uma grande editora. A única condição que tenho para conquistar o cargo é conseguir fazer uma matéria sobre sua vida.

— Uma matéria jornalística. Vejamos… Você está aqui para falar comigo, não é isso?

Balancei a cabeça.

— E o que vê de tão importante em minha vida?

— Sinceramente nunca havia ouvido falar a seu respeito. Fui buscar informações somente quando recebi o ultimato do diretor da editora. Caso eu conseguisse uma entrevista ou uma matéria que revelasse mais do que se sabe a seu respeito, o cargo seria meu.

— Vejo que conseguiu mais do que isso. Descobriu nosso segredinho.

— Talvez eu não saiba exatamente o que se passa aqui neste lugar.

***

— Mas vai saber. Não só vai saber como vai fazer parte do que acontece aqui.

— Ainda não consigo entender.

— Por ser jornalista deve saber que as células-tronco são o futuro da medicina. O processo de inserção de DNA e a sua remoção para os fins específicos nos modos normais, é muito complicado e demasiadamente demorado. Então decidimos pular a parte de experimentos com animais e partir para a produção em massa usando humanos, ou seja, quase humanos.

— Não entendi o que quis dizer com “quase humanos”? – Venez olha compassivo para mim e, após um suspiro prossegue.

— Há indivíduos entre nós que são diferentes. Dezenas de pessoas desaparecem diariamente e ninguém faz caso disso. Creio que seu jornal deve ter pelo menos uma estatística sobre esse assunto. Mas voltando, essas criaturas tem uma marca, geralmente…

— Seria a marca que você procurou em mim?

— Correto! O que nos facilita a sua identificação. Veja bem, não quero explicar meus atos, justificá-los, mas o que fazemos é para o bem da ciência e da humanidade. Retiramos esses espécimes das ruas, evitando que eles façam mais vítimas e utilizamos seu DNA para criar novos órgãos saudáveis, sem o cromossomo responsável pela mutação que eles sofreram.

— E o que a sociedade acha disto, ou o que ela vai achar quando essa história vier a público?

Com uma breve risada Venez responde a minha provocação.

— Quem disse que ela precisa saber? Está dando certo, não está? Você pode me recriminar agora, repudiar o que eu faço, condenar meus métodos, mas se você fosse um pai e seu filho tivesse um problema renal e precisasse urgentemente de um rim, sabendo que se ele ficar na fila nacional de espera pode não aguentar, garanto a você, que faria qualquer coisa para ver seu filho curado, sem se importar como.

Usei de toda a frieza que consegui reunir. Minha veia jornalística de falava mais alto que a razão.

— Com tudo o que acabou de me dizer, imagino que não sairei vivo daqui e essa estória nunca vai ser publicada, não é mesmo?

— Pelo contrário, não tenho interesse nenhum em você. Matar você seria simplesmente assassinato e acabaria com meu anonimato, afinal, um jornalista desaparecido sempre atrai a imprensa. Não meu caro, se depender de mim, você ainda vai viver muitos anos.

— Mas… – balbuciei incrédulo.

Após um aceno de Valkyr, um dos assistentes me aplicou uma injeção atrás da orelha. Não vi mais nada.

No dia seguinte, lembro-me de ter acordado em meu apartamento, com uma forte dor de cabeça e um curativo na testa, vários arranhões, nos braços, mãos e joelhos e o corpo muito dolorido.

A luz da secretária eletrônica piscava intermitentemente, Que horas eram afinal? Pela luz que adentrava a janela, já passava das 10:00 da manhã.

Caminhei com dificuldade até a secretária eletrônica e a acionei.

“Você tem oito novas mensagens: primeira nova mensagem:” (Piiiiiiiiiii)

“— Ei cara, já leu a última edição da revista? Me liga.”

(Piiiiiiiiiii) “Segunda nova mensagem:” (Piiiiiiiiiii)

“— Acorda dorminhoco e vem trabalhar!”

(Piiiiiiiiiii) “Terceira nova mensagem:” (Piiiiiiiiiii)

“— E aí cara, só porque conseguiu o emprego, acha que não precisa trabalhar, vem logo para a redação.”

Desliguei imediatamente a secretária eletrônica. Não me lembrava de nada que acontecera no dia anterior, não me lembrava de como fui ferido.

Aprontei-me rapidamente. Saí de casa e parei na primeira banca de jornal.

Dei uma olhadela nas revistas da banca e logo encontrei o que inconscientemente procurava.

Uma matéria de capa:

“Jornalista é atropelado por milionário após evento, leia mais detalhes nesta edição”.

 ***

Longe dali…

— Enviou a matéria para a editora?

— Sim senhor Venez.

— E o jornalista?

— Garanto ao senhor que ele não se lembrará de nada que aconteceu aqui.

***

Publicado em Contos | Marcado com | Deixe um comentário

Folha em Branco

Abaixo do abismo das galáxias, no porão etéreo das estrelas por onde as almas descansam suas pálidas feições soturnas, é o meu abrigo. Os precipícios mais profundos e horrendos foram minha morada pelo longo tempo em que te busquei.
E como passou despercebido ao meu olhar?
Eu estava bem ali, por debaixo da relva, por entre os seixos musguentos, nas ondulações da água do riacho. Meus olhos te espreitaram em cada passo, cada suspiro teu foi o meu suspiro. Preso em minhas reminiscências de vidas passadas.
Deslizando pelas paredes escorregadias do meu pecado. Viste-me no ponto em que me perdi, no meio do caminho. Foi meu algoz e me condenara de olhos fechados para não ver as rubras lágrimas de meu sofrimento.
— Queime! – as vozes imploraram por repetidas vezes.
Parada, indefesa ante meu destino, tudo o que pude ver e sentir estava à minha frente.
Cavaleiros da escuridão galopando bestialmente pela noite. A faísca do atrito das ferraduras sobre as pedras, o brilho do aço das correntes me envolvendo. Infausta vivência causara meus desatinos. Em meu corpo já não corria sangue. A seiva da vegetação por onde rastejara séculos, tornara-se líquido sagrado.
As chamas primeiras mal chegaram a tocar meu corpo, o seu olhar me libertou da dor, tornando-me um ser venerável, intocável.
Mas o contentamento semibreve me despertou da modorra. Fui arrancada pelas raízes, com a terra ainda se desprendendo de meu corpo, despida de todos os meus medos.
E você só poderia ter visto de onde estava, pois onde caminhei também foi seu caminho, onde me deitei, também foi o seu leito, a água que bebi, matou a sua sede, meu alimento amenizou a sua fome e o meu corpo foi o seu bálsamo. Tudo que poderia salvar uma vida estava dentro de ti. A minha vida.
Deixe-me ir. Deixe-me ir.
Arrancada do solo, levada ao firmamento, atirada contra a abóbada celeste, livre dos grilhões que me prendiam. As mãos estendidas sem o que buscar, onde se apoiar.
Atirada de volta ao solo, vi a vida passar pelos meus olhos. Lúgubres momentos. Últimos momentos. Últimos suspiros.
Órgãos, carne e ossos dilacerados. O coração ainda pulsando dolente, desesperado ante a morte certa, vindoura e breve. Morte que me causara. E tudo fora devaneio infantil, como cantiga de ninar, como loa a um amigo, como o sino que ressoa no decair da tarde vazia. Buscando pela vida, sopro divino que se esvaía inexorável após cada fôlego.
E nem todo perdão, nem toda fé, nem todo arroubo de paixão, nem todo riso, todo abraço, todo olhar, todo afago, todo apego, todo gozo humano, nem toda a vida que nos rodeia, nem todas as almas puras dos profetas, valeriam a sua vida.
Em último desatino de amor e saudade lhe ofereço a minha vida em nome do que me deu por entre os séculos que cruzamos. Em fidelidade ao que foi sacramentado nas centúrias do destino deixo àqueles que virão posteriores a mim um desabafo. Um grito derradeiro. Diálogo do espírito com a carne. Entre sangue, lágrima e suor.
Arrebatamento tardio me leva de volta, e o encanecido corpo já se desfaz por entre o solo, com os vermes almejando que o tempo se prolongue até que se desfaça a pálida carne que seu corpo tocara. Dedos cavam incessante, olhos e lábios cerrados, respiração ausente. Um fio de luz avistado aos poucos, o peso da terra rareando.
Livre.
Viva.
Os olhos fitam o empíreo num lapso de lucidez. A luz brilhante desponta por entre as nuvens.
Veloz, desce dos céus a mensagem de boas novas. A promessa da exultação, a esperança de uma vida. Num cavalgar sublime, vem ao meu alcance, descendo suave por sobre a relva, olhando-me com compaixão, despido de agonia, estende-me sua mão num último gesto de apego, enquanto esta mortal em um último aceno de afeição e fidelidade lhe oferece seu último suspiro como prova deste amor, servido no cálice do meu corpo.
Não me deixe ir. Não me deixe ir.
A brandura do beijo verdadeiro me assegura que tudo que sucessivamente busquei estava bem aí, dentro de você.

Publicado em Contos | Marcado com | 2 Comentários

Anil

Lina Stefanie

I

Por estas noites, por onde o meu espírito vagou, eu tentei compreender porque às vezes você não consegue ouvir o que é que eu estou tentando lhe dizer. Então, quando finalmente pudermos deixar de lado quem nós realmente somos por fora em nossas vidas medianas, e pudermos ouvir um ao outro, aí então você talvez possa escrever aí que o que eu senti realmente me tirou do chão e me fez ver o mundo de outro modo inesperado.

Infelizmente hoje ainda não é a eternidade, então que você possa pelo menos ouvir que não há mentiras em meus sentimentos e que não há riscos a correr quando se é livre. Eu não sei exatamente o que fizeram de você e nem em quais mentiras você acreditou quando o mundo ainda era única e somente uma grande fazenda e não os feudos que nos prenderam. Perdoe-me se eu te ofendo com as minhas sandices e não nos queira longe. Amanhã será um lindo dia.

Eu desejo que você possa finalmente compreender que nem todas as pessoas que se aproximam de você querem apenas o seu mal. Ainda há pessoas que querem sim o seu bem. O proveito é apenas uma boa amizade. O mundo não é apenas uma vasta solidão de rostos obscuros, mas o mundo também é um lugar de aventuras de seres lindos como você. Então olhe para o céu à noite e pense se não há um modo de viver sem precisar se negar. Se podemos viver aqui ou em qualquer outro lugar do universo sem precisar nos prender as coisas avessas que nos ensinaram quando ainda éramos jovens.

Amigo, há seres de luz que te cercam. Mas há as criaturas que nos engrandecem de virtudes mundanas. Esteja apenas alerta para perceber que um fio encapado não nos protege de um choque fatal. E que a morte não é tão feia, fria e solitária quanto pintaram naquele quadro da sala da casa dos grandes poetas. Há mais vida sobre o céu e a terra. A morte é apenas um trem em movimento; não são os trilhos, nem as estações, nem o ticket, nem os passageiros, nem o condutor, menos ainda as bagagens. Eu te desejaria de verdade acima das ilusões passageiras, e não pense que eu não sei como as coisas realmente são dentro do seu coração de menino. Não espere o dia amanhecer, levante antes de o sol nascer. Lave seu rosto e venha passear comigo. Eu estou te esperando…

II

…por sobre as montanhas de nuvens, e por onde o tempo passa você precisa aprender de uma vez por todas a distinguir entre o mal que nos assola e o bem que nos consola. E o mais engraçado de tudo isto é que eu mesmo talvez não conseguiria mais separar um do outro. Isto acontece porque antes de eu te conhecer, o nosso mundo já existia. Hoje, eu corro para os teus braços, e sobre os teus laços tento me envolver como alguém preso. Mas eu prefiro a liberdade, você sabe bem disto. E se não fosse o tempo ter corrido paralelo por sobre as nossas vidas, talvez eu já tivesse me livrado daquela sensação de falta de coragem.

Mas, enfim, isto faz parte de nossas caminhadas tortuosas. Fazer o quê? Eu já nem sei se subi os mesmos morros que você escalou; se mergulhei no mesmo rio que você se banhou. Se vi as mesmas estrelas que te cobriram pelo céu de outros planetas; se li os mesmos livros que te fizeram chorar ou se eu dormi os mesmos sonos que você sonhou apesar dos pesadelos. O que eu sei é que sempre nos falta algo, e este algo é o que nos tira do chão quando ainda somos tolos apenas. É exatamente este algo que nos padece caminho afora pela solidão, é ele quem nos coloca nas piores frias e nos mostra também o caminho da perdição. E apesar de tudo isto, eu sinto que ainda vou me arrepender duas ou três vezes sem te esquecer.

É um inferno. Ainda bem que não somos os únicos culpados… Mas o que fazer se somos o erro perdoado por Deus; se somos o pecado aprovado pelos amantes; se somos a poesia escrita a base de embriaguês? Enfim, se somos o que se pode esconder de uma tarde em movimentos. Ah, mas, ah, se eu pudesse voar. Eu já não seria mais covarde e faria de tudo para nos esquecer. Mas como esquecer o que se divide? É o que eu me pergunto às vezes quando penso em você. E a resposta vem como avalanche: saudade…

III

…você já pensou na hipótese de sermos apenas bons amigos? Nós poderíamos nos conhecer apenas. E nós poderíamos nos olhar? É, seria como não poder tocar. Mas nós poderíamos somente nos simpatizar. Mas não apertaríamos as mãos. Não nos abraçaríamos. Nem nos envolveríamos. Nem nos tentaríamos à lógica dos amantes. Nem repetir. Pedir em namoro. Nem ao menos nada. E ainda assim sermos felizes para sempre…

Sabe, há algo que atrai as pessoas, mas nós não somos como elas. Somos criaturas aladas. Logo, o nosso amor seria utópico. É como se eu tivesse algo para te dizer e você tivesse como me retribuir. Mas há ainda as noites e os intervalos. Há um sussurro quieto tentando nos dizer algo, e o que senti(mos) já não é mais tão claro e cristalino. Existe por mais que eu anoiteça em céu de anil algo me impedindo de seguir adiante. É como se fossemos só nós dois por caminhos tortuosos cercados por outros seres errantes.

Ainda bem que existem os livros. Então, lá estará um dia escrito a nossa memória. Alguns momentos de paz. Alguns momentos de delicadeza. E o cumprimento de nossas fantasias. E a cor dos seus olhos. E o seu nome, como uma linda carta de amor. E o brilho das páginas. E o volume das suas mãos. E a carícia de cada folha. Seria como um verdadeiro romance…

Será que não seria mais fácil pintar um quadro? Compor um novo soneto, uma canção nova? Enviar uma mensagem codificada numa astronave? Lapidar vosso segredo num epitáfio? “Aqui jaz nossa solidão”. Mas eu não suporto a morte. Eu prefiro a vida que nos reservou os espíritos. E ainda prefiro você por um dia. Então não me deixe ir embora. É que eu gostaria de ser feliz para sempre ao seu lado um dia ao menos. Nem que a nossa história tivesse apenas uma página. Então que fosse apenas uma única página rascunhada pelas suas próprias mãos…

É realmente uma pena que as pessoas não consigam crer no poder das palavras, não é mesmo? As palavras constroem sentimentos indescritíveis e registram momentos absurdos. E dizem que elas até guardam segredos e mensagens subliminares. Elas enaltecem os bons momentos e os sentimentos que tenho por você. Aliás, você, por acaso, já pensou em ler de trás pra frente a palavra anil?”

Publicado em Contos | Marcado com | 1 Comentário

Segredo Oculto

 Maria escancarou as portas do seu armário e sentou-se à beira da cama olhando o enorme volume de roupas que até mesmo poderia jogar fora. Em menos de um ano, já era a terceira vez que teria de se mudar. Logo agora que estava se acostumando com a nova casa.

Seu pai trabalhava com plantas ornamentais e desejava há algum tempo encontrar um bom lugar para abrir uma floricultura e ter um espaço para plantar suas flores.

Não demorou até que seu pai encontrasse uma casa que atendia às suas necessidades. E como era de costume, mais uma vez teria de se mudar. A mudança foi numa manhã de sábado. Tivera tempo para arrumar todas as suas coisas e ainda descansar um pouco.

A casa ficava em zona rural, e os vizinhos mais próximos moravam a aproximadamente um quilômetro e meio. O lugar era bonito e agradável para quem não gosta da agitação da cidade e prefere o sossego do campo, e o mais importante, havia espaço de sobra para se plantar.

Ajudou seu pai a descarregar o restante dos objetos e entrou para começar a arrumação. Sua mãe já estava no interior da casa à sua espera. Quando pisou na soleira da porta, jurou ter sentido um arrepio descer-lhe à espinha, e sentiu os cabelos da nuca se arrepiar também. Bateu três vezes na madeira pensando neutralizar qualquer energia negativa.

Sua mãe estava feliz com a nova casa. Era espaçosa, arejada, os quartos eram amplos, a varanda era aconchegante. Um lugar agradável. A construção era antiga, mas a velha casa permanecia de pé e não aparentava toda idade que tinha, pois há pouco havia sido reformada.

O dia foi longo para Maria. Trabalhou bastante até conseguir deixar tudo em ordem e a seu gosto. Seu irmãozinho, Fernando, de apenas seis anos de idade, apenas brincou o dia todo em um banco de areia que havia no quintal. A noite não demorou a chegar e logo a família se reuniu para jantar. Maria sentia falta dos barulhos da noite na cidade. Tudo ali era tranqüilo demais. Havia dois quartos na casa, uma sala, a cozinha e o banheiro. Dormiria com seu irmão em um quarto, enquanto seus pais ficariam com o outro.

O fim de semana passou rápido. Na segunda-feira ela teve de ficar sozinha com seu irmão, pois seus pais tiveram de ir para a floricultura que era distante dali. Procurou fazer todos os seus afazeres de manhã para que tivesse algum tempo para brincar com Fernando. Sentia falta de ter pessoas para conversar, mas acreditava que aos poucos se acostumaria. Era difícil passar o dia todo apenas na companhia de seu irmão. Seus pais sempre chegavam quando já estava escuro.

Com o passar dos dias sentiu que não gostava de ficar dentro de casa. Era fria e úmida, bem diferente de quando chegou. Vivia constantemente usando blusas, mesmo quando o sol brilhava lá fora. Apenas Fernando não sentia o mesmo, vivia arrastando seus carrinhos pelo chão usando apenas bermudas. Sentia-se cada vez mais sozinha e até mesmo chegou a comentar isto com seus pais, que não se importaram muito, dizendo que tudo não passava de uma fase de transição. Passou a achar que enlouquecia. Toda vez que se deitava para dormir, não conseguia pegar no sono. Virava de um lado pro outro tentando achar a melhor posição. Deixando o quarto sempre o mais escuro possível, e mesmo assim passou a ver imagens estampadas na parede. Esfregava os olhos várias vezes, mas elas não desapareciam. Pensava ser coisa de uma mente alucinada.

Noites a fio passava observando as imagens na parede que às vezes formavam rostos e outras vezes eram apenas espirais que giravam insistentemente. Não contou isso a ninguém para que não atestassem sua loucura. Desejava não ter de dormir mais naquele quarto. Tentou algumas vezes dormir na sala, o que não ajudou muito, pois coisas piores aconteciam ali. Dormia no sofá e por vezes sentia alguém lhe puxar o cobertor com violência. Levantava-se assustada e assim que colocava os pés no chão, mãos geladas agarravam seus calcanhares. Tentava gritar, mas sua voz saía sempre como um gemido. Quando conseguia correr até o quarto dos pais, sempre ouvia a mesma frase: “Está sonhando ou imaginando coisas!”.

Mas ela sabia que não era isso. Estava certa de que não era. Estava profundamente perturbada. Para piorar sua situação, seus pais passaram a levar Fernando com eles para que fosse à escola e apenas o traziam de volta à noite. O fato de estar definitivamente sozinha fez com que os fenômenos aumentassem. Quando estava na sala ouvia ruídos vindos da cozinha. Encolhia as pernas sobre o sofá e tapava os ouvidos. Não era suficiente para que não ouvisse as portas do armário se abrindo, os copos e pratos sendo quebrados, torneira sendo aberta. Era enlouquecedor. Quando era tomada de certa coragem, levantava-se e ia até a cozinha e para sua surpresa, sempre tudo permanecia intacto, em seus devidos lugares.

Aos poucos foi emagrecendo, seus olhos viviam com olheiras, em seu corpo apareciam marcas roxas, como se fosse espancada por alguém e, mesmo assim seus pais ainda achavam que ela apenas tinha uma mente fértil demais.

Cansada de vivenciar aquele tormento, decidiu abandonar tudo. Andou e andou até avistar a casa dos vizinhos mais próximos. Estava exausta. O sol estava a pino. Decidiu bater palmas e pedir um pouco de água. Uma mulher aparentemente simpática veio atender. Maria a cumprimentou e disse-lhe onde morava. A mulher arqueou um pouco a sobrancelha.

Após conversarem um pouco do lado de fora, a mulher a convidou para entrar.

— Então você mora na casa velha? – perguntou a mulher enquanto servia-lhe água.

Maria apenas meneou a cabeça.

— E você está gostando de lá?

Silêncio entre as duas.

— Na realidade… Não!

A mulher sentou-se fixando o olhar sobre a jovem.

— Percebo que não está feliz. Talvez eu possa ajudá-la.

— Talvez não! – Maria suspirou.

— Não aparenta ser uma pessoa feliz. Existe algo que a preocupa? Não precisa ter medo de se abrir.

Maria não conteve as lágrimas. Ignorou a voz que no fundo a mandava voltar para casa e falou:

— Sim. Talvez tenha algo a dizer. Coisas ruins vêm acontecendo comigo. Apenas comigo.

— Não precisa me falar muita coisa. Poupe seu coração. Moro aqui há algum tempo e já ouvi muitas histórias. Não precisa me contar. Posso imaginar! – disse a mulher, enquanto discretamente observava as marcas nos braços dela.

— Então a senhora acredita em mim? Naquela casa existe mesmo algo sobrenatural? O que sabe a respeito?

— Bem… Quando me disse onde morava, confesso que meu coração gelou. Há muito tempo atrás, viveu naquela casa uma família. Três filhos e sua mãe, já idosa. Eles viviam bem, mas um dos filhos enlouqueceu. Via vultos, objetos que caíam no chão, coisas que se quebravam. Dizem que ele acabou contagiando os irmãos com sua loucura e por fim, os três acabaram por matar a própria mãe, e dizem que a enterraram sob o chão da cozinha. Essa história chocou muita gente, pois eles ainda moraram durante um bom tempo na casa, sobre o túmulo da mãe.

A jovem sentiu medo. Aquela história era inacreditável. Não deveria ser verdade.

Tomou a água rapidamente e despediu-se da mulher, correndo de volta para casa.

            Quando chegou, tudo estava como havia deixado. Entrou devagar pela porta que dava na cozinha. Olhou ao redor e não viu nada de estranho. Lembrou-se de que a mulher havia dito que o túmulo da velha era na cozinha. Puxou a mesa para um canto e abaixou-se para arrastar o tapete, não conseguiu, pois todos os armários começaram a se abrir novamente e os pratos e copos eram cuspidos de dentro deles com violência sobre ela. As gavetas começaram a se abrir e fechar, e os talheres também voavam lá de dentro em sua direção. Ela não se deixou impressionar, mesmo sentindo seu corpo paralisado pelo temor, não desistiu.

            O tapete parecia estar preso ao chão, não se soltava. Um vento forte vindo do lado de fora a jogou contra a parede, abrindo um corte em sua fronte. Recordou-se de que sua mãe dizia que contra os poderes do mal, apenas a oração fazia algum efeito, resolveu iniciar uma série de orações que se lembrava. A princípio não surtiu efeito, mas devido a sua insistência, os fenômenos cessaram.

            Desta forma pode finalmente arrastar o tapete e constatar que o piso da cozinha era irregular. Havia uma parte que parecia ser nova, como se alguém o tivesse quebrado e o refeito. Formava perfeitamente o desenho de uma sepultura.

            Tomando-se de toda coragem que ainda lhe restava, procurou por alguma ferramenta que a ajudasse a quebrar o piso. Encontrou um pé-de-cabra, e com toda força que tinha, quebrou todo o piso. Pegou uma pá e em seguida retirou a terra. Não ficou surpresa ao encontrar a ossada humana. Sentia-se paralisada pelo pavor, mas ainda conseguiu retirar os ossos e os levar para fora de casa.

            Já escurecera e seus pais não demorariam a chegar. Preparou uma pira improvisada e ateou fogo nos restos mortais que encontrara.

            Quando seus pais finalmente chegaram, ela ainda estava no quintal, ajoelhada junto à fogueira. Assustaram-se em vê-la naquela situação, com as roupas sujas e com terra nas unhas e cabelos.

            A abraçaram perguntando o que havia acontecido.

            Maria lhes contou tudo, desde o princípio e todos se chocaram com sua história. Imediatamente resolveram arrumar as coisas e partir para longe dali. Arrependeram-se de não ter dado ouvidos à ela.

            Partiram para sempre, deixando para trás a velha casa e toda maldição que pairava sobre ela.

Publicado em Contos | Marcado com | Deixe um comentário

Brinquedo Macabro

Olá meus amigos. Este conto eu escrevi em dueto com meu querido amigo, Jack Sawyer.

1ª parte – Jack Sawyer

A menina acordou com o som de pequenos passos batendo no assoalho de madeira. Lá fora se anunciava uma tempestade, e os galhos da árvore batiam na janela, como se fossem grandes mãos com dedos esqueléticos arranhando a vidraça.
Ainda esfregando os olhos, pode perceber certa bagunça em seu quarto. Entre o lampejo de um relâmpago e outro, notou que havia vários brinquedos espalhados pelo chão. Não se lembra deixá-los ali. Principalmente as bonecas. Ainda mais, aquela boneca. Não gostava dela. Ganhara em seu aniversário, no dia anterior, mas preferia as outras. Sua coleção de Barbie e Poly estava quase completa. Meio assustada ainda resolveu descer da cama para guardar as bonecas. Ao pisar no chão, sentiu uma picada no calcanhar. Rapidamente retornou à cama e ficou procurando o que a havia acertado. Quando olhou para baixo, percebeu que seu medo era infundado. Havia pisado em um dos acessórios da Barbie. Recolheu todas as pequenas peças e foi em direção às bonecas espalhadas. Deu um grito de susto, ao perceber que haviam removido as cabeças de todas as suas bonecas. Quem poderia ter feito uma malvadeza dessas? Poderia ser o filho da vizinha, que vez ou outra aparece em sua casa. Mas é noite, e ela lembrava muito bem de ter colocado as bonecas na estante, menos a… Menos a boneca que havia ganhado de aniversário. Mas onde estava ela? Olhou o quarto todo, até embaixo da cama, mas não a encontrou. Ela não poderia sair andando por aí. Riu da ideia absurda, bonecas não andam, não as suas.
Lembrou-se de ter ouvido pequenos passos antes de se levantar e pensou:
“Será que mamãe comprou um filhote pra mim? Isto explicaria a bagunça no quarto e as bonecas sem cabeça”. Abriu a porta do quarto e olhou para os dois lados do corredor, já animada com a ideia de ter um cãozinho ou um gatinho para brincar. Quando deu um passo para fora do quarto pisou em algo, perdeu o equilíbrio e bateu o ombro na mesinha do corredor. Ao observar o que havia causado seu tombo viu uma das cabeças de Barbie. Com o flash de outro relâmpago, pode ver pelo canto do olho, um pequeno movimento à sua esquerda em direção ao outro quarto.
Levantou-se, apoiando com o braço direito, pois o esquerdo doía violentamente. Caminhou até o quarto onde vira a figura se esgueirar. Quando entrou nada encontrou a não ser algumas cabeças de bonecas arrumadas em cima da cama, olhando para a porta. Em sua direção.
“Quem estaria fazendo isso comigo?”.  — Pensou. Agora completamente assustada.
Ouviu novamente passos atrás dela, passando muito rápido, acompanhado de uma risadinha divertida, em direção às escadas, a caminho da cozinha.
Mal dava para ver, só conseguiu perceber o vulto. Correu para as escadas e escorregou em mais uma cabeça de boneca.  Caiu sentada na escada, batendo o ombro machucado no corrimão. Ficou ali, chorando de dor, no ombro e nas nádegas.

Lá embaixo, na cozinha, ouvia o barulho dos talheres, a risada cada vez mais alta e a voz ressoando pela casa inteira, dizendo “Por que você não brinca comigo?”, repetia.
Do alto da escada, ela via a sombra se projetando na porta da cozinha, revelada pelos relâmpagos. Como gostaria que sua mãe estivesse em casa. Mas não estava. Ela só chegaria mais tarde.
Decidiu descer as escadas e ir até a cozinha. A curiosidade era maior que o medo. Ficou mais atenta para qualquer ardil que aquela coisa, seja o que fosse, estivesse preparando.
Devagar, chegou ao pé da escadaria, olhou dentro da cozinha, e lá estava ela, em cima da pia, com uma faca em sua pequena mão. A boneca falava e dava risada, dizendo baixinho com sua voz doce “Por que você não brinca comigo?”, depois mudando o tom, acrescentado um som mais sinistro, mais gutural “EU VOU TE MATAR”.

2ª parte – Lina Stefanie

A garota parou, estarrecida ante aquela cena grotesca. Seus olhos não lhe mostravam a verdade. Aquilo tudo não passava de sua imaginação brincando de assustá-la. Não deveria assistir tantos filmes de terror assim, sua mãe não cansava de alertá-la. Mas agora sua mãe não estava ali para ajudá-la, o mundo havia parado naquele instante e ela, sozinha, enfrentaria seu pior pesadelo.
Moveu um pouco o corpo em direção a boneca, imaginando que ela permaneceria em seu lugar. A boneca sorriu e não se moveu. Tentou aproximar-se um pouco mais, sem sucesso, seus pés não lhe obedeciam.
— Eu irei matá-la! Não se aproxime! Eu sei que irei.
Os olhos arregalando, os trovões explodindo violentamente do lado de fora. A tempestade estava em fúria.
— Venha boneca! Você me pertence agora e ninguém mudará isso.
— Você não me desejou, eu sei. Eu sinto. Por este motivo você irá morrer. Devo cumprir meu destino. Nasci boneca para ser amada, e você não me quer aqui. Morrerá agora e quantas vezes for preciso.
— Venha… — A menina estendeu os braços carinhosamente.
A boneca olhou-a de soslaio. Os olhos de feltro não se moviam. A faca não se movia em suas mãos pequeninas, indefesas.
— Não importa o que senti por você antes, boneca. Quero amá-la, me ensine. Faremos parte da vida uma da outra. Basta você acreditar.
O coração da garota saltava dentro do peito.
Em um breve instante pensou que conseguiria enganar a boneca, mas este instante não durou e novamente tomada de fúria, a boneca partiu para cima dela com a faca em punho.
— Não! — A menina gritou apavorada ante o prenúncio da morte certa.
Caíram no chão as duas disputando uma guerra louca pela vida.
A faca deslizou cortante no pulso da menina deixando-lhe um rastro de sangue e dor no antebraço.
Rolaram por alguns minutos pelo chão até descerem violentamente escada a baixo.
A faca voou longe, dando tempo para a garota livrar-se do brinquedo amaldiçoado.
Num ímpeto de força atirou a boneca para longe, acreditando livrar-se dela. Levantou e rastejou pelo chão da sala. A boneca teve tempo de apanhar novamente a faca e partir novamente para cima da garota.
Nada daria fim aquela disputa. O fim teria chegado naquele instante.
O brinquedo amaldiçoado havia adquirido uma força sobrenatural e desta vez não daria chances para a menina.
— Venha, vamos brincar. Não tema. — A menina tentou um último agrado.
A boneca não vacilou, atacou sem piedade a pobre garota. Esfaqueou várias vezes o pequeno corpo frágil. O sangue jorrou espalhando-se pela camisola.
O monstro soltou um grito estridente e uma risada mais alta ainda.
A menina agonizava caída no chão.
— Filha… Vamos, fale comigo! Responda! Estou aqui. — Dizia a mãe da garota, em pânico.
Porém, nada foi suficiente. Ela não respondia.
Após várias tentativas, a mãe não suportando a angústia da filha, disparou um tapa no rosto dela.
— Aiiiii… — O grito ecoou no quarto vazio.
A camisola da menina estava encharcada de suor. A dor a fez acordar do pesadelo.
Abraçou a mãe fortemente e chorou.
Ao olhar em sua cômoda, viu a boneca olhando e sorrindo seu riso macabro.
— Filha. O que houve? Por que está assim? Tão desesperada? Diga-me!
— Mamãe… Por favor… Jogue aquela boneca fora. Bem longe de mim. Não a quero aqui. Por favor.
— Sim, querida, jogarei, mas não fique mais assim. Tudo ficará bem. Eu prometo.
— Prometa que nunca mais me dará uma boneca de presente. Prometa!
— Sim, eu prometo. — A mãe respondeu.
A menina fechou os olhos e suspirou. Assim que os abriu viu o semblante demoníaco da boneca transformar-se novamente. A faca estava ainda sobre a cômoda.
Mas tudo não passara de um sonho. Apenas um sonho de garota.
E a boneca foi jogada no lixo, com a promessa de que iria ser o presente de outra garota indefesa que pudesse servir-lhe de vítima para que desse continuidade ao seu legado de dor.
A garota teve problemas por toda sua vida, nunca mais dormiu como antes, nem teve brinquedos.
E, como poderia?

 Lina Stefanie

Publicado em Contos | Deixe um comentário