Arquivo da categoria: Contos

Aqui nesta categoria são postados os contos da escritora Lina Stefanie.

Querubim

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O céu negro era momentaneamente iluminado por violentos raios que apareciam e desapareciam sem que meu olhar conseguisse acompanhar. Gotas pesadas de chuva açoitavam minha face e em meio ao caos e aos destroços da luta sangrenta em que participara, a vida que habitava meu ventre se fez notar. Pequenos chutes no meu abdômen me acordaram do torpor. Não tinha noção de quanto tempo estava caída no chão esperando a morte me levar para qualquer lugar que não fosse aquele.

Não havia sinal de que ele retornaria. Não havia chances de concretizar todos aqueles planos.

***

Rue Saint Séverin – Paris

Após o encontro com anjo negro que me salvara e ao mesmo tempo roubara meu coração, meus dias seguiram vazios e sombrios. Não restara nada de minha antiga vida. Minha mãe morta pelo monstro o qual ela jurou amor eterno. As cenas da tragédia corriam pela minha mente como uma corredeira de águas negras. O que me acalentava era a esperança de rever meu salvador. Mauro, o anjo negro de olhos brilhantes e sorriso vívido. Do alto da torre de Notre Dame provavelmente ele espreitava buscando o momento certo para ganhar vida e caminhar pelas ruas estreitas de Paris durante a noite.

Isso apenas era uma suposição palpável para mim. Na minha mente quase infantil cheguei a crer que tudo não passara de um sonho louco, sonho de garota que construiu castelos por toda uma vida imaginando encontrar seu príncipe encantado que a tiraria da desgraça em que via-se submersa por toda uma vida.

Mas Mauro não era um sonho, foi extremamente real e palpável. Eu o sentia, sentia o calor dos seus lábios macios nos meus, sentia a firmeza de suas mãos nas minhas e isso causava um rebuliço dentro de mim a cada instante em que as lembranças retornavam.

Real. Ao menos em minha mente… Real!

Porém a vida não me dera motivos de desejar viver. Órfã de mãe, estuprada e espancada durante uma infância infeliz, sem ao menos um lugar para descansar meus ossos durante as frias noites. Não demorou até que minha vida se resumiu a mendigar pelas ruas de Paris. Eu já não tinha condições psicológicas de levar uma vida normal. Não dormia e quando chegava a cochilar era arrebatada pelos sonhos terríveis dos momentos em que encontrei minha mãe morta aos pedaços no chão da sala.

Como algo que já estava escrito para mim, mina sina se resumia em apenas uma saída naquele momento. A morte. E isto passou a ser uma obsessão para mim. Dormia e acordava com isso em mente. Planejava de todas as formas morrer, apenas isso, deixar de existir, dormir o sono dos justos e dos incautos, para sempre. E a cada dia eu morria um pouco por dentro, então porque adiar algo inevitável?

No dia do meu suposto suicídio acordei em meio a uma enxurrada de entulhos e lama. Dormira em um beco escuro e muito sujo e a chuva caiu por toda noite. Estava decidida. Não fazia sentido continuar vivendo.

O suicídio para mim não passava de uma libertação. A palavra morte não tinha peso neste momento, eu desejava apenas matar a dor que me consumia a cada instante.

Esperei o dia passar com a convicção de que faria tudo no cair da noite. Logo que o céu enegreceu parti rumo à catedral de Notre Dame. Esgueirei-me por entre os transeuntes e me escondi por um tempo até conseguir me dirigir para a torre dos sinos. Em pouco tempo estava na torre mais alta de onde se via uma Paris sombria sob um céu escuro, nebuloso, entremeado por raios que explodiam como num show de luzes. Enquanto subia a escadaria meus velhos trapos de roupas prendiam-se vez ou outra nas farpas de madeira do caminho.

Cheguei ao topo da catedral com o coração disparado. O vento batia leve no meu rosto. Por um instante fechei os olhos e senti o cheiro de Paris vindo de todos os lugares. As coisas sempre podem ser diferentes, pensei comigo mesma, porém no meu caso não foi assim. Sina de dor e destruição.

Escorreguei os pés para próximo do peitoral e olhei ao redor. O vento ainda mais intenso açoitava minha face como tapas que fariam acordar para o ato. Vacilei por um instante e as lágrimas desceram como corredeiras por meu esquálido rosto. Caí de joelhos, aos prantos, as sujas mãos cobrindo a vergonha que minha alma exalava.

­— Você realmente fará isso? – uma voz angelical me tirou do torpor.

Levantei o olhar, admirando aquele ser que se sobressaía das trevas como se a lua brilhasse para ele.

Quando as negras asas se abriram como à espera de um abraço eu caí enfraquecida.

Com mãos firmes como aço e macias como as nuvens ele me segurou. Sorriu com os dentes mais alvos que até mesmo a luz da lua intimidou-se.

– Eu voltei, meu amor… Eu voltei. E não há nada, não há pedra ou fogo, não há aço ou ferro de correntes que nos prenderão nessa vida de desgraças.

Nos beijamos e o mundo parou. A lua adormeceu e o sol acordou. Foi nossa noite de amores sob a relva de um jardim de flores de mil cores.

Eu sorri admirando o céu. “Só o amor salva!”. Minhas palavras foram um sussurro.

Os momentos de amor foram eternos e extasiantes até o momento em que meu amado foi tocado por um chamado dos seus semelhantes. Uma luta entre vampiros e gárgulas assolava Paris. Mauro precisava partir e não o abandonei.

Enquanto a batalha transcorreu horrenda entre mortos e destroços, eu estava segura. Admirando a cada instante a alva pele de meu abdômen se contorcer e esticar rapidamente. Um bebê lindo e amado crescia feliz e protegido dentro de mim.

E no pior momento da batalha senti as primeiras dores lancinantes do parto. Rastejei-me até a rua e gritei aos céus, gritei para que o vento levasse meu chamado.

Meu ventre já se dilatava intensamente quando deitei-me enfraquecida pela dor.

Meu filho nascia.

Num segundo abri os olhos embaçados de lágrimas e o vi.

— Mauro…

– Não diga nada! – ele calou-me com um beijo terno.

Com nosso filho e seus braços ele chorou como nunca o vi chorar. Suas lágrimas eram como prata líquida desenhando no rosto negro de ébano.

— Esse é nosso filho, minha musa, a criança mais bela que os deuses nos deu.

O bebê era alvo como a neve sob a luz do sol e pequenas asas negras e macias adornavam suas costas.

— Vlad será o seu nome!

Abraçamo-nos os três e neste momento as nuvens se dissiparam e os raios do sol saudaram nosso amor.

***

Catedral

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Rue Saint Séverin – Paris

– Moça, passe o cartão, por favor. Moça?
O silêncio em que me vi mergulhada por segundos foi quebrado por uma voz feminina que me chamava insistente. A cliente segurava o cartão de crédito enquanto me olhava curiosa. Atendi rapidamente e voltei meu olhar para o que prendia minha atenção.
Um homem misterioso, sentado sozinho na última mesa da cafétéria. A pele da cor do ébano parecia reluzir como diamantes negros sob a luz fluorescente. Olhar calmo e um meio sorriso nos lábios macios. Folheava um livro antigo enquanto bebericava um cappuccino. Eu não sabia nada a seu respeito, porém me perdia em encantos toda vez que o via.
Mistério. Palavra que o definia para mim.

Nesse instante o vi levantar-se e se aproximar de mim. Meu semblante mudou, as pernas enfraqueceram e algo se revirou no meu estômago causando-me náuseas.
O seu andar era lento e parecia flutuar sobre o piso reluzente.
– O cappuccino estava divino, senhorita. – ele estendeu o dinheiro e me sorriu com dentes alvos como marfim.
Eu apenas congelei. Não tive reação. Aquele ser mexera comigo de forma sobrenatural.
Um momento inusitado e mágico que me fizera sair das profundezas de tristeza em que se resumia minha desgraçada existência. Aos vinte e sete anos de idade, garçonete de uma cafétéria próxima ao Rio Sena, filha de mãe bêbada,  abusada e espancada por um padrasto viciado. Não havia muitos motivos que me faziam sorrir. Vez ou outra me perder nesses sonhos de menina me tirava do chão.

Neste dia não fora diferente. Voltei para casa exausta do trabalho. Morávamos numa velha casa nos arredores do Rio Sena. Ao chegar estranhei o silêncio. Mamãe não estava,  somente Jean Paul, o padrasto motivo de minha desgraça. Procurei ir para meus aposentos sem ao menos dirigir-lhe a palavra. Mas a sorte não seria minha companheira nessa noite. Fui agarrada violentamente pelo braço e atirada contra a parede. O barulho de minha cabeça batendo contra os tijolos foi assustador. Senti o calor do sangue escorrendo pela fronte e antes que conseguisse balbuciar algo, minha boca foi atingida por um soco violento. Cambaleei e caí de lado, desfalecendo. Jean Paul neste instante já estava sobre meu corpo, arrancando minhas roupas, rasgando-as como trapos. Já não tinha forças, de minha garganta saiu um gemido de dor, quase um grito gutural. Minha boca foi tapada com os restos de minhas vestimentas, meus olhos reviraram nas órbitas tamanha a dor de meus ferimentos. Não reagi. Não havia o que fazer. Mais uma vez fui violentada e jogada como bicho no frio piso do banheiro.
– Fique aí, vagabunda. Isso é pouco pelo que merece. – Jean Paul ligou o chuveiro e a água caiu fria como metal cortante ao tocar minha pele.
Lavei-me como fosse o ser mais repugnante e imundo do planeta. Estava suja, fisicamente e interiormente, como se minha alma estivesse podre.

Os dias que se seguiram foram dolorosos, dias frios de inverno e a dor na alma que me consumia segundo após segundo.
Quase um mês se passou até que visse novamente o homem misterioso. Ah… Como a visão do seu semblante me acalmava! Era como bálsamo ao meu sofrimento.
Neste dia eu lhe sorri. Sorri com toda pureza de minha alma sofrida, sorri como se o tempo fosse parar naquele encontro.
Não tinha pretensão de seduzi-lo com minha beleza quase inexistente. Ajeitei os cabelos que me caíam em cachos dourados sobre os ombros, estiquei o velho e amassado vestido e sorri para ele. Porém nesse dia ele não me devolveu o sorriso. Olhou-me firme nos olhos, afastou os cabelos do meu rosto e inquiriu:
– O que é isso? – apontou para o corte ainda visível em minha fronte.
Eu corei. Baixei o olhar e sussurrei:
– Isso? Apenas um tombo no banheiro.
Não sabia mentir. Minha desculpa soou ridícula. Ele apenas me fitou com os olhos negros como a noite sem luar e despediu-se.
– Nos vemos por aí, senhorita. Tenha uma ótima noite.
Partiu e, com ele um pedaço de mim.

Voltei para casa nesse dia com o coração em frangalhos. Minha vontade era me jogar em seus braços e contar-lhe o motivo de minha tristeza. Talvez fugissemos juntos para nunca mais voltar, talvez nos amássemos e eu nunca mais experimentasse o fel do sofrimento. Mas tudo não passava de sonhos de mulher sofredora. Meu destino era outro.

Abri a velha porta de madeira da sala e entrei cabisbaixa. Sob meus pés observei marcas escuras e ao acender a luz deparei-me com marcas de sangue espalhadas por todo o cômodo. Forcei as pernas trêmulas e caminhei até a cozinha. Qual não foi o horror que me dominou ao ver o corpo de minha mãe caído ao chão. O abdômen aberto, as vísceras espalhadas, os cabelos num emanharado em meio às poças de sangue e miolos.
O chão me faltou e caí de joelhos. Rastejei ao redor do corpo como fosse acordar de um pesadelo horrendo.
Em instantes Jean Paul apareceu em minha frente com uma faca nas mãos. O metal reluzia.
Num último esforço atirei uma cadeira sobre ele.
– Monstro! – gritei.
Jean Paul caiu de lado e pude pular sobre ele tentando uma fuga desastrada.
Passava de meia noite e não havia luar. Saí em disparada, numa corrida louca em direção à catedral de Notre Dame. Jean Paul logo atrás de mim, os olhos faiscavam de ódio.
O esforço extremo e o pavor me dominaram. Caí em frente ao portal principal da catedral. Jean Paul riu alto. Um riso de vitória. Jogou-se sobre mim e cravou a faca em meu ombro. Virei os olhos para o céu. Nesse instante o céu iluminou-se como se a lua saísse de trás das nuvens. Tudo que meu olhar alcançou foram as gárgulas da catedral e ainda delirando de dor e desespero tive a impressão de que uma das estátuas se movera e em seguida alcançara o céu num vôo ágil. Não passou um minuto até que Jean Paul fosse atingido por uma sombra negra que o atirou violentamente sobre a escadaria da catedral. Num esforço extremo arranquei a faca do meu ombro e deitei de lado para observar o ocorrido. À minha frente vi levantar-se uma gárgula enorme, com asas negras reluzentes e caminhar em direção a Jean Paul. Estava morto.
Esfreguei os olhos como se tudo aquilo não passasse de minha imaginação. Tentei rastejar em direção à estátua que ganhara vida. Ela virou-se para mim e como uma visão sobrenatural transformou-se em um homem. O homem da cafétéria. O negro encantador que me roubou o coração.
Não tive reação. Deitei-me de bruço buscando forças para enfrentar os acontecimentos. O homem me ergueu do chão sem esforços. Pegou-me nos braços e abriu asas que nos levaram para o céu em um salto. Eu flutuava naqueles braços. Não havia dor, não havia sofrimento, somente nós dois presos num abraço em direção ao céu infinito.
Fui colocada deitada no chão da nave da catedral.
Ainda sorrindo perguntei-lhe:
– Qual seu nome?
Ele com os olhos brilhando como estrelas, balbuciou:
– Mauro. O seu salvador.
Fechei os olhos e recebi seu beijo fraterno. Nossos labios se uniram, assim como nossas almas, juntos, num vôo através da eternidade.

Fim

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Foi um lance de segundos e meus olhos se fecharam involuntariamente. Meu corpo bateu no chão bruscamente. Minha mente trabalhava incessante com os pensamentos pairando no meu cérebro como aves que voam sem seguir uma lógica, um caminho. O coração disparado, batendo no peito anunciava uma parada iminente.

Parou.

Rapidamente vi o rosto de minha filha irreconhecível, triste, com lágrimas escorrendo pela face pálida, eu estava parada em um corredor branco, comprido, cheio de portas abertas. Tentei me arrastar pelo chão, estava sentada, meu corpo estava pesado, quas
e inerte. Num impulso animalesco levantei – me. Atrás de mim estava minha mãe com o semblante sisudo, vestida de branco, rosto rosado, cabelos da cor da palha de milho. Me estendia a mão sem esboçar sentimento. Chacoalhava a mão como se me ordenasse: – Venha!

Mas este semblante em seu rosto eu nunca presenciei. Mamãe sempre sorriu, nunca chorou. Seu olhar era quase uma súplica: – Me siga!

Vovó estava perto, os cabelos longos e negros como breu. Vestido comprido, tão longo que não pude ver seus pés. Na minha cabeça o turbilhão de pensamentos ainda pairando, descontrole total. Não havia batimentos cardíacos, dentro de mim supremas dores me dilacerando de dentro pra fora. Eu podia sentir o sangue escorrendo e dançando entre minhas entranhas. Era o fim. E esse fim não era ameno como ouvíamos dizer. “A morte é o fim de tudo”. Não era. Eu estava ali, podia sentir a dor carnal. Já não pensava em mim, no meu corpo já sem vida. Pensava em quem ficaria. A dor dos meus entes queridos velando o que restara do meu corpo. O mesmo corpo que deu à luz uma bela criança, o mesmo corpo que tanto fez pelas pessoas. Eu tinha vivido. Sorri, chorei, brinquei, amamentei e acalentei minha filha em meus braços.

O fim é injusto e inevitável.

De súbito minhas divagações post mortem foram interrompidas por pancadas fortes no meu peito. Eu fui sacolejada como um boneco velho arrastado por uma criança.

Numa luta extrema e dolorosa, arrancaram – me dos meus devaneios imortais.

Ao abrir os olhos, minha retina foi trucidada por uma luz branca e intermitente.

Ela voltou. Leva para o CTI.

Ouvi uma voz firme e estranhamente calma dizer.

Um frio incontrolável sacudiu meu corpo, fazendo com que me debatesse sem parar. Sob mim uma gélida mesa de inox.

O silêncio gritou por dentro alguns instantes, fechei os olhos e dormi um sono profundo.

Lina Stefanie

Psicografia Materna

Aquele dia não poderia ser diferente do que foi. Tudo caminhava na direção da tragédia, se assim posso dizer. A vida nunca foi a ideal, porém foi a minha alegria receber o pouco que Deus sempre me ofertou. Vivi minha vida da forma que me alegrou, coloquei – os de pé e os alimentei de comida e caráter. As lágrimas que derramas deve ser de saudade, todos fizeram o que deveria ter sido feito. Eu já sentia dentro de mim que a palavra que nunca me açoitou chegou ao meu coração. Cansaço. Era um cansaço das vivências, das desventuras e da falta de sorte. Eu me entreguei. Pela primeira vez pensei em mim depois de tanto que pensei nos outros. Não se culpe, seu fardo também está pesado, eu sinto daqui, suas lágrimas tem um gosto salgado em minha alma. A caminhada ainda será longa. Caminhe. Posso te ver arrastando seus pés ainda infantis aos meus olhos. Ah… Vocês nunca crescem aos olhos de mãe. Eu apenas observo o caminhar de cada um. Não havia o que ser feito, não havia o que ser dito. Aconteceu. Não há remédio que cure a dor da negação. E quando sentir falta do colo de mãe, da voz de mãe, do meu cheiro, olhe pro céu, procure ao redor, em cada grão de areia, em cada folha de árvore, e cada sopro do vento que te rodeia, eu estou aqui, olhando e guardando você para que somente no momento certo corra para os meus braços assim como quando deu seus primeiros passos. Filha…  Respire, caminhe, não desista. Sua dor é como navalha no meu peito, eu busco a luz que vem de você. Fique bem. Mamãe te ama!

Flores do Ipê

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­- Carol, Carol, acorda! Seu avô está aqui. – mamãe sussurrou no meu ouvido, me acordando da madorna.

Acendia-se uma fagulha dentro de mim quando meu avô vinha nos visitar.  Para mim, sua visita era sinal de coisas boas.

­- Um saco de balas e um convite. É o que tenho para hoje minha querida. – ele me abriu os braços e sorriu seu riso amarelo e sincero de avô.

– Qual o convite? Diga, diga… – fui abrindo o saco de balas.

– Estou indo para o trabalho e resolvi buscá-la. Que tal me acompanhar no trabalho hoje?

Seu trabalho não era dos mais comuns, mas nada me satisfazia mais do que acompanhá-lo na rotina da funerária.

O consentimento por parte de mamãe vinha através do olhar. Meneava a cabeça e me olhava com olhos de animal que lambe a cria.

Nunca fui uma criança como as outras. Apaixonada pela morte desde cedo, nunca vi temor, apenas curiosidade e espanto com a magia da vida e por consequência, a morte. Meu avô costumava dizer: “Não há vida sem morte, tampouco morte sem vida”. E isto ficara na minha mente de criança. Enquanto os outros estavam ocupados com suas atividades rotineiras, eu me atentava a caçar animais mortos e lhes oferecer funerais com direito a flores e até mesmo cruz.

– Chegamos! – ele encostou o carro defronte ao antigo prédio. A fachada permanecia a mesma. FUNERÁRIA GRUPO ARAÚJO. Lia-se no letreiro da entrada. Havia magia naquele local. Minha pulsação aumentava, o sangue fervia nas veias.

Na entrada principal havia uma recepção acolhedora. Uma mesa de mogno escuro, um sofá antigo de veludo azul, um arquivo encostado na parede no canto direito do cômodo. Na parede algumas molduras com fotos artísticas de Post Mortem o que, em minha opinião, dava um ar mórbido ao ambiente. A sala de restaurações ficava nos fundos. Um cômodo grande e frio, com pouca ventilação. Grandes pias de inox contornavam o ambiente e no centro da sala uma mesa também de inox.

– Temos um corpo hoje, Carol. O carro já está trazendo. Vai me acompanhar nos procedimentos. – ele inquiriu me segurando pelos ombros e me trazendo de volta do torpor que me acolhera por instantes.

Meneei a cabeça positivamente.

Não demorou até que o motorista entrasse na sala e chamasse meu avô de canto.

Cochicharam por uns instantes e o rapaz saiu.

– Trouxeram dois corpos, uma mãe e seu bebê. Talvez não seja exatamente algo que devesse ver minha Carol. Quer mesmo participar?

Ele não sabia, mas mesmo em meus tenros doze anos de idade seria o que meus olhos infantis mais desejassem vislumbrar. Outras mil fagulhas se acenderam dentro de mim, fazendo chamas clarearem minha íris.

Meu avô compreendia perfeitamente minhas respostas não verbais e assentiu.

­- Pois bem, temos trabalho pela frente.

Dois rapazes entraram neste instante carregando uma maca com o corpo da mãe e seu bebê.

– Que temos hoje? – ele questionou um dos homens enquanto vestia seu avental e luvas.

­- Típico caso de suicídio.

Um pesado silêncio caiu sobre nós. Meu avô foi logo preparando o corpo da mulher para o embalsamento enquanto um dos jovens cuidava do pequeno corpo de criança. Todos estavam bem ocupados trabalhando em silêncio, enquanto na minha mente mil histórias extraordinárias aconteciam.

Suicídio.

A palavra ressoou na minha cabeça.

– Conte como foi? – perguntei quebrando o silêncio sombrio que nos cercava.

Ambos me olharam.

O jovem olhou para meu avô que apenas balançou a cabeça e sorriu entredentes.

– Bem, me disseram que ela escondia a gravidez. Família muito conservadora, das antigas, jamais aceitariam a gravidez da filha. Ela trabalhava em casa de família, fazendo faxina num casarão no interior. Ao contar para o namorado sobre a gravidez ele brigou com ela e disse não aceitar o filho. Ela, desesperada e com gravidez já avançada, passou mal. Acabou por dar à luz no local, sozinha e em desespero atirou o filho contra parede logo após o nascimento. Em seguida procurou pela casa e encontrou a arma do proprietário. Atirou na própria cabeça.

Meu avô me olhou em silêncio, apenas observando-me.

– Você está bem? – perguntou sem tirar os olhos do meu olhar.

Eu estava bem. Não estava chocada. Apenas tentava imaginar a dimensão da agonia vivenciada por aquela jovem para chegar a cometer tamanha atrocidade. Não somente por ela, mas pelo que fizera com o bebê, uma alma inocente que mal tivera chances de adentrar este mundo.

Aproximei-me da mesa onde preparavam o corpo da criança. Não deixei de notar a brancura da pele macia, os dedos tão pequenos e perfeitamente formados, as curvas rechonchudas do corpo de um bebê como qualquer outro, porém sem vida.

Não era tristeza o que senti com a cena. O sentimento que me invadiu foi tão intenso que não tinha nomenclatura.

Nesta noite não dormi. Sonhei com a mãe e seu rebento, unidos tragicamente pela morte.

Os dias que se seguiram foram de reflexão. Passei a pensar sobre meu futuro, o que desejava fazer da vida, o que me acalentava, o que tornava feliz. Ciente da finitude da vida, eu passei a temer menos ainda a morte. O grande mistério da vida.

Ajudei meu avô por alguns dias, sempre me escondendo dos olhos curiosos que tanto o julgavam por levar uma menina para um lugar como aquele.

Nossos laços se estreitaram ainda mais. Admirava-o, me entorpecia ao vê-lo trabalhar, como um maestro regendo sua orquestra, seus gestos eram precisos e magicamente ensaiados, trazia o belo de volta, ou como gostava de repetir:

– Apenas trago de volta os últimos resquícios da vida.

Meu avô era apaixonante e meus dias de menina se tornaram melhores graças a ele.

                                                                    ***

– Carol, Carol? – minha mãe me sacudiu pela manhã.

Abri os olhos ainda com o coração palpitando no peito. Ela me chacoalhava e murmurava:

– Seu avô, seu avô… Vamos… Seu avô… – não completou a frase.

Lembro-me apenas de calçar as pantufas e ainda de pijamas, ser arrastada para fora de casa.

No carro, minha mãe e meu pai não trocaram uma palavra sequer. Ouvi muitas vezes o pneu cantar, mas nenhuma palavra saiu de suas bocas entreabertas. Os olhos arregalados, cabelos bagunçados, roupas amassadas de quem pulara da cama em desespero. Olhares vazios.

Quando meu pai encostou o carro, olhei pela janela e li no letreiro: INSTITUTO MÉDICO LEGAL.

Eu sabia o que aquilo significava, ou ao menos imaginava.

Saímos do carro e lembro que o som dos nossos passos eram perfeitamente audíveis.

– Quem fará o reconhecimento? – um homem segurando uns papéis perguntou.

Enquanto meu pai murmurava qualquer coisa, desvencilhei-me daquela cena e me embrenhei sem ser percebida pelos corredores do local. Havia uma maca encostada na parede próxima à recepção, não me contive, fui logo descobrindo o corpo. O blazer quadriculado em tom azul claro e azul marinho era bem conhecido. Meu avô jazia inerte, imóvel, naquele frio corredor de necrotério.

Neste instante já não vi mais nada. Logo fui carregada dali pelos meus pais, arrastando as pantufas pelo frio chão.

Foi um acontecimento sem palavras ou definições. Não quis ouvir explicações, não quis compreender o acontecido. Meu avô partira. E com ele parte de mim também morreu.

O meu encanto pela morte não teve fim, porém passei a ter maior entendimento pelo óbito.

                                                                  ***

Sentada próxima ao seu túmulo, dez anos depois, orgulho-me de ter seguido seus passos. A morte ainda me encanta e carrego comigo a mesma paixão que me ensinou a ter pela profissão que fiz questão de herdar de meu avô.

Sobre seu túmulo me debrucei e chorei e as flores de ipê amarelo caíram sem cessar sobre meu corpo.

                                                                                   Lina Stefanie

O véu da noiva

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Quando a bruma da noite se desfez descortinando o sol da manhã, a vila repousava em tranquilidade e sua rotina prosseguia. Os engenheiros, como de costume, estavam todos reunidos na casa do engenheiro chefe enquanto a massa operária trabalhava incessantemente nas ferrovias.  A quilômetros de distância ouviam-se as batidas nos ferros dos trilhos.

Maria, jovem filha de operário da construção da ferrovia, tinha a árdua tarefa de todos os dias levar alimento aos operários que trabalhavam nos pontos de difícil acesso, para evitar que perdessem tempo descendo os morros para alimentarem-se na vila, a jovem levava o alimento até eles. Num desses dias, como de costume, Maria entregou as marmitas e descia a trilha que de volta à vila. Ao tropeçar numa pedra no meio caminho desequilibrou-se e caiu ladeira abaixo. O tombo a fez desconcertar-se por um momento, mas com um pouco de esforço conseguiu ficar de pé novamente.

­­- Machucou-se? – perguntou uma voz masculina.

Maria olhou ao redor e por trás das árvores viu surgir um belo jovem vestindo um casaco branco.

– Não senhor.  – respondeu ainda trêmula.

– O que uma bela jovem faz em um lugar tão hostil como este? – o rapaz transpirava curiosidade.

– Trago o alimento dos trabalhadores, todos os dias.

Maria não precisou fazer nenhuma pergunta para saber que se tratava de um filho de engenheiro. Rapaz muito bem vestido e educado, trazendo documentos em uma pasta de couro.

– Então quer dizer que faz todos os dias este trajeto, senhorita…

– Maria… – ela quase sussurrou.

– Maria, como a mãe de Jesus… – ele sorriu com os dentes mais brancos que ela já vira.

A jovem meneou a cabeça.

– Pois bem, senhorita Maria. Chamo-me Frederico e vez ou outra também estou por estas bandas. Temos muitos trabalhos na construção da ponte da Grota Funda e faço as vezes de meu pai na fiscalização das obras, se me entende. Foi um prazer conhecê-la.

Os olhares se cruzaram por um instante e foi como se o tempo congelasse para os dois.

A partir deste dia a jovem filha de operário passou a ver constantemente Frederico. A amizade desenvolveu-se e chegou a tornar-se um intenso amor proibido. Frederico deixaria em breve a Vila de Paranapiacaba para estudar no exterior, porém a paixão falou mais alto. Não podendo mais esconder o amor decidiram casar-se às escondidas e fugir do local.

***

Um toc-toc contínuo, seco e quase musical. Este era o som que interrompia os sonhos de Maria toda manhã. Porém este dia seria diferente dos demais. Após longos meses de angústia e apreensão, Maria finalmente poria fim ao seu sofrimento. O grande dia chegara enfim. Todos os planos sonhados em segredos seriam finalmente realizados. O amor desenvolveu-se em segredo e cresceu em inocência e grandeza.

A jovem arrumou-se com simplicidade e completou a sua beleza pura ao colocar o vestido branco e o longo véu que se arrastava pelo chão. Tudo estava preparado. No primeiro horário encontrar-se-iam na capela da vila e selariam o seu amor para sempre, dando fim a angústia e aos segredos para viverem longe dali.

Porém Maria esperou, esperou, esperou numa angústia sem fim.

Frederico não apareceu.

Levantou-se ainda em lágrimas e já saía da capela quando um dos operários chamou-lhe.

– Ele não virá senhorita.

– Como não virá? – Maria soluçava.

– O rapaz não virá. Só vim avisar. O jovenzinho partiu no primeiro trem que deixou a vila. Vai embora da cidade. – o homem mal acabou de falar e saiu em disparada como fugisse de algo ou alguém.

Não restara esperanças para Maria. Seu coração sangrava como se mil punhais a rasgasse por dentro do peito. Juntou o longo tecido do vestido e correu.

Correu em desespero, sem olhar para os lados, sem pensar, sem respirar. Partiu para a trilha da Ponte da Grota Funda. Os braços já sangravam, o vestido se desfazia e as lágrimas escorriam sem parar por sua face pálida face.

Pelo caminho ela chorou e suas lágrimas se espalharam pelo solo verdejante da montanha, gotas cristalinas de dor e saudade. O límpido líquido caiu como cachoeira do mais íngreme outeiro.

A vida já não teria sentido sem o seu amor. Nada a faria esquecer seu grande amor.

A jovem num ímpeto de desespero fechou os olhos no alto da ponte e sem pensar jogou-se no abismo, nos braços da morte. Os pedaços do véu de seu cândido vestido de noiva voaram através do vento. Neste momento a densa bruma caiu ainda mais misteriosa, embranquecendo tudo ao redor.

A partir deste dia a vila não foi mais a mesma.  O véu da noiva que nunca se casou cobria os vales tirando a visão daqueles que cruzavam a floresta e muitos operários morreram em consequência da neblina, muitos se perderam na floresta e caíram para a morte do alto da ponte da Grota Funda.

A noiva partiu nos braços da morte, deixando para trás o seu véu e, até hoje a bruma circunda a Vila de Paranapiacaba.

Lina Stefanie

Na partida

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Foi no mais profundo dos seus olhos que eu vi o gotejar incessante da vida abandonando o viver. Tudo transcorreu normalmente, ninguém parou os afazeres cotidianos, o relógio não parou de girar e nem mesmo o mundo. Não recebi cartas, nem telefonemas, o vento não parou de soprar, o meu
caminhar não foi interrompido. O céu não trovejou nem a chuva caiu sobre mim, mas você permaneceu intacta no seu desfalecer sobre o mundo.
No momento em que meu peito foi trespassado pela dor invisível, porém perfeitamente tangível do desespero eu te toquei. O sangue fugiu da sua face, os olhos já não brilhavam, a boca não tinha a expressão do riso que marcou sua presença no meu viver. Seu rosto se tornara um retrato da dor horrível que seria apresentada a mim. As folhas caíram devagar enquanto o vento soprou manso e morno ao meu redor cada centímetro da minha pele se eriçou com a chegada da quinta estação. O inverno não esfriou nem tampouco o verão esquentou meu corpo enquanto as flores da primavera murcharam para as folhas do outono apodrecerem no solo da minha alma. Você estava ali dentro de cada gota de chuva que se formava nas nuvens sobre mim e sua dor se derramou pelo meu peito junto com as lágrimas que rolaram dos meus olhos.
Eu chorei. E o choro não me pertencia, aquele choro derramado vinha através de mim e superior a mim. Eu não o quis nenhum momento e não o senti, mas meu rosto iluminou-se ao ser tocado pelos cristais líquidos das lágrimas que me invadiram.
O dia cismou em amanhecer ao invés de permanecer inalterável. Eu poderia ter dormido mais, ou simplesmente não acordar se tudo fosse previsível. O destino sempre cumpre seu cruel papel no difícil ofício de viver. O inimigo não me atingiu de frente, ele simplesmente nasceu de dentro de mim. O punhal não penetrou minha carne, ele me rasgou de dentro para fora. A dor surgiu como raiz que brota na terra fértil enquanto a chuva já molhava o seu semblante.
Você partiu.
Quisera eu adormecer em seu colo enquanto ouvia canções de ninar e você não pararia de cantar para mim enquanto eu não dormisse. Ah, e você só partiria ao cair da noite quando visse meus olhos cerrarem em sono profundo, como criança cansada de brincar. E você só abandonaria este mundo ao cair da noite negra que sucumbiria minhas forças neste sono profundo. E mesmo assim, eu teimaria em adormecer este sono que tanto me afastaria de ti. Não soltaria sua mão, e meus olhos não se cerrariam se eu tivesse a certeza de que sempre estaria ali ao meu lado para me vigiar durante a vida.
A criança morreu dentro de mim quando sua luz se apagou. As folhas caíram, as rosas murcharam e minha alma sangrou quando dei adeus. O céu não teve piedade de quem solitário ficou. Minhas mãos não te alcançaram diante o abismo que se abriu sob ti.
Eu te perdi. Arrancada das cores que explodiam ao meu redor fui atirada no cinza profundo do meu pesar. Meus olhos nunca mais tocarão sua imagem, meus lábios nunca mais beijarão sua face, minha vida deixou de viver. Nunca mais os pássaros cantarão em sintonia, nunca mais o cheiro da chuva me encantará, nunca mais eu sentirei da mesma forma, pois uma parte de mim morreu.
Eu não disse adeus, mas chorei. E meu choro foi a promessa e a revelação de um amor infinito e arraigado no meu ser. E cada segundo que choro e sofro ou que me lembro de você traz a certeza de que estará sempre ao meu lado, olhando e tocando a parte invisível de mim que ainda vive sem ti.
Lina Stefanie