Querubim

querubim

O céu negro era momentaneamente iluminado por violentos raios que apareciam e desapareciam sem que meu olhar conseguisse acompanhar. Gotas pesadas de chuva açoitavam minha face e em meio ao caos e aos destroços da luta sangrenta em que participara, a vida que habitava meu ventre se fez notar. Pequenos chutes no meu abdômen me acordaram do torpor. Não tinha noção de quanto tempo estava caída no chão esperando a morte me levar para qualquer lugar que não fosse aquele.

Não havia sinal de que ele retornaria. Não havia chances de concretizar todos aqueles planos.

***

Rue Saint Séverin – Paris

Após o encontro com anjo negro que me salvara e ao mesmo tempo roubara meu coração, meus dias seguiram vazios e sombrios. Não restara nada de minha antiga vida. Minha mãe morta pelo monstro o qual ela jurou amor eterno. As cenas da tragédia corriam pela minha mente como uma corredeira de águas negras. O que me acalentava era a esperança de rever meu salvador. Mauro, o anjo negro de olhos brilhantes e sorriso vívido. Do alto da torre de Notre Dame provavelmente ele espreitava buscando o momento certo para ganhar vida e caminhar pelas ruas estreitas de Paris durante a noite.

Isso apenas era uma suposição palpável para mim. Na minha mente quase infantil cheguei a crer que tudo não passara de um sonho louco, sonho de garota que construiu castelos por toda uma vida imaginando encontrar seu príncipe encantado que a tiraria da desgraça em que via-se submersa por toda uma vida.

Mas Mauro não era um sonho, foi extremamente real e palpável. Eu o sentia, sentia o calor dos seus lábios macios nos meus, sentia a firmeza de suas mãos nas minhas e isso causava um rebuliço dentro de mim a cada instante em que as lembranças retornavam.

Real. Ao menos em minha mente… Real!

Porém a vida não me dera motivos de desejar viver. Órfã de mãe, estuprada e espancada durante uma infância infeliz, sem ao menos um lugar para descansar meus ossos durante as frias noites. Não demorou até que minha vida se resumiu a mendigar pelas ruas de Paris. Eu já não tinha condições psicológicas de levar uma vida normal. Não dormia e quando chegava a cochilar era arrebatada pelos sonhos terríveis dos momentos em que encontrei minha mãe morta aos pedaços no chão da sala.

Como algo que já estava escrito para mim, mina sina se resumia em apenas uma saída naquele momento. A morte. E isto passou a ser uma obsessão para mim. Dormia e acordava com isso em mente. Planejava de todas as formas morrer, apenas isso, deixar de existir, dormir o sono dos justos e dos incautos, para sempre. E a cada dia eu morria um pouco por dentro, então porque adiar algo inevitável?

No dia do meu suposto suicídio acordei em meio a uma enxurrada de entulhos e lama. Dormira em um beco escuro e muito sujo e a chuva caiu por toda noite. Estava decidida. Não fazia sentido continuar vivendo.

O suicídio para mim não passava de uma libertação. A palavra morte não tinha peso neste momento, eu desejava apenas matar a dor que me consumia a cada instante.

Esperei o dia passar com a convicção de que faria tudo no cair da noite. Logo que o céu enegreceu parti rumo à catedral de Notre Dame. Esgueirei-me por entre os transeuntes e me escondi por um tempo até conseguir me dirigir para a torre dos sinos. Em pouco tempo estava na torre mais alta de onde se via uma Paris sombria sob um céu escuro, nebuloso, entremeado por raios que explodiam como num show de luzes. Enquanto subia a escadaria meus velhos trapos de roupas prendiam-se vez ou outra nas farpas de madeira do caminho.

Cheguei ao topo da catedral com o coração disparado. O vento batia leve no meu rosto. Por um instante fechei os olhos e senti o cheiro de Paris vindo de todos os lugares. As coisas sempre podem ser diferentes, pensei comigo mesma, porém no meu caso não foi assim. Sina de dor e destruição.

Escorreguei os pés para próximo do peitoral e olhei ao redor. O vento ainda mais intenso açoitava minha face como tapas que fariam acordar para o ato. Vacilei por um instante e as lágrimas desceram como corredeiras por meu esquálido rosto. Caí de joelhos, aos prantos, as sujas mãos cobrindo a vergonha que minha alma exalava.

­— Você realmente fará isso? – uma voz angelical me tirou do torpor.

Levantei o olhar, admirando aquele ser que se sobressaía das trevas como se a lua brilhasse para ele.

Quando as negras asas se abriram como à espera de um abraço eu caí enfraquecida.

Com mãos firmes como aço e macias como as nuvens ele me segurou. Sorriu com os dentes mais alvos que até mesmo a luz da lua intimidou-se.

– Eu voltei, meu amor… Eu voltei. E não há nada, não há pedra ou fogo, não há aço ou ferro de correntes que nos prenderão nessa vida de desgraças.

Nos beijamos e o mundo parou. A lua adormeceu e o sol acordou. Foi nossa noite de amores sob a relva de um jardim de flores de mil cores.

Eu sorri admirando o céu. “Só o amor salva!”. Minhas palavras foram um sussurro.

Os momentos de amor foram eternos e extasiantes até o momento em que meu amado foi tocado por um chamado dos seus semelhantes. Uma luta entre vampiros e gárgulas assolava Paris. Mauro precisava partir e não o abandonei.

Enquanto a batalha transcorreu horrenda entre mortos e destroços, eu estava segura. Admirando a cada instante a alva pele de meu abdômen se contorcer e esticar rapidamente. Um bebê lindo e amado crescia feliz e protegido dentro de mim.

E no pior momento da batalha senti as primeiras dores lancinantes do parto. Rastejei-me até a rua e gritei aos céus, gritei para que o vento levasse meu chamado.

Meu ventre já se dilatava intensamente quando deitei-me enfraquecida pela dor.

Meu filho nascia.

Num segundo abri os olhos embaçados de lágrimas e o vi.

— Mauro…

– Não diga nada! – ele calou-me com um beijo terno.

Com nosso filho e seus braços ele chorou como nunca o vi chorar. Suas lágrimas eram como prata líquida desenhando no rosto negro de ébano.

— Esse é nosso filho, minha musa, a criança mais bela que os deuses nos deu.

O bebê era alvo como a neve sob a luz do sol e pequenas asas negras e macias adornavam suas costas.

— Vlad será o seu nome!

Abraçamo-nos os três e neste momento as nuvens se dissiparam e os raios do sol saudaram nosso amor.

***

Anúncios

Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
Esse post foi publicado em Contos. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s