Catedral

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Rue Saint Séverin – Paris

– Moça, passe o cartão, por favor. Moça?
O silêncio em que me vi mergulhada por segundos foi quebrado por uma voz feminina que me chamava insistente. A cliente segurava o cartão de crédito enquanto me olhava curiosa. Atendi rapidamente e voltei meu olhar para o que prendia minha atenção.
Um homem misterioso, sentado sozinho na última mesa da cafétéria. A pele da cor do ébano parecia reluzir como diamantes negros sob a luz fluorescente. Olhar calmo e um meio sorriso nos lábios macios. Folheava um livro antigo enquanto bebericava um cappuccino. Eu não sabia nada a seu respeito, porém me perdia em encantos toda vez que o via.
Mistério. Palavra que o definia para mim.

Nesse instante o vi levantar-se e se aproximar de mim. Meu semblante mudou, as pernas enfraqueceram e algo se revirou no meu estômago causando-me náuseas.
O seu andar era lento e parecia flutuar sobre o piso reluzente.
– O cappuccino estava divino, senhorita. – ele estendeu o dinheiro e me sorriu com dentes alvos como marfim.
Eu apenas congelei. Não tive reação. Aquele ser mexera comigo de forma sobrenatural.
Um momento inusitado e mágico que me fizera sair das profundezas de tristeza em que se resumia minha desgraçada existência. Aos vinte e sete anos de idade, garçonete de uma cafétéria próxima ao Rio Sena, filha de mãe bêbada,  abusada e espancada por um padrasto viciado. Não havia muitos motivos que me faziam sorrir. Vez ou outra me perder nesses sonhos de menina me tirava do chão.

Neste dia não fora diferente. Voltei para casa exausta do trabalho. Morávamos numa velha casa nos arredores do Rio Sena. Ao chegar estranhei o silêncio. Mamãe não estava,  somente Jean Paul, o padrasto motivo de minha desgraça. Procurei ir para meus aposentos sem ao menos dirigir-lhe a palavra. Mas a sorte não seria minha companheira nessa noite. Fui agarrada violentamente pelo braço e atirada contra a parede. O barulho de minha cabeça batendo contra os tijolos foi assustador. Senti o calor do sangue escorrendo pela fronte e antes que conseguisse balbuciar algo, minha boca foi atingida por um soco violento. Cambaleei e caí de lado, desfalecendo. Jean Paul neste instante já estava sobre meu corpo, arrancando minhas roupas, rasgando-as como trapos. Já não tinha forças, de minha garganta saiu um gemido de dor, quase um grito gutural. Minha boca foi tapada com os restos de minhas vestimentas, meus olhos reviraram nas órbitas tamanha a dor de meus ferimentos. Não reagi. Não havia o que fazer. Mais uma vez fui violentada e jogada como bicho no frio piso do banheiro.
– Fique aí, vagabunda. Isso é pouco pelo que merece. – Jean Paul ligou o chuveiro e a água caiu fria como metal cortante ao tocar minha pele.
Lavei-me como fosse o ser mais repugnante e imundo do planeta. Estava suja, fisicamente e interiormente, como se minha alma estivesse podre.

Os dias que se seguiram foram dolorosos, dias frios de inverno e a dor na alma que me consumia segundo após segundo.
Quase um mês se passou até que visse novamente o homem misterioso. Ah… Como a visão do seu semblante me acalmava! Era como bálsamo ao meu sofrimento.
Neste dia eu lhe sorri. Sorri com toda pureza de minha alma sofrida, sorri como se o tempo fosse parar naquele encontro.
Não tinha pretensão de seduzi-lo com minha beleza quase inexistente. Ajeitei os cabelos que me caíam em cachos dourados sobre os ombros, estiquei o velho e amassado vestido e sorri para ele. Porém nesse dia ele não me devolveu o sorriso. Olhou-me firme nos olhos, afastou os cabelos do meu rosto e inquiriu:
– O que é isso? – apontou para o corte ainda visível em minha fronte.
Eu corei. Baixei o olhar e sussurrei:
– Isso? Apenas um tombo no banheiro.
Não sabia mentir. Minha desculpa soou ridícula. Ele apenas me fitou com os olhos negros como a noite sem luar e despediu-se.
– Nos vemos por aí, senhorita. Tenha uma ótima noite.
Partiu e, com ele um pedaço de mim.

Voltei para casa nesse dia com o coração em frangalhos. Minha vontade era me jogar em seus braços e contar-lhe o motivo de minha tristeza. Talvez fugissemos juntos para nunca mais voltar, talvez nos amássemos e eu nunca mais experimentasse o fel do sofrimento. Mas tudo não passava de sonhos de mulher sofredora. Meu destino era outro.

Abri a velha porta de madeira da sala e entrei cabisbaixa. Sob meus pés observei marcas escuras e ao acender a luz deparei-me com marcas de sangue espalhadas por todo o cômodo. Forcei as pernas trêmulas e caminhei até a cozinha. Qual não foi o horror que me dominou ao ver o corpo de minha mãe caído ao chão. O abdômen aberto, as vísceras espalhadas, os cabelos num emanharado em meio às poças de sangue e miolos.
O chão me faltou e caí de joelhos. Rastejei ao redor do corpo como fosse acordar de um pesadelo horrendo.
Em instantes Jean Paul apareceu em minha frente com uma faca nas mãos. O metal reluzia.
Num último esforço atirei uma cadeira sobre ele.
– Monstro! – gritei.
Jean Paul caiu de lado e pude pular sobre ele tentando uma fuga desastrada.
Passava de meia noite e não havia luar. Saí em disparada, numa corrida louca em direção à catedral de Notre Dame. Jean Paul logo atrás de mim, os olhos faiscavam de ódio.
O esforço extremo e o pavor me dominaram. Caí em frente ao portal principal da catedral. Jean Paul riu alto. Um riso de vitória. Jogou-se sobre mim e cravou a faca em meu ombro. Virei os olhos para o céu. Nesse instante o céu iluminou-se como se a lua saísse de trás das nuvens. Tudo que meu olhar alcançou foram as gárgulas da catedral e ainda delirando de dor e desespero tive a impressão de que uma das estátuas se movera e em seguida alcançara o céu num vôo ágil. Não passou um minuto até que Jean Paul fosse atingido por uma sombra negra que o atirou violentamente sobre a escadaria da catedral. Num esforço extremo arranquei a faca do meu ombro e deitei de lado para observar o ocorrido. À minha frente vi levantar-se uma gárgula enorme, com asas negras reluzentes e caminhar em direção a Jean Paul. Estava morto.
Esfreguei os olhos como se tudo aquilo não passasse de minha imaginação. Tentei rastejar em direção à estátua que ganhara vida. Ela virou-se para mim e como uma visão sobrenatural transformou-se em um homem. O homem da cafétéria. O negro encantador que me roubou o coração.
Não tive reação. Deitei-me de bruço buscando forças para enfrentar os acontecimentos. O homem me ergueu do chão sem esforços. Pegou-me nos braços e abriu asas que nos levaram para o céu em um salto. Eu flutuava naqueles braços. Não havia dor, não havia sofrimento, somente nós dois presos num abraço em direção ao céu infinito.
Fui colocada deitada no chão da nave da catedral.
Ainda sorrindo perguntei-lhe:
– Qual seu nome?
Ele com os olhos brilhando como estrelas, balbuciou:
– Mauro. O seu salvador.
Fechei os olhos e recebi seu beijo fraterno. Nossos labios se uniram, assim como nossas almas, juntos, num vôo através da eternidade.

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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