Fim

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Foi um lance de segundos e meus olhos se fecharam involuntariamente. Meu corpo bateu no chão bruscamente. Minha mente trabalhava incessante com os pensamentos pairando no meu cérebro como aves que voam sem seguir uma lógica, um caminho. O coração disparado, batendo no peito anunciava uma parada iminente.

Parou.

Rapidamente vi o rosto de minha filha irreconhecível, triste, com lágrimas escorrendo pela face pálida, eu estava parada em um corredor branco, comprido, cheio de portas abertas. Tentei me arrastar pelo chão, estava sentada, meu corpo estava pesado, quas
e inerte. Num impulso animalesco levantei – me. Atrás de mim estava minha mãe com o semblante sisudo, vestida de branco, rosto rosado, cabelos da cor da palha de milho. Me estendia a mão sem esboçar sentimento. Chacoalhava a mão como se me ordenasse: – Venha!

Mas este semblante em seu rosto eu nunca presenciei. Mamãe sempre sorriu, nunca chorou. Seu olhar era quase uma súplica: – Me siga!

Vovó estava perto, os cabelos longos e negros como breu. Vestido comprido, tão longo que não pude ver seus pés. Na minha cabeça o turbilhão de pensamentos ainda pairando, descontrole total. Não havia batimentos cardíacos, dentro de mim supremas dores me dilacerando de dentro pra fora. Eu podia sentir o sangue escorrendo e dançando entre minhas entranhas. Era o fim. E esse fim não era ameno como ouvíamos dizer. “A morte é o fim de tudo”. Não era. Eu estava ali, podia sentir a dor carnal. Já não pensava em mim, no meu corpo já sem vida. Pensava em quem ficaria. A dor dos meus entes queridos velando o que restara do meu corpo. O mesmo corpo que deu à luz uma bela criança, o mesmo corpo que tanto fez pelas pessoas. Eu tinha vivido. Sorri, chorei, brinquei, amamentei e acalentei minha filha em meus braços.

O fim é injusto e inevitável.

De súbito minhas divagações post mortem foram interrompidas por pancadas fortes no meu peito. Eu fui sacolejada como um boneco velho arrastado por uma criança.

Numa luta extrema e dolorosa, arrancaram – me dos meus devaneios imortais.

Ao abrir os olhos, minha retina foi trucidada por uma luz branca e intermitente.

Ela voltou. Leva para o CTI.

Ouvi uma voz firme e estranhamente calma dizer.

Um frio incontrolável sacudiu meu corpo, fazendo com que me debatesse sem parar. Sob mim uma gélida mesa de inox.

O silêncio gritou por dentro alguns instantes, fechei os olhos e dormi um sono profundo.

Lina Stefanie

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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