Flores do Ipê

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­- Carol, Carol, acorda! Seu avô está aqui. – mamãe sussurrou no meu ouvido, me acordando da madorna.

Acendia-se uma fagulha dentro de mim quando meu avô vinha nos visitar.  Para mim, sua visita era sinal de coisas boas.

­- Um saco de balas e um convite. É o que tenho para hoje minha querida. – ele me abriu os braços e sorriu seu riso amarelo e sincero de avô.

– Qual o convite? Diga, diga… – fui abrindo o saco de balas.

– Estou indo para o trabalho e resolvi buscá-la. Que tal me acompanhar no trabalho hoje?

Seu trabalho não era dos mais comuns, mas nada me satisfazia mais do que acompanhá-lo na rotina da funerária.

O consentimento por parte de mamãe vinha através do olhar. Meneava a cabeça e me olhava com olhos de animal que lambe a cria.

Nunca fui uma criança como as outras. Apaixonada pela morte desde cedo, nunca vi temor, apenas curiosidade e espanto com a magia da vida e por consequência, a morte. Meu avô costumava dizer: “Não há vida sem morte, tampouco morte sem vida”. E isto ficara na minha mente de criança. Enquanto os outros estavam ocupados com suas atividades rotineiras, eu me atentava a caçar animais mortos e lhes oferecer funerais com direito a flores e até mesmo cruz.

– Chegamos! – ele encostou o carro defronte ao antigo prédio. A fachada permanecia a mesma. FUNERÁRIA GRUPO ARAÚJO. Lia-se no letreiro da entrada. Havia magia naquele local. Minha pulsação aumentava, o sangue fervia nas veias.

Na entrada principal havia uma recepção acolhedora. Uma mesa de mogno escuro, um sofá antigo de veludo azul, um arquivo encostado na parede no canto direito do cômodo. Na parede algumas molduras com fotos artísticas de Post Mortem o que, em minha opinião, dava um ar mórbido ao ambiente. A sala de restaurações ficava nos fundos. Um cômodo grande e frio, com pouca ventilação. Grandes pias de inox contornavam o ambiente e no centro da sala uma mesa também de inox.

– Temos um corpo hoje, Carol. O carro já está trazendo. Vai me acompanhar nos procedimentos. – ele inquiriu me segurando pelos ombros e me trazendo de volta do torpor que me acolhera por instantes.

Meneei a cabeça positivamente.

Não demorou até que o motorista entrasse na sala e chamasse meu avô de canto.

Cochicharam por uns instantes e o rapaz saiu.

– Trouxeram dois corpos, uma mãe e seu bebê. Talvez não seja exatamente algo que devesse ver minha Carol. Quer mesmo participar?

Ele não sabia, mas mesmo em meus tenros doze anos de idade seria o que meus olhos infantis mais desejassem vislumbrar. Outras mil fagulhas se acenderam dentro de mim, fazendo chamas clarearem minha íris.

Meu avô compreendia perfeitamente minhas respostas não verbais e assentiu.

­- Pois bem, temos trabalho pela frente.

Dois rapazes entraram neste instante carregando uma maca com o corpo da mãe e seu bebê.

– Que temos hoje? – ele questionou um dos homens enquanto vestia seu avental e luvas.

­- Típico caso de suicídio.

Um pesado silêncio caiu sobre nós. Meu avô foi logo preparando o corpo da mulher para o embalsamento enquanto um dos jovens cuidava do pequeno corpo de criança. Todos estavam bem ocupados trabalhando em silêncio, enquanto na minha mente mil histórias extraordinárias aconteciam.

Suicídio.

A palavra ressoou na minha cabeça.

– Conte como foi? – perguntei quebrando o silêncio sombrio que nos cercava.

Ambos me olharam.

O jovem olhou para meu avô que apenas balançou a cabeça e sorriu entredentes.

– Bem, me disseram que ela escondia a gravidez. Família muito conservadora, das antigas, jamais aceitariam a gravidez da filha. Ela trabalhava em casa de família, fazendo faxina num casarão no interior. Ao contar para o namorado sobre a gravidez ele brigou com ela e disse não aceitar o filho. Ela, desesperada e com gravidez já avançada, passou mal. Acabou por dar à luz no local, sozinha e em desespero atirou o filho contra parede logo após o nascimento. Em seguida procurou pela casa e encontrou a arma do proprietário. Atirou na própria cabeça.

Meu avô me olhou em silêncio, apenas observando-me.

– Você está bem? – perguntou sem tirar os olhos do meu olhar.

Eu estava bem. Não estava chocada. Apenas tentava imaginar a dimensão da agonia vivenciada por aquela jovem para chegar a cometer tamanha atrocidade. Não somente por ela, mas pelo que fizera com o bebê, uma alma inocente que mal tivera chances de adentrar este mundo.

Aproximei-me da mesa onde preparavam o corpo da criança. Não deixei de notar a brancura da pele macia, os dedos tão pequenos e perfeitamente formados, as curvas rechonchudas do corpo de um bebê como qualquer outro, porém sem vida.

Não era tristeza o que senti com a cena. O sentimento que me invadiu foi tão intenso que não tinha nomenclatura.

Nesta noite não dormi. Sonhei com a mãe e seu rebento, unidos tragicamente pela morte.

Os dias que se seguiram foram de reflexão. Passei a pensar sobre meu futuro, o que desejava fazer da vida, o que me acalentava, o que tornava feliz. Ciente da finitude da vida, eu passei a temer menos ainda a morte. O grande mistério da vida.

Ajudei meu avô por alguns dias, sempre me escondendo dos olhos curiosos que tanto o julgavam por levar uma menina para um lugar como aquele.

Nossos laços se estreitaram ainda mais. Admirava-o, me entorpecia ao vê-lo trabalhar, como um maestro regendo sua orquestra, seus gestos eram precisos e magicamente ensaiados, trazia o belo de volta, ou como gostava de repetir:

– Apenas trago de volta os últimos resquícios da vida.

Meu avô era apaixonante e meus dias de menina se tornaram melhores graças a ele.

                                                                    ***

– Carol, Carol? – minha mãe me sacudiu pela manhã.

Abri os olhos ainda com o coração palpitando no peito. Ela me chacoalhava e murmurava:

– Seu avô, seu avô… Vamos… Seu avô… – não completou a frase.

Lembro-me apenas de calçar as pantufas e ainda de pijamas, ser arrastada para fora de casa.

No carro, minha mãe e meu pai não trocaram uma palavra sequer. Ouvi muitas vezes o pneu cantar, mas nenhuma palavra saiu de suas bocas entreabertas. Os olhos arregalados, cabelos bagunçados, roupas amassadas de quem pulara da cama em desespero. Olhares vazios.

Quando meu pai encostou o carro, olhei pela janela e li no letreiro: INSTITUTO MÉDICO LEGAL.

Eu sabia o que aquilo significava, ou ao menos imaginava.

Saímos do carro e lembro que o som dos nossos passos eram perfeitamente audíveis.

– Quem fará o reconhecimento? – um homem segurando uns papéis perguntou.

Enquanto meu pai murmurava qualquer coisa, desvencilhei-me daquela cena e me embrenhei sem ser percebida pelos corredores do local. Havia uma maca encostada na parede próxima à recepção, não me contive, fui logo descobrindo o corpo. O blazer quadriculado em tom azul claro e azul marinho era bem conhecido. Meu avô jazia inerte, imóvel, naquele frio corredor de necrotério.

Neste instante já não vi mais nada. Logo fui carregada dali pelos meus pais, arrastando as pantufas pelo frio chão.

Foi um acontecimento sem palavras ou definições. Não quis ouvir explicações, não quis compreender o acontecido. Meu avô partira. E com ele parte de mim também morreu.

O meu encanto pela morte não teve fim, porém passei a ter maior entendimento pelo óbito.

                                                                  ***

Sentada próxima ao seu túmulo, dez anos depois, orgulho-me de ter seguido seus passos. A morte ainda me encanta e carrego comigo a mesma paixão que me ensinou a ter pela profissão que fiz questão de herdar de meu avô.

Sobre seu túmulo me debrucei e chorei e as flores de ipê amarelo caíram sem cessar sobre meu corpo.

                                                                                   Lina Stefanie

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