O véu da noiva

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Quando a bruma da noite se desfez descortinando o sol da manhã, a vila repousava em tranquilidade e sua rotina prosseguia. Os engenheiros, como de costume, estavam todos reunidos na casa do engenheiro chefe enquanto a massa operária trabalhava incessantemente nas ferrovias.  A quilômetros de distância ouviam-se as batidas nos ferros dos trilhos.

Maria, jovem filha de operário da construção da ferrovia, tinha a árdua tarefa de todos os dias levar alimento aos operários que trabalhavam nos pontos de difícil acesso, para evitar que perdessem tempo descendo os morros para alimentarem-se na vila, a jovem levava o alimento até eles. Num desses dias, como de costume, Maria entregou as marmitas e descia a trilha que de volta à vila. Ao tropeçar numa pedra no meio caminho desequilibrou-se e caiu ladeira abaixo. O tombo a fez desconcertar-se por um momento, mas com um pouco de esforço conseguiu ficar de pé novamente.

­­- Machucou-se? – perguntou uma voz masculina.

Maria olhou ao redor e por trás das árvores viu surgir um belo jovem vestindo um casaco branco.

– Não senhor.  – respondeu ainda trêmula.

– O que uma bela jovem faz em um lugar tão hostil como este? – o rapaz transpirava curiosidade.

– Trago o alimento dos trabalhadores, todos os dias.

Maria não precisou fazer nenhuma pergunta para saber que se tratava de um filho de engenheiro. Rapaz muito bem vestido e educado, trazendo documentos em uma pasta de couro.

– Então quer dizer que faz todos os dias este trajeto, senhorita…

– Maria… – ela quase sussurrou.

– Maria, como a mãe de Jesus… – ele sorriu com os dentes mais brancos que ela já vira.

A jovem meneou a cabeça.

– Pois bem, senhorita Maria. Chamo-me Frederico e vez ou outra também estou por estas bandas. Temos muitos trabalhos na construção da ponte da Grota Funda e faço as vezes de meu pai na fiscalização das obras, se me entende. Foi um prazer conhecê-la.

Os olhares se cruzaram por um instante e foi como se o tempo congelasse para os dois.

A partir deste dia a jovem filha de operário passou a ver constantemente Frederico. A amizade desenvolveu-se e chegou a tornar-se um intenso amor proibido. Frederico deixaria em breve a Vila de Paranapiacaba para estudar no exterior, porém a paixão falou mais alto. Não podendo mais esconder o amor decidiram casar-se às escondidas e fugir do local.

***

Um toc-toc contínuo, seco e quase musical. Este era o som que interrompia os sonhos de Maria toda manhã. Porém este dia seria diferente dos demais. Após longos meses de angústia e apreensão, Maria finalmente poria fim ao seu sofrimento. O grande dia chegara enfim. Todos os planos sonhados em segredos seriam finalmente realizados. O amor desenvolveu-se em segredo e cresceu em inocência e grandeza.

A jovem arrumou-se com simplicidade e completou a sua beleza pura ao colocar o vestido branco e o longo véu que se arrastava pelo chão. Tudo estava preparado. No primeiro horário encontrar-se-iam na capela da vila e selariam o seu amor para sempre, dando fim a angústia e aos segredos para viverem longe dali.

Porém Maria esperou, esperou, esperou numa angústia sem fim.

Frederico não apareceu.

Levantou-se ainda em lágrimas e já saía da capela quando um dos operários chamou-lhe.

– Ele não virá senhorita.

– Como não virá? – Maria soluçava.

– O rapaz não virá. Só vim avisar. O jovenzinho partiu no primeiro trem que deixou a vila. Vai embora da cidade. – o homem mal acabou de falar e saiu em disparada como fugisse de algo ou alguém.

Não restara esperanças para Maria. Seu coração sangrava como se mil punhais a rasgasse por dentro do peito. Juntou o longo tecido do vestido e correu.

Correu em desespero, sem olhar para os lados, sem pensar, sem respirar. Partiu para a trilha da Ponte da Grota Funda. Os braços já sangravam, o vestido se desfazia e as lágrimas escorriam sem parar por sua face pálida face.

Pelo caminho ela chorou e suas lágrimas se espalharam pelo solo verdejante da montanha, gotas cristalinas de dor e saudade. O límpido líquido caiu como cachoeira do mais íngreme outeiro.

A vida já não teria sentido sem o seu amor. Nada a faria esquecer seu grande amor.

A jovem num ímpeto de desespero fechou os olhos no alto da ponte e sem pensar jogou-se no abismo, nos braços da morte. Os pedaços do véu de seu cândido vestido de noiva voaram através do vento. Neste momento a densa bruma caiu ainda mais misteriosa, embranquecendo tudo ao redor.

A partir deste dia a vila não foi mais a mesma.  O véu da noiva que nunca se casou cobria os vales tirando a visão daqueles que cruzavam a floresta e muitos operários morreram em consequência da neblina, muitos se perderam na floresta e caíram para a morte do alto da ponte da Grota Funda.

A noiva partiu nos braços da morte, deixando para trás o seu véu e, até hoje a bruma circunda a Vila de Paranapiacaba.

Lina Stefanie

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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3 respostas para O véu da noiva

  1. Lina Stefanie disse:

    Que bom que gostou Angela. Obrigada pela visita.

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