Na partida

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Foi no mais profundo dos seus olhos que eu vi o gotejar incessante da vida abandonando o viver. Tudo transcorreu normalmente, ninguém parou os afazeres cotidianos, o relógio não parou de girar e nem mesmo o mundo. Não recebi cartas, nem telefonemas, o vento não parou de soprar, o meu
caminhar não foi interrompido. O céu não trovejou nem a chuva caiu sobre mim, mas você permaneceu intacta no seu desfalecer sobre o mundo.
No momento em que meu peito foi trespassado pela dor invisível, porém perfeitamente tangível do desespero eu te toquei. O sangue fugiu da sua face, os olhos já não brilhavam, a boca não tinha a expressão do riso que marcou sua presença no meu viver. Seu rosto se tornara um retrato da dor horrível que seria apresentada a mim. As folhas caíram devagar enquanto o vento soprou manso e morno ao meu redor cada centímetro da minha pele se eriçou com a chegada da quinta estação. O inverno não esfriou nem tampouco o verão esquentou meu corpo enquanto as flores da primavera murcharam para as folhas do outono apodrecerem no solo da minha alma. Você estava ali dentro de cada gota de chuva que se formava nas nuvens sobre mim e sua dor se derramou pelo meu peito junto com as lágrimas que rolaram dos meus olhos.
Eu chorei. E o choro não me pertencia, aquele choro derramado vinha através de mim e superior a mim. Eu não o quis nenhum momento e não o senti, mas meu rosto iluminou-se ao ser tocado pelos cristais líquidos das lágrimas que me invadiram.
O dia cismou em amanhecer ao invés de permanecer inalterável. Eu poderia ter dormido mais, ou simplesmente não acordar se tudo fosse previsível. O destino sempre cumpre seu cruel papel no difícil ofício de viver. O inimigo não me atingiu de frente, ele simplesmente nasceu de dentro de mim. O punhal não penetrou minha carne, ele me rasgou de dentro para fora. A dor surgiu como raiz que brota na terra fértil enquanto a chuva já molhava o seu semblante.
Você partiu.
Quisera eu adormecer em seu colo enquanto ouvia canções de ninar e você não pararia de cantar para mim enquanto eu não dormisse. Ah, e você só partiria ao cair da noite quando visse meus olhos cerrarem em sono profundo, como criança cansada de brincar. E você só abandonaria este mundo ao cair da noite negra que sucumbiria minhas forças neste sono profundo. E mesmo assim, eu teimaria em adormecer este sono que tanto me afastaria de ti. Não soltaria sua mão, e meus olhos não se cerrariam se eu tivesse a certeza de que sempre estaria ali ao meu lado para me vigiar durante a vida.
A criança morreu dentro de mim quando sua luz se apagou. As folhas caíram, as rosas murcharam e minha alma sangrou quando dei adeus. O céu não teve piedade de quem solitário ficou. Minhas mãos não te alcançaram diante o abismo que se abriu sob ti.
Eu te perdi. Arrancada das cores que explodiam ao meu redor fui atirada no cinza profundo do meu pesar. Meus olhos nunca mais tocarão sua imagem, meus lábios nunca mais beijarão sua face, minha vida deixou de viver. Nunca mais os pássaros cantarão em sintonia, nunca mais o cheiro da chuva me encantará, nunca mais eu sentirei da mesma forma, pois uma parte de mim morreu.
Eu não disse adeus, mas chorei. E meu choro foi a promessa e a revelação de um amor infinito e arraigado no meu ser. E cada segundo que choro e sofro ou que me lembro de você traz a certeza de que estará sempre ao meu lado, olhando e tocando a parte invisível de mim que ainda vive sem ti.
Lina Stefanie

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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