Maresia

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  Aos noventa e nove anos de idade e mesmo com toda dificuldade de andar, vovó parecia criança quando chegamos ao porto de Santos. O navio ancorado se assemelhava a uma visão dos sonhos que eu tivera outrora, não parecia real. Uma maravilha da engenharia moderna com seus diversos andares, piscinas, restaurantes e cabines luxuosas. Para nós, jovens acostumados com o novo e o moderno, o navio, um dos maiores do mundo, já encantava por si só, para vovó, no auge da idade, era como uma aparição surreal em meio ao azul do mar.
Eu via através dos olhos dela quando vislumbrou o salão principal do navio, o brilho do seu olhar confundia-se com o brilho dos diversos cristais espalhados pelo ambiente. Vovó apoiou-se firmemente no andador, escorregou devagar o pé direito no carpete vermelho. Com dificuldade e com tremor característico esticou o olhar pelo Hall principal. Permaneceu estática como se algo em especial lhe chamasse a atenção.
− Sentindo algo, vovó? – indaguei ao notar sua apreensão.
Vovó prolongou o silêncio por alguns segundos, mas respondeu entre sorrisos.
− Nada não, minha querida. Lembranças povoam a cabeça desta velha. Muita emoção em estar finalmente neste lugar magnifico.
− Tudo bem, vamos seguir para o quarto, depois você pode me contar sobre estas lembranças. Com a ajuda de um tripulante colocamos vovó na cadeira de rodas e seguimos para o elevador panorâmico. A vista que nos era ofertada denotava o bom gosto e o luxo utilizados na decoração dos ambientes. Muito dourado e cristais Swarovski, tão conhecidos no mundo por sua beleza e delicadeza. Beleza era a peça chave da construção do navio e não havia um lugar sequer que nossa vista pudesse alcançar que não nos deslumbrasse.
Em pouco tempo estávamos defrontes à nossa cabine no décimo segundo andar. Vovó ficaria comigo enquanto mamãe, papai e os demais ficariam em outras cabines no mesmo andar. A vista da varanda era magnifica. Logo que entramos vovó pediu que a deixasse por alguns minutos na varanda.
− Está bem para ficar neste vento forte, vovó?
− É tudo que mais quero minha neta, sentir a maresia, o cheiro salgado do mar. Parece que isto está entremeado em mim. Vovó era uma mulher de seu tempo, até mesmo em idade avançada tinha uma lucidez impressionante, seu corpo já não acompanhava sua mente, envelhecera sem perder seu raciocínio, mas a saúde já não a acompanhava. Vivera bem, soubera viver. Criara seis filhos, sozinha após a morte prematura do marido. Escrevera algumas histórias infantis e fazia-nos sonhar com seus mundos paralelos. Esta sempre foi vovó. Criou-nos e nos amou sem limites, dando-nos tudo o que lhe foi possível sem nada pedir em troca.
A vida passou e vovó chegou aos seus quase cem anos de idade e ao ser questionada a respeito de qual seria um bom presente para os seus cem anos, vovó foi categórica em responder: queria ver o pôr-do-sol na proa do navio. Não pensamos duas vezes e marcamos o cruzeiro o mais rápido possível.
− Se precisar de algo é só me dizer, vovó. – interrompi os devaneios dela.
− Agora não preciso mais nada, minha fia. Está tudo bom por enquanto.
− Acho que esperou demais para fazer este cruzeiro, não é vovó?
− Esperei não, minha fia, tudo tem seu tempo certo.
− Está feliz então? Parece criança quando ganha presente.
− Estar aqui me faz lembrar muitas coisas, minha querida. Faz-me lembrar de minha mãe. Como fosse hoje me lembro de tudo que ela me contou repetidas vezes. A história de vida dela e por consequência a minha.
Vovó apertou os olhos como se forçasse as lembranças virem à tona.  
                                ***
Ela repetidas vezes me contava. Era Abril de 1912, quando seu pai a presenteara com a tão desejada viagem de navio. Como influente comerciante da época, meu avô não tivera problemas em arranjar de última hora um bilhete garantindo-lhes estadia numa das melhores cabines. Mamãe, já considerada velha para se casar, há tempos desenrolava uma história de amor pelo capitão do navio, Edward Smith. Seu pai nem imaginava algo semelhante, pois Smith era um homem já de idade e mamãe nunca havia se casado. Na sociedade da época isto seria inadmissível.
O navio iniciou a sua viagem inaugural de Southampton, na Inglaterra, com destino à cidade de Nova York, nos Estados Unidos, com o Capitão Edward J. Smith no comando. Mamãe contava que o navio superava todos os seus rivais em termos de luxo e riqueza. Na Primeira-classe tinha uma piscina, um ginásio, uma quadra de squash, banhos turcos, o famoso Café Verandah. As salas comuns da Primeira-classe eram adornadas com painéis de madeira esculpidos, móveis caros e outras decorações. Além disso, o Café Parisien oferecia culinária aos passageiros da primeira-classe, com uma varanda iluminada pelo sol. Havia até mesmo bibliotecas e cabeleireiros no navio. Painéis de pinheiro e móveis robustos incorporavam recursos avançados para a época. Para mamãe seria a viagem de seus sonhos, navegar no maior navio até então construído pelo homem e estar ao lado do homem pelo qual tinha verdadeira adoração.
Tudo já fora previamente combinado. Meu avô jogaria a noite toda com os amigos a bordo do navio enquanto mamãe aproveitava para dar suas fugidelas com o capitão Smith. O capitão, já feliz pela presença de sua amada a bordo, preparara uma cabine especial para eles. Mandara providenciar um verdadeiro banquete com direito a champanhe. Logo após o jantar de gala, onde sua presença era indispensável, ficariam juntos em sua cabine. O jantar transcorrera normalmente. Mamãe contava os segundos para estar nos braços de seu amor. Durante o jantar, Capitão Smith tirara mamãe para dançar. Rodopiaram por todo o salão iluminado como se estivssem sozinhos no mundo. Os homens aplaudiam enquanto as mulheres contorciam-se de inveja de mamãe. A noite fora linda e terminara na cabine do capitão onde passaram sua primeira noite de amor.
Três dias depois, ao anoitecer de domingo, a temperatura caíra demais, quase causando congelamento e o oceano estava calmo. A lua era visível e o céu estava limpo. Capitão Smith, teve de traçar um novo curso que levava o navio um pouco mais ao sul, em resposta aos diversos avisos de icebergs recebidos pelo rádio nos dias anteriores. Smith fez o possível para desviar o imenso navio dos icebergs, mas após o último aviso tardio, a proa do navio começou a deslocar-se do obstáculo e, segundos após a visualização do iceberg, houve o choque. O iceberg arranhou o lado direito do navio, deformando e rasgando o casco como fosse papel.
O pânico tomou conta do navio, o local caiu em caos, pessoas gritando, crianças chorando. Horas depois do impacto o navio já submergia na imensidão do oceano. Os botes não eram suficientes para todos e muitos brigaram por um lugar para salvar-se da morte certa por afogamento ou hipotermia devido à baixa temperatura da água. De dentro dos botes, os passageiros assistiram o navio afundar para sempre na imensidão negra do oceano em meio a milhares de gritos de pavor e pânico. Milhares de pessoas foram lançadas à água congelante. Após a popa desaparecer, os segundos que se seguiram foram de silêncio enquanto uma fina névoa branca acinzentada provocada pela fuligem do carvão e pelo vapor que ainda havia no interior do navio cobria o local do naufrágio. O silêncio só fora quebrado por uma infinita gritaria por pedidos de socorro. Todas aquelas pessoas que não morreram durante o naufrágio, lutaram para se manterem vivas nas águas gélidas, tentando agarrar qualquer coisa que boiasse. Aos passageiros dos botes não restava nada a fazer a não ser esperar passivamente por socorro.
E fora isto que mamãe fizera. Aguardou em silêncio, sendo a última coisa que poderia fazer. Nada lhe restara, e as lembranças que a assombrariam seriam as mais abissais. Dias depois se confirmou a morte de Capitão Smith e também a morte de seu pai. Mas em tudo a vida não lhe fora tão cruel dando a ela uma chance de recomeço, mamãe descobre por fim que esperava uma criança de seu amado Edward Smith, esta velha que lhe conta esta história após cem anos.
                                ***
A esta altura meus olhos já ardiam em lágrimas que desciam pela minha face como lava de vulcão.
− Que bela história, vovó, bela história! Bela história de vida. – eu soluçava.
O momento recordação foi interrompido por batidas na porta. − Vamos, filha, logo o navio vai deixar o porto. Sua avó quer ver o pôr-do-sol, lembra-se?
− Vamos, vó. Mamãe nos chama. Está preparada para ver o pôr-do-sol? Ela me olhou com os olhos mais belos e vivos que eu poderia imaginar. Eram olhos de esperança e de alegria.
− Estou sim, minha querida neta. Estou preparada. A tarde já caía, o céu estava límpido de um azul borrado com os alaranjados e avermelhados característicos do pôr-do-sol. Vovó agarrava-se a mim com uma das mãos enquanto que com a outra segurava firme o andador. Seu olhar encarava timidamente o horizonte como se pedisse permissão aos céus para vislumbrar tamanha beleza. Permanecemos ali por eternos minutos como se nada fosse nos impedir, como se nada nos diferenciasse, éramos como duas meninas de braços abertos para o mar, sentindo a brisa marítima a cariciar a pele. O vento balouçava os cabelos da cor de neve e ela apenas fechava os seus olhos já cansados de tudo que vivera. Era como se eu adentrasse sua mente, visse todas as suas dificuldades, dores e alegrias e tudo estava cravado em sua carne, cada dor, cada amor. Os cem anos não pesavam neste momento, como fardo carregado há tempos.
Vovó soltou-se de minha mão e abandonou o andador, apenas abriu os braços com os olhos semicerrados e deixou o vento abraçar o seu corpo esgalgado. O apito do navio soou alto. As lágrimas ainda cobriam minha face e vovó as secou com as costas de sua mão franzida.
− Eu te amo, minha fia. – ela balbuciou.
Deitei vovó por alguns instantes para que descansasse antes do jantar. Fui banhar-me e tomar um café. Quando retornei minutos depois, vovó já não respondia meus chamados. O rosto pálido, as mãos gélidas denunciavam. Vovó partira deste mundo. Não fora com dor nem tristeza e, sim com muito amor no coração.
                              ***
Seu corpo foi levado pela guarda costeira em um cortejo fúnebre digno de solenidades. Todos os tripulantes estavam vestidos de branco em seus trajes de gala, enfileirados observavam o barquinho levar o seu corpo para longe do navio. Você se foi, mas um pedaço seu permanecerá em mim.
O vento espalhou as lágrimas de lava vulcânica pelo meu rosto.
                              ***
Enquanto você beijava o meu rosto eu te observava de perto. Eu era o vento que soprava suave por entre seus cabelos. Eu estava ali e com você sempre estarei…
Uma leve brisa acariciou minha face.

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