Folha em Branco

Abaixo do abismo das galáxias, no porão etéreo das estrelas por onde as almas descansam suas pálidas feições soturnas, é o meu abrigo. Os precipícios mais profundos e horrendos foram minha morada pelo longo tempo em que te busquei.
E como passou despercebido ao meu olhar?
Eu estava bem ali, por debaixo da relva, por entre os seixos musguentos, nas ondulações da água do riacho. Meus olhos te espreitaram em cada passo, cada suspiro teu foi o meu suspiro. Preso em minhas reminiscências de vidas passadas.
Deslizando pelas paredes escorregadias do meu pecado. Viste-me no ponto em que me perdi, no meio do caminho. Foi meu algoz e me condenara de olhos fechados para não ver as rubras lágrimas de meu sofrimento.
— Queime! – as vozes imploraram por repetidas vezes.
Parada, indefesa ante meu destino, tudo o que pude ver e sentir estava à minha frente.
Cavaleiros da escuridão galopando bestialmente pela noite. A faísca do atrito das ferraduras sobre as pedras, o brilho do aço das correntes me envolvendo. Infausta vivência causara meus desatinos. Em meu corpo já não corria sangue. A seiva da vegetação por onde rastejara séculos, tornara-se líquido sagrado.
As chamas primeiras mal chegaram a tocar meu corpo, o seu olhar me libertou da dor, tornando-me um ser venerável, intocável.
Mas o contentamento semibreve me despertou da modorra. Fui arrancada pelas raízes, com a terra ainda se desprendendo de meu corpo, despida de todos os meus medos.
E você só poderia ter visto de onde estava, pois onde caminhei também foi seu caminho, onde me deitei, também foi o seu leito, a água que bebi, matou a sua sede, meu alimento amenizou a sua fome e o meu corpo foi o seu bálsamo. Tudo que poderia salvar uma vida estava dentro de ti. A minha vida.
Deixe-me ir. Deixe-me ir.
Arrancada do solo, levada ao firmamento, atirada contra a abóbada celeste, livre dos grilhões que me prendiam. As mãos estendidas sem o que buscar, onde se apoiar.
Atirada de volta ao solo, vi a vida passar pelos meus olhos. Lúgubres momentos. Últimos momentos. Últimos suspiros.
Órgãos, carne e ossos dilacerados. O coração ainda pulsando dolente, desesperado ante a morte certa, vindoura e breve. Morte que me causara. E tudo fora devaneio infantil, como cantiga de ninar, como loa a um amigo, como o sino que ressoa no decair da tarde vazia. Buscando pela vida, sopro divino que se esvaía inexorável após cada fôlego.
E nem todo perdão, nem toda fé, nem todo arroubo de paixão, nem todo riso, todo abraço, todo olhar, todo afago, todo apego, todo gozo humano, nem toda a vida que nos rodeia, nem todas as almas puras dos profetas, valeriam a sua vida.
Em último desatino de amor e saudade lhe ofereço a minha vida em nome do que me deu por entre os séculos que cruzamos. Em fidelidade ao que foi sacramentado nas centúrias do destino deixo àqueles que virão posteriores a mim um desabafo. Um grito derradeiro. Diálogo do espírito com a carne. Entre sangue, lágrima e suor.
Arrebatamento tardio me leva de volta, e o encanecido corpo já se desfaz por entre o solo, com os vermes almejando que o tempo se prolongue até que se desfaça a pálida carne que seu corpo tocara. Dedos cavam incessante, olhos e lábios cerrados, respiração ausente. Um fio de luz avistado aos poucos, o peso da terra rareando.
Livre.
Viva.
Os olhos fitam o empíreo num lapso de lucidez. A luz brilhante desponta por entre as nuvens.
Veloz, desce dos céus a mensagem de boas novas. A promessa da exultação, a esperança de uma vida. Num cavalgar sublime, vem ao meu alcance, descendo suave por sobre a relva, olhando-me com compaixão, despido de agonia, estende-me sua mão num último gesto de apego, enquanto esta mortal em um último aceno de afeição e fidelidade lhe oferece seu último suspiro como prova deste amor, servido no cálice do meu corpo.
Não me deixe ir. Não me deixe ir.
A brandura do beijo verdadeiro me assegura que tudo que sucessivamente busquei estava bem aí, dentro de você.

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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2 respostas para Folha em Branco

  1. Lina Stefanie disse:

    Sem dúvida um dos meus melhores textos até agora.

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  2. Elenice Coli disse:

    Lindo texto introspectivo. Realmente ele fala conosco. Parabéns.

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