Anil

Lina Stefanie

I

Por estas noites, por onde o meu espírito vagou, eu tentei compreender porque às vezes você não consegue ouvir o que é que eu estou tentando lhe dizer. Então, quando finalmente pudermos deixar de lado quem nós realmente somos por fora em nossas vidas medianas, e pudermos ouvir um ao outro, aí então você talvez possa escrever aí que o que eu senti realmente me tirou do chão e me fez ver o mundo de outro modo inesperado.

Infelizmente hoje ainda não é a eternidade, então que você possa pelo menos ouvir que não há mentiras em meus sentimentos e que não há riscos a correr quando se é livre. Eu não sei exatamente o que fizeram de você e nem em quais mentiras você acreditou quando o mundo ainda era única e somente uma grande fazenda e não os feudos que nos prenderam. Perdoe-me se eu te ofendo com as minhas sandices e não nos queira longe. Amanhã será um lindo dia.

Eu desejo que você possa finalmente compreender que nem todas as pessoas que se aproximam de você querem apenas o seu mal. Ainda há pessoas que querem sim o seu bem. O proveito é apenas uma boa amizade. O mundo não é apenas uma vasta solidão de rostos obscuros, mas o mundo também é um lugar de aventuras de seres lindos como você. Então olhe para o céu à noite e pense se não há um modo de viver sem precisar se negar. Se podemos viver aqui ou em qualquer outro lugar do universo sem precisar nos prender as coisas avessas que nos ensinaram quando ainda éramos jovens.

Amigo, há seres de luz que te cercam. Mas há as criaturas que nos engrandecem de virtudes mundanas. Esteja apenas alerta para perceber que um fio encapado não nos protege de um choque fatal. E que a morte não é tão feia, fria e solitária quanto pintaram naquele quadro da sala da casa dos grandes poetas. Há mais vida sobre o céu e a terra. A morte é apenas um trem em movimento; não são os trilhos, nem as estações, nem o ticket, nem os passageiros, nem o condutor, menos ainda as bagagens. Eu te desejaria de verdade acima das ilusões passageiras, e não pense que eu não sei como as coisas realmente são dentro do seu coração de menino. Não espere o dia amanhecer, levante antes de o sol nascer. Lave seu rosto e venha passear comigo. Eu estou te esperando…

II

…por sobre as montanhas de nuvens, e por onde o tempo passa você precisa aprender de uma vez por todas a distinguir entre o mal que nos assola e o bem que nos consola. E o mais engraçado de tudo isto é que eu mesmo talvez não conseguiria mais separar um do outro. Isto acontece porque antes de eu te conhecer, o nosso mundo já existia. Hoje, eu corro para os teus braços, e sobre os teus laços tento me envolver como alguém preso. Mas eu prefiro a liberdade, você sabe bem disto. E se não fosse o tempo ter corrido paralelo por sobre as nossas vidas, talvez eu já tivesse me livrado daquela sensação de falta de coragem.

Mas, enfim, isto faz parte de nossas caminhadas tortuosas. Fazer o quê? Eu já nem sei se subi os mesmos morros que você escalou; se mergulhei no mesmo rio que você se banhou. Se vi as mesmas estrelas que te cobriram pelo céu de outros planetas; se li os mesmos livros que te fizeram chorar ou se eu dormi os mesmos sonos que você sonhou apesar dos pesadelos. O que eu sei é que sempre nos falta algo, e este algo é o que nos tira do chão quando ainda somos tolos apenas. É exatamente este algo que nos padece caminho afora pela solidão, é ele quem nos coloca nas piores frias e nos mostra também o caminho da perdição. E apesar de tudo isto, eu sinto que ainda vou me arrepender duas ou três vezes sem te esquecer.

É um inferno. Ainda bem que não somos os únicos culpados… Mas o que fazer se somos o erro perdoado por Deus; se somos o pecado aprovado pelos amantes; se somos a poesia escrita a base de embriaguês? Enfim, se somos o que se pode esconder de uma tarde em movimentos. Ah, mas, ah, se eu pudesse voar. Eu já não seria mais covarde e faria de tudo para nos esquecer. Mas como esquecer o que se divide? É o que eu me pergunto às vezes quando penso em você. E a resposta vem como avalanche: saudade…

III

…você já pensou na hipótese de sermos apenas bons amigos? Nós poderíamos nos conhecer apenas. E nós poderíamos nos olhar? É, seria como não poder tocar. Mas nós poderíamos somente nos simpatizar. Mas não apertaríamos as mãos. Não nos abraçaríamos. Nem nos envolveríamos. Nem nos tentaríamos à lógica dos amantes. Nem repetir. Pedir em namoro. Nem ao menos nada. E ainda assim sermos felizes para sempre…

Sabe, há algo que atrai as pessoas, mas nós não somos como elas. Somos criaturas aladas. Logo, o nosso amor seria utópico. É como se eu tivesse algo para te dizer e você tivesse como me retribuir. Mas há ainda as noites e os intervalos. Há um sussurro quieto tentando nos dizer algo, e o que senti(mos) já não é mais tão claro e cristalino. Existe por mais que eu anoiteça em céu de anil algo me impedindo de seguir adiante. É como se fossemos só nós dois por caminhos tortuosos cercados por outros seres errantes.

Ainda bem que existem os livros. Então, lá estará um dia escrito a nossa memória. Alguns momentos de paz. Alguns momentos de delicadeza. E o cumprimento de nossas fantasias. E a cor dos seus olhos. E o seu nome, como uma linda carta de amor. E o brilho das páginas. E o volume das suas mãos. E a carícia de cada folha. Seria como um verdadeiro romance…

Será que não seria mais fácil pintar um quadro? Compor um novo soneto, uma canção nova? Enviar uma mensagem codificada numa astronave? Lapidar vosso segredo num epitáfio? “Aqui jaz nossa solidão”. Mas eu não suporto a morte. Eu prefiro a vida que nos reservou os espíritos. E ainda prefiro você por um dia. Então não me deixe ir embora. É que eu gostaria de ser feliz para sempre ao seu lado um dia ao menos. Nem que a nossa história tivesse apenas uma página. Então que fosse apenas uma única página rascunhada pelas suas próprias mãos…

É realmente uma pena que as pessoas não consigam crer no poder das palavras, não é mesmo? As palavras constroem sentimentos indescritíveis e registram momentos absurdos. E dizem que elas até guardam segredos e mensagens subliminares. Elas enaltecem os bons momentos e os sentimentos que tenho por você. Aliás, você, por acaso, já pensou em ler de trás pra frente a palavra anil?”

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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Uma resposta para Anil

  1. Elenice Coli disse:

    texto emocionante!!!! com final surpreendente.!!!!!!

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