Nos Braços de Um Anjo 2ª Parte

Levantei e olhei o relógio. Puxa, iria dar meia-noite. Novamente o tempo voou. Corri para a cama e adormeci como criança.

Assim como me disse, eu o vi em meus sonhos. Era encantador. Cabelos castanhos semi-ondulados chegando aos ombros, um riso fácil e sincero. Era exatamente assim, e parecia não me ser estranho. Sonhei com ele durante a noite toda.

Acordei assustada e o procurei ao meu lado. Nada. Apenas os lençóis bagunçados e, no peito, um coração disparado.

Na compreendia bem o que se passava comigo. Sonhava com este rapaz sem ao menos saber nada sobre ele. Não conseguia parar de pensar nele em um só momento. Estava se tornando algo perturbador. Parecia que eu o conhecia de algum lugar, mas não fazia idéia de onde. Não tinha muitos amigos, ou quase nenhum. Fechei-me completamente após a morte de Diogo. Deveria ser alguém brincando comigo, uma dessas pessoas que não tem o que fazer e passam o dia no computador dando golpes deste tipo. Logo ele começaria a querer saber mais sobre mim, e eu provavelmente me abriria após ouvir uma ou mais palavras bonitas.

Conversei com algumas pessoas a respeito disso e todos me deram praticamente o mesmo conselho. Que eu deveria acabar com isso enquanto era tempo. Eu sabia disso. Mas não conseguia. Não conseguia me desprender dele.

Com o passar dos dias, fui me afastando cada vez mais da floricultura. Até mesmo meus afazeres de casa fui abandonando. Minha família percebeu, mas não dei ouvidos, afinal, a vida era minha e ninguém tinha a nada ver com ela. A maior parte do tempo passava no computador, conversando com Emanuel ou esperando que ele aparecesse para falar comigo. E quando não aparecia, eu faltava morrer de tanta ansiedade e nervosismo. Como certa vez em que ele ficou dez longos dias sem aparecer. Eu via a morte em vida. Entrei em depressão, tamanha foi à falta que senti dele. Minhas noites tornaram-se uma tortura só. Sonhava com ele até mesmo acordada. Foi horrível.

Já havia perdido as esperanças quando ele apareceu. Novamente em um daqueles terríveis dias de chuva e solidão.

Angel acabou de entrar…

 

Bloodraine para Angel: Puxa, é você mesmo?

 

 

Durante alguns minutos não houve resposta. Meu coração estava a mil.

Angel para Bloodraine: Desculpe. Como você está?

 

Bloodraine para Angel: como estou? Ainda pergunta? Todo este tempo sem nos falar e ainda pergunta? Fiquei péssima.

 

Não acreditei que estava realmente dizendo aquilo para um estranho. Estava cobrando dele algo que não devia. Senti-me ridícula.

Bloodraine para Angel: me desculpe, Emanuel, não devia falar assim com você. Deve ter seus motivos, para ter sumido.

 

Angel para Bloodraine: não se preocupe. Tudo está bem agora. Acalme seu coração. Está muito nervosa. Estou aqui agora, não estou? Respire fundo. E conte-me como passou esses dias.

 

Bloodraine para Angel: é melhor deixarmos para lá. Quero falar de coisas boas. Ou melhor, quero saber de coisas novas sobre você. Em tudo, esses dias de solidão me foram muito úteis. Pensei muito sobre nós. Sei que não existe “nós” mas mesmo assim pensei. Estou levando tão a sério esta nossa amizade virtual que está dificultando até mesmo minha vida particular. Eu não sei nada de ti e mesmo assim você não sai da minha cabeça. Vejo-te nos meus sonhos, em cada lugar que vou, sinto sua presença. É estranho, terrivelmente estranho. Nunca passei por isto.

 

Angel para Bloodraine: e por este motivo deve ter pedido conselhos para algumas pessoas sobre isso e todas devem ter dito em coro que deve se afastar de mim. Certo?

Bloodraine para Angel: está vendo? Você sempre acerta as coisas. Você sabe o que vou dizer até mesmo quando eu apenas pensei. Sim, disseram que isso ocorre muito. Pessoas más estão o tempo na Internet enganando outras. Eu serei mais uma. Devo me afastar.

 

Angel para Bloodraine: e o que devo fazer, Cassandra? Que faço para provar que não quero te enganar?

 

Bloodraine para Angel: não sei. Definitivamente, não sei. (Meu coração neste momento já estava em frangalhos).

 

Angel para Bloodraine: vou te ligar. Dê-me seu telefone.

 

Em poucos segundos meu telefone tocou. Hesitei alguns instantes, meu coração disparou no peito. Por que estava me sentindo assim?

O aparelho ainda gritava sobre a mesinha da sala e eu lutando para dar dois passos e atendê-lo.

— Alô? — senti-me como Dom Quixote enfrentando os moinhos de vento.

— Cassandra?

Uma voz incrivelmente doce e masculina perguntou do outro lado da linha.

— Sim. É você mesmo, Emanuel? Não acredito.

— Disse que precisava de uma prova. Esta é o suficiente?

— Creio que sim. — suspirei aliviada.

— Veja bem. Não precisamos provar nada a ninguém. O destino nos uniu e devemos agora seguir o que diz nossos corações. Porém, se não se sente segura para continuar esta amizade sinta-se à vontade para me dizer que não quer. Eu saberei entender.

— Não. Não é isso. Não duvido de você. Ou melhor, quero acreditar. Devo. Meu coração pode me trair, mas sinto-me segura em falar contigo. E se tornou tão… Tão necessário em minha vida. Eu queria poder…

— Me ver?

— Sim.

— Lembra quando disse que sonharia comigo? O que viu em seus sonhos?

— Eu vi… Você. Eu sabia que era você. Eu sentia isso nos meus sonhos.

— E como sou em seus sonhos?

Fiz um esforço para lembrar de detalhes, mas minha mente me traiu. Lembrei pouco.

— Lembro dos seus cabelos e do seu sorriso. Cabelos levemente ondulados até os ombros. E seus olhos… Eles eram expressivos. Não tinham uma cor definida, mas me diziam tanto de você! Quando estava misterioso, eles eram castanhos escuros, quase pretos, e quando estava feliz, eles eram cor de mel, brilhantes, reluzentes. É difícil saber realmente como você é fisicamente, mas eu sinto você. Meu coração o vê assim.

— Façamos uma coisa. Espere até que possamos nos ver pessoalmente. Aí você poderá saber se está certa ou não. Seu coração me vê como quer, mas você também pode ver dentro do meu coração. Você me enxerga desta forma pelo que sente ao falar comigo. Se não gostasse iria me ver como um monstro, se enxerga beleza nisso já é um bom sinal.

— Mas e você? Não tem curiosidade em saber como sou?

Ele não titubeou em responder, foi categórico.

— Nenhuma. Vejo-te com os olhos do coração. Sei perfeitamente como é por dentro. O seu exterior não me interessa. A beleza em si é superficial e se acaba. Mas por dentro permanece o que há de melhor. Não a vejo como um produto em uma vitrine, a vejo como um ser humano, com defeitos e qualidades, interiores ou exteriores, não importa.

Meu coração palpitava a cada palavra proferida por ele. Poderia ser quem fosse, mas conhecia sobre a alma das mulheres, e eu gostava disso. Talvez tivesse me esquecido como era sentir-me assim, como era ser vista assim.

Não consegui conter as lágrimas. Tentei não deixar que ele percebesse.

— Não quero que fique triste. Ao contrário, quero vê-la sorrir. Daqui pra frente, eu ordeno que seja feliz. Por mais que não permaneça em sua vida, desejo ser o motivo para que veja a vida por outro lado, para que entenda que de todas as maneiras deve procurar ser melhor a cada dia. Por que viver é isso. O tempo é curto neste plano terreno, então por que não viver, por que não aproveitar tudo que está ao seu redor?

— Porque quero fazer isso ao lado de quem amo. Quero alguém com quem compartilhar isso tudo. — disse quase soluçando.

— Sim, claro. Mas se não tiver este alguém, mesmo assim deve viver. A vida é sua e é singular. Não ligue sua vida a uma outra pessoa. Não nasceu grudada em alguém, sua vida lhe pertence e a mais ninguém. Cada segundo, cada minuto que se vai é a vida que está extinguindo. Já pensou nisto?

— Não desta forma.

— Então passe a ver desta forma. E seus sonhos? Ainda tem algum?

Desta vez acertara na ferida. Sonhos? Eu os teria?

— Sim, já sonhei muito. E meus sonhos foram sepultados juntos com Diogo. Sonhei com uma família, filhos correndo ao meu redor. Sonhei que seria uma esposa perfeita e uma mãe amorosa. Mas sonhei isso sozinha. Estou ficando velha.

— Porque amou a pessoa errada. Não se julgue por isso. Você fez as coisas certas e não foi valorizada. Mas ainda há tempo, Cassandra. Tempo para você. A vida não acabou até que realmente acabe. Não jogue fora o que tem de precioso.

— Você? — alfinetei.

— Talvez. Meus conselhos lhe são úteis? Então os aproveite! Se eu lhe faço bem, aproveite isso também sem se importar com o resto. Viva.

Senti-me empurrada a seguir em frente. Ele estava definitivamente certo. Precisei ouvir tudo isso de um estranho para ver os erros que estava cometendo.

— Por hoje é suficiente. Plantei uma semente aí dentro basta regá-la. Aproveite o dia de amanhã para fazer um passeio, talvez com alguém da família. Lhe fará bem. Não deixe sua vida de lado. Cuide dos negócios, mas sem sacrifícios. E o principal, cuide da sua saúde, física e mental.

— E quanto a nós? Quando o verei?

— Você saberá. Isso não demora. Espere! Tenha ótima noite.

Tu… Tu… Tu…

Ele desligou o fone. Fiquei alguns instantes com o aparelho nas mãos. Ainda incrédula com tudo o que acabara de ouvir. Não seria a toa. Não poderia estar enganada. As palavras bonitas ainda não eram mais encantadoras do que a voz que as proferira. Senti-me leve, diferente, como há muito tempo não me sentia.

Pus o fone no gancho e subi para meu quarto. Antes que começasse a me despir para tomar o banho o telefone tocou novamente.

O coração disparou novamente. Seria ele? Teria esquecido de dizer-me algo? Queria marcar um encontro? Ou simplesmente me afirmar o que eu já sentia por ele?

— Que o amo! — disse em voz alta.

Atendi em seguida.

— Cassandra?

Era apenas mamãe. Não disfarcei o desapontamento.

— Sim, mamãe! — disse suspirando.

— Puxa. Que desânimo! Não fica feliz em falar com sua mãe? Se soubesse não ligaria. Cada dia se afasta mais de mim. E de todos.

— Não começa, mãe. O que quer?

— Bem, apenas fazer um convite.

— Para mais um aniversário de algum tio-avô que nem conheço? Agradeço mesmo, mãe. — interrompi.

— Não, filha. Baixe a guarda. Apenas gostaria de fazer um passeio a uma feirinha de artesanato em uma cidade do interior. Pensei em você como companhia. Se não se importar, é claro.

Lembrei do que Emanuel me dissera. Um passeio me faria bem.

— Se é isso, mãe, aceito. Estou precisando mesmo. Vamos sim. A que horas?

— Passo aí às oito horas da manhã para te pegar. Será ótimo. Boa noite, querida, sonhe com os anjos!

— Boa noite, mãe.

Quanto a sonhar, sonharia com apenas um anjo. Emanuel.

Não dormi tão bem como imaginei. Acordei algumas vezes durante a noite e me levantei não me sentindo muito bem. Estava com uma leve dor de cabeça. Mas mesmo assim não iria desistir do passeio com mamãe.

Saímos logo que ela chegou. Não queríamos perder nem um minuto. Teríamos muito para ver, coisas interessantes, artesanatos, pinturas. Em pouco tempo já estávamos cheias de sacolas. Guardamos tudo no carro e continuamos nossa procissão.

Em uma das lojas de pinturas fiquei encantada com um quadro enorme de um anjo. Estava envolto em ramos verdes por todo corpo. Tinha os cabelos castanhos claros quase dourados. Perfeito! Quando visualizei o preço da obra senti um certo torpor. Mas algo me fez esquecer o choque devido ao preço. Escrito em letras miúdas minuciosamente desenhadas eu pude ler: “Emanuel”. Aquilo me atingiu como um arrebatamento sobrenatural, incontrolável. Só podia ser um sinal. Um sinal dos céus para mim.

Distraí um pouco mamãe e depois saímos, quando já estávamos distantes da loja disse à ela que havia esquecido algo e voltei correndo deixando ela para trás.

Corri, voei até a loja e chamei a vendedora, ainda arfando.

— Moça… Por favor! Este quadro… — suspirei. — Este quadro está vendido?

Encostei-me no móvel enquanto tomava ar.

— Não, senhora. Não está. — a vendedora tinha o sorriso largo e alvo de quem imagina ver um possível comprador.

— E o preço é este mesmo? — quis confirmar.

— Sim, senhora. Quatro mil reais. Mas podemos dar um desconto de vinte por cento se for à vista.

— Sem problema. Vocês aceitam cheques? — completei.

Fiz o cheque rapidamente e combinei tudo com a vendedora para que entregassem em minha casa dias depois. Minha mãe teria um colapso se visse o quanto gastei em um quadro. Até mesmo eu teria se estivesse agindo em plena consciência.

Mas não estava. Sei que em menos de cinco minutos realizei esta compra audaciosa e voltei novamente correndo ao encontro de mamãe.

— Tudo bem com você, Cassandra? Você está pálida. Conseguiu resgatar o que perdera?

— Sim… Mamãe… Eu… — senti uma forte dor na cabeça.

O chão se afastara de mim. Foi como se eu fosse puxada para o alto repentinamente. Meus ouvidos zuniram.

— Cassandra! — ouvi a voz de mamãe ao longe.

Tudo escureceu.

Acordei novamente no hospital. Era um quarto branco, tinha cheiro forte de remédios. Não vi ninguém ao meu redor. Notei que alguém saíra do quarto. Pelos cabelos grisalhos, só poderia ser mamãe. Pessoas falavam alto no corredor. Eu pude ouvir bem dali, mas não compreendia bem o que diziam. Compreendi que o médico disse que era um caso grave. De quem estavam falando?

Haviam me amarrado na cama, não consegui me soltar, não podia ver as amarras que me prendiam. Eu devia ter passado mal durante o passeio, mas agora me sentia bem. Queria poder dizer isso à mamãe. Mas ela não estava ali.

Lembrei que Emanuel me dissera que precisava cuidar mais da saúde. Nunca senti nada. Sempre tive boa saúde.

Fiquei um bom tempo deitada ali sem que ninguém viesse me ver. Aquilo não era bom. O tempo passava e às vezes eu sentia sono e dormia. Sonhava muito. Havia muito branco ao redor, feria meus olhos toda aquela luz, queria poder pedir para alguém apagar as luzes.

Em um desses momentos de sonolência e vigília, fiquei alerta quando ouvi barulho no quarto. Abri rapidamente os olhos e o que vi não fora comum.

Um homem acabara de entrar. Vestia branco e sorria para mim.

Seus cabelos eram castanhos e lhe caiam pelo ombro. Os braços eram longos, mais que o normal, o peito era largo, acolhedor.

— Não podia ser! — Eu pensei.

— Cassandra… Sabe quem sou?

— Emanuel? — falei, mesmo que atropelando as palavras.

Ele já estava sentado ao meu lado na cama.

— Eu disse que viria. — ele sorria.

— Bem… Mas… Nunca imaginei que seria assim. Você é um… Médico?

— Pense desta maneira. Você precisa de mim agora. Não precisa?

— Sim. Muito. É tudo que mais preciso. Mas justo agora que estou neste hospital… Não queria que me visse assim. Mas logo sairei daqui, não se preocupe. Não foi nada de mais.

Ele apenas me olhava.

— Não esqueça do que disse sobre as aparências. Vim aqui por era o momento certo de vir.

— Mas não poso sair daqui. Estou presa.

— Sim, você sairá. Vamos comigo. Há coisas para serem vistas.

Levantei suavemente da cama como se flutuasse. Sentia-me muito bem, não tinha porquê estar ali.

— Me siga e não olhe para trás!

Apenas obedeci por mais que minha vontade fosse sempre contrária. Como quando você está no alto e alguém diz para não olhar para baixo, é a primeira coisa que deseja fazer.

Saímos lentamente daquele quarto, ele segurando minha mão sempre. Desejei tanto aquele momento, mas não imaginei que seria daquela forma.

O longo corredor parecia não ter fim.

Emanuel apenas me levava, como se me carregasse em seus braços. Nos braços de um anjo.

Fomos até uma pequena sala onde mamãe e mais alguns parentes conversavam com um médico.

Assim que entramos sem sermos notados pude perceber o que estava acontecendo.

Emanuel desta vez me abraçou forte.

— Você precisa ouvir isto! Ouça! Mas se acalme. — ele disse, me olhando firme, nos olhos.

O médico prosseguiu:

— Como havia dito, minha senhora, não há mais nada a ser feito. O derrame foi gravíssimo. Não há chances médicas possíveis que afirmam que ela volte. Eu sinto muito. Estamos mantendo o coma para preservar por mais algum tempo os órgãos dela.

Todos choravam neste momento. Mamãe estava magra demais, com olheiras profundas.

Ele continuou:

— Isto é algo que infelizmente também precisamos conversar a respeito. Doação de órgãos. Existem órgãos que podem ser aproveitados neste caso. Vocês já pensaram neste assunto? Ela havia dito algo à respeito enquanto estava viva?

Enquanto estava viva? Mas eu estava ali. Bem viva. Olhem para mim!

Emanuel continuou a me apertar.

— Mas… Cassandra sempre teve tanta saúde, doutor. Nunca pensou na hipótese de morrer, de doar órgãos, ou algo assim. Não sei o que dizer.

— Sempre devemos pensar, minha senhora. Mas agora ela já não pode decidir por si só. Vocês precisam decidir. Após desligarmos os aparelhos precisamos ter uma resposta. Vocês têm até amanhã para decidir. Não podemos esperar mais. Eu sinto muito.

Ele se despediu secamente.

Meus parentes choraram todos juntos, abraçados. Estavam confirmando o que eu temia. Estava morta, apenas sendo mantida por aparelhos.

Emanuel não me deu tempo de falar nada. Tirou-me dali.

— Venha comigo!

— Para onde?

— Apenas venha!

Voamos para longe daquele lugar triste, frio.

Nos sentamos em um gramado. Em tudo não me era estranho. Ao longe vi túmulos espalhados pelo campo verdejante. Estávamos no cemitério de meus familiares.

Pus as mãos sobre a cabeça e quis chorar. Estava angustiada. Sentia pela minha família. Estavam tristes, muito tristes.

— Eu vou morrer, Emanuel, vou morrer! Eles vão me matar!

— Nada acontece sem que permita, minha Cassandra. O destino deu as cartas aqui. Chegou a sua hora.

— De morrer? Não quero, não permito isso! Deus brincou comigo! Por quê? Justo agora? Logo agora? Que tudo daria certo, que eu estava bem, muito bem. Que eu teria você comigo. — eu perdera o controle.

— Eu estou contigo. Não estou? — ele sorriu.

— Mas… Se você está aqui… Como pode?

— Sou seu anjo, Cassandra. Lembra? Fui enviado por Deus para te ajudar e cumprir esta etapa.

— Não! — eu gritei. — Você veio para me levar.

Ele não me deu ouvidos. Levou-me até o túmulo de Diogo. Os túmulos de meus familiares ficavam próximos uns dos outros, e não muito longe do túmulo de Diogo, estavam abrindo uma nova cova.

— É para você! Você quer isso?

— Sabe que não. Eu quero… Poder voltar, tentar denovo. Estou deixando muito para trás.

— Está deixando? O que exatamente? Seu trabalho, sua casa, seu carro, o luxo que a rodeia? Sabe que não mais fará uso de nada disso.

— Eu sei. Não é isso. Não sabia que gostavam tanto de mim. Estão sofrendo por mim.

— Seus parentes?

— Sim. Agora vejo claramente. Sofrem por mim agora e sofreram também quando perdi Diogo. Sentiram por mim. E eu pensando que todos riam às minhas custas.

— Você os julgou precocemente. Entende agora?

Eu desejei poder chorar. Mas não pude.

— Me tira daqui! Eu lhe peço.

— Me diga o que você quer?

— Você! Afirmei sem pensar. Quero viver ao seu lado. Para sempre.

— Não pode ter tudo, Cassandra. Faça sua escolha já que lhe foi permitido escolher. Não posso ser seu. Ou fica comigo ou volta para sua família.

— Mas você veio para mim, por que deve partir agora? Eu sou seu anjo, vim para te ajudar. Não posso te dar tudo. O que escolhe? Vem comigo para viver sua própria felicidade e abandona seus entes queridos à sua própria sorte? Ou renuncia a este amor sublime para fazê-los felizes por a terem de volta?

Realmente eu estava sendo egoísta. Não poderia abandoná-los para viver minha felicidade. Estaria fazendo o mesmo que Diogo fizera comigo. Egoísmo puro.

— Não! — eu gritei. — Me leve de volta para aquele hospital, Emanuel. Eu vou voltar! Preciso voltar. Eu… Eu posso voltar?

Ele assentiu. Em instantes desapareceu.

Abri meus olhos imediatamente. A enfermeira que estava ao meu lado surpreendeu-se. Logo o quarto estava cheio. O médico gaguejava, não sabia explicar o que ocorrera.

Todos choravam, desta vez de felicidade e incredulidade. Abracei a todos e assegurei de que estava bem. Mas, afinal… O que acontecera? Já não me lembrava mais.

Quando voltei para casa fiquei radiante. tinham redecorado a sala e preparado uma recepção, mas o que mais me surpreendeu e me alegrou foi ver o enorme quadro de Emanuel pendurado na parede principal. Disso eu me lembrava.

Agradeci ainda em prantos e abracei minha mãe.

Estou viva!

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