Amnésia

Eu estava sentado com os braços sobre os joelhos , observando o chão. Algo escorria pelo meu rosto, mas não era lágrimas e muito menos sangue. Havia uma goteira impertinente sobre minha cabeça. Senti o frio aço de algemas no meu pulso.

Mas o que acontecera? Como fora parar ali? Poderia ser um sonho?

Real demais para um sonho. Eu só não compreendia como fora parar ali. Afinal, onde era aquele lugar? Onde estavam todos?

Era inútil. Não conseguia me lembrar de nada. Cansado de tentar compreender o que acontecia, me deitei de lado com a água escorrendo ao meu redor e o frio da cela arrebatando o meu corpo.

Dormi e sonhei…

 

A garoa caía fina, porém inexoravelmente sobre o pára-brisa do meu carro, enquanto aguardava o sinal abrir.

Já não me lembrava qual parte da minha profissão havia me feito ficar entediado com ela. Talvez me lembre sim, fora no dia em que meu superior me transferira para a delegacia mais distante da face da Terra.

O sinal ficou verde logo à minha frente e o velho Voyage deslizou barulhento pela rodovia esburacada. Eu deveria ter agradecido muito mais pela vida que tinha antes. Deveria também não ter acertado Joaquim com aquele direto bem no queixo. Discussões no trabalho sempre podem acontecer, mas ter levado em frente a agressão física não foi o melhor que eu poderia ter feito.

Em tudo o lugar não era mau, mas me fizera ter de mudar muitas coisas na minha vida, principalmente a rotina de minha família, minha esposa abandonara o trabalho e minha filha teria de se acostumar com a nova escola. Quanto a mim, o máximo que teria de fazer era investigar roubos de galinhas e apartar brigas de casais.

O distrito ficava no prédio do antigo museu da cidade. Havia muitas salas vazias e a maioria delas transformaram em celas provisórias. O salão principal era a recepção. O quadro de funcionários não estava completo, por este motivo, o local mais parecia um deserto no turno da noite.

Durante a noite eu ficava em uma sala úmida e mal iluminada no subsolo, onde ficava o arquivo morto e algumas celas.

A recepção ficava sob os cuidados de Silveira, um policial velho de guerra que fora transferido para o distrito de Feijões porque estava preste a se aposentar.

O velho Silveira cumpria bem o seu papel se estivesse movido a café com um pouco de Rum ou Uísque.

O turno da noite parecia ser eterno, mas eu procurava fazer as horas passarem lendo velhos arquivos ou fazendo rondas pelo prédio.

Naquela noite de sexta-feira, meu turno não seria diferente se não fosse pela garoa que rapidamente se transformara em chuva e pela surpresa que tive ao descer para minha sala.

Tudo estava em perfeita ordem, mas uma das celas estava ocupada, o que não era muito comum naquele lugar.Coloquei meu casaco sobre a cadeira e joguei as chaves do carro dentro da gaveta.

As lâmpadas fluorescentes ainda piscavam sobre a minha cabeça, sinal de que mais uma vez não atenderam minha solicitação de reparo.

A primeira visão me inquietou. Havia uma garota na sala, estava sentada no chão com a cabeça sobre os joelhos. Parecia uma criança, era magra demais, tinha cabelos pretos e desgrenhados, usava roupas surradas, que mais pareciam ser do século passado. Pelo modo de se vestir de preto e calçar coturnos e meias arrastão, percebi que poderia fazer parte de algum grupo de Punks ou Góticos e, no mínimo, conseguira se enrascar sozinha.

Olhei sobre minha mesa vazia e não encontrei a ficha dela. Sem demora subi até a recepção à procura do documento. Encontrei Silveira tirando um de seus cochilos. Assim que o acordei questionei sobre a menina, enquanto eu dava uma rápida olhadela na ficha.

— Não me pergunte nada. Quando cheguei já estava tudo como está. Basicamente, ela não existe. Não tem documentos, ninguém a conhece e ainda por cima não fala nada.

— Qual o motivo da prisão?

— A danadinha arrebentou a cabeça de uma outra adolescente com uma pedra.

Levantei os olhos de cima do papel e o fitei.

— Ali, sobre a mesa. — ele apontou.

A pedra não era exatamente o que eu havia pensado. Era um pedaço de mármore negro que no mínimo pesava uns vinte quilos.

— Aquilo? Dificilmente uma jovem com seu porte físico conseguiria matar alguém com uma pedra deste tamanho, não acha?

— Não me pergunte nada. Quando cheguei, esta bomba já estava aí. Já deve saber como as coisas funcionam por aqui, o doutor Andrade saiu de férias hoje e disse que amanhã ela será transferida para um outro distrito. A coisa foi feia, veja você mesmo as fotos do corpo da garota.

Silveira me empurrou as fotos sobre a mesa de madeira. O que vi não me surpreenderia se tivesse acontecido na cidade de onde vim. Lá era comum o crime mais brutal, homicídios, latrocínios, acidentes variados, mas um assassinato brutal como este, numa cidade tão pequena como Feijões, no mínimo causava um certo choque.

A gravidade dos ferimentos me fez imaginar a cena do crime.

O rosto da garota ficara desfigurado, o crânio se esfacelara e não podíamos com exatidão determinar onde estavam seus olhos, ou o que era massa encefálica.

Recoloquei as fotos sobre a mesa e desci para minha sala.

O silencio era quebrado apenas pelas gotas de água que pingavam sem cessar dentro de um balde, em uma das celas. As lâmpadas ainda piscavam, e das quatro que funcionavam horas atrás, apenas duas ainda ficaram acesas. O local estava ainda mais escuro.

A garota permanecia na mesma posição como se não tivesse movido um fio de cabelo. Aproximei-me da cela e me agachei. A refeição que haviam lhe trazido estava intocada.

— Boa noite. Você não comeu nada. — principiei um diálogo.

Como esperava não obtive resposta.

— Se puder, me passe o prato, se não for comer. Há ratos aqui. Irão fazer a festa.

Ela empurrou o prato para mim através da fresta, mas continuou na mesma posição.

Peguei o prato e me levantei para guardá-lo.

— As luzes.

Eu parei e me virei em sua direção.

— O que disse? — Balbuciei.

— As luzes…

Ela repetiu, sem se mover.

— As luzes te incomodam?

— Sim. Meus olhos… Não suporto.

Ela levantou a cabeça e me olhou. Seu rosto era infantil, tinha feições delicadas, mas seu olhar era feminino, maduro.

— A iluminação aqui embaixo não é das melhores, mas creio que não ficará tanto tempo aqui.

— Tempo suficiente.

O que pensei que seria um monólogo, tornara-se um diálogo.

— Não está preocupada com o que irá acontecer com você?

— Apenas com as luzes. Mas elas irão parar de piscar!

— Você quer conversar sobre o que aconteceu?

— Não aconteceu nada. Você quer falar?

— Você está sendo acusada de um assassinato. Conhecia a garota que foi morta?

Ela levantou-se e segurou as barras de ferro enquanto me olhava de cima a baixo.

— Não fiz nada de errado.

— Tentei imaginar como você fez aquilo sozinha.

— O que você faz aqui? — Ela falou sem me olhar.

— Sou investigador.

— Então este é o seu trabalho. — Ela afirmou.

Eu voltei para minha mesa. Não havia percebido em que momento as luzes pararam de piscar.

Investigar sobre aquele crime não era meu trabalho, afinal, ela seria transferida para outro lugar.

Estava olhando fixamente para alguns papéis sobre minha mesa, mas pude notar que ela olhava em minha direção. A chuva parara de cair, e o silêncio ao nosso redor era profundo. Se conseguisse prestar mais atenção, eu poderia até mesmo ouvir as batidas aceleradas do seu coração. A culpa pelo crime talvez a torturasse naquele momento. Não consegui ver nenhum sinal de inquietação naquele rosto angelical. As únicas batidas descompassadas eram as do meu próprio coração.

Desejei reiniciar a conversa, mas não tive o ímpeto de prosseguir.

O relógio que ficava na parede à frente da minha mesa apontava para meia-noite e meia. Eu sentia meu corpo pesado, o cansaço havia me acertado em cheio. Resolvi deixar de lado a conversa com a jovem detenta, e dormir sobre minha mesa.

Debrucei-me sobre a mesa e ainda com os olhos abertos observava pelas aberturas das paredes de pedra, os relâmpagos explodirem lá fora, piscando como as luzes há pouco faziam. Meus pés estavam gelados e minhas costas doíam, tamanho era o frio que açoitava meu corpo. Aquela sala mais parecia as antigas câmaras de tortura do tempo da inquisição.

Adormeci por alguns instantes, mas logo acordei ao sentir um toque em meu pescoço. Assustei-me, mas não era ninguém.

Levantei-me e vi que a garota voltara ao mesmo lugar, sentada no chão frio.

— Você quer um cobertor? — Ofereci.

Ela não respondeu.

Neste momento vi que dois agentes desciam as escadas. Não os reconheci. Traziam baldes de água.

— Com licença, senhor. Temos um trabalhinho aqui.

Um deles se pôs em frente à cela e jogou com força a água na garota.

— O que está fazendo? Pare com isso! — Gritei.

Como se não tivessem me ouvido, continuaram jogando a água extremamente fria sobre ela.

Num acesso de fúria, me joguei sobre eles, obrigando-os a parar.

— O que querem? Estão loucos?

— Queremos apenas nos divertir um pouco, com a assassina.

— Vocês não têm esse direito! Estão no meu distrito. Tudo o que vier a acontecer a ela será de minha responsabilidade.

— Temos aval do delegado.

— O delegado está de férias e não acredito que tenha dado uma ordem dessas. Insisto que devem sair daqui agora, pois não quero ter de escrever alguns papéis endereçados à corregedoria.

— Talvez possamos brincar um pouco com ela… — Um deles a olhou maliciosamente.

— É melhor irmos embora. — O outro sugeriu.

Logo que se retiraram fui até a garota. Ela estava de pé, toda molhada, olhando fixamente através de mim. A maquiagem escura escorria pelo seu rosto e ela tremia muito. Era um tremor diferente, não parecia ser de frio.

Apressei-me em pegar um cobertor velho e cobri-la. O cobertor não seria suficiente, pois suas vestes estavam encharcadas. Aquele lugar era frio demais e ela não tinha mais roupas.

Sem pensar muito nas conseqüências e sem compreender bem o que estava fazendo, abri a cela e a tirei de lá.

Silveira fez menção de me impedir, mas eu o calei com poucas palavras.

Coloquei a garota no banco de trás do carro e saí dirigindo como louco pela estrada.

A chuva caía. O caminho até minha casa era longo, mas parece que o tempo voou e em poucos instantes, já estacionava o carro um pouco distante de casa para não acordar ninguém.

A minha passageira continuava em seu devido lugar, ainda com o olhar imóvel e tremendo muito. Não parecia se preocupar com o que eu faria.

Eu a menos compreendia direito o que fazia ali. Sabia a princípio, que pegaria umas roupas para ela.

Entrei em casa sem fazer barulho. O quarto de minha filha estava trancado, sinal de que estava dormindo.

Vi que o quarto de casal estava aberto. Minha esposa não estava em casa, suspeitei pelo fato de o outro carro não estar na garagem. Não conseguia imaginar para onde ela poderia ter ido para que deixasse nossa filha sozinha.

Tentei pegar umas roupas e levar até a garota.

Quando retornava à casa, encontrei-me com minha esposa. Meu coração me disse exatamente o que ela fazia.

Tive um branco súbito, mas sabia o que acontecera.

Meu cérebro parecia estar sendo comprimido por algo. Era o ódio da descoberta que fazia aquilo.

Ela se chocou quando me viu. Vestia apenas um roupão.

— Eu apenas fui até a farmácia, querido! — Ela sussurrou.

Não fora até a farmácia, não fora. Ela estava com ele. Tinha um amante.

Eu estava sendo traído.

Não exitei em tomar uma atitude. O sangue me subiu à face.

Diana pagou caro por aquilo, muito caro. E tudo que era seu também levara consigo.

Eu a fiz pagar.

Parti depois disso, levando comigo a garota assassina. Agora éramos um só.

Foras da lei.

Fomos surpreendidos na fronteira dos municípios.

Pararam meu carro e me arrancaram com violência de dentro dele. A pancada me fez dormir por horas talvez. Não posso afirmar.

 

 

— O que houve? — Um agente conversava com o delegado, próximo a mim.

— O Encontramos antes que fugisse.  Liquidou a família.

— Acharam a arma do crime?

— Sim. Por incrível que pareça, é a mesma pedra que fora usada para trucidar uma garota há poucos dias.

— Então podemos entender isso desta forma?

— Possivelmente. — O agente assentiu.

— E a garota que estava com ele?

— Desapareceu como que por milagre. Como se nunca houvesse existido.

— A mulher dele estava doente. Acabara de vir de uma farmácia. Ele imaginou coisas. Como pode? Um cara tão centrado como ele. O que pode ter acontecido?

 

Eu apenas não me lembrava de nada.

O sangue de minha esposa e de minha filha ainda estava em minhas mãos e roupas. O que eu fizera?

Estava em choque. Não podia ser. Estavam mentindo.

Amnésia.

Quem sou eu? Um monstro?

Nada restara. Apenas as algemas de aço frio nos pulsos e o frio cortante naquela cela me açoitando o corpo.

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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