Cadeira na Varanda

VARANDA DE FAZENDA

 

 

 

  

 

(Recomendo que leia antes o conto “ENSAIO, também publicado pela Antologia Caminhos do Medo, Editora Andross”.)

Lina Stefanie

Pessoas costumam dizer que a vida é curta, que o tempo passa rápido demais. Este modo de pensar é inquietante, mas certamente devo afirmar e aceitar que esta é a mais pura verdade.

Quando se é jovem não há o medo do amanhã, ao contrário, contamos os minutos para que o futuro chegue. Jovens não têm medo de nada. Mal sabem eles o que esta pressa vai lhes custar no futuro. A ansiedade por viver nos faz esquecer que cada momento deve ser vivido intensamente, a cada segundo que se vai devemos nos entregar às riquezas da vida e da juventude. Não deixar situações importantes passarem despercebidas, não perder acontecimentos.

Hoje, aqui sentada nesta cadeirinha de palha, eu vejo o quanto deixei o tempo soprar minha vida para longe de mim. Praticamente não vivi. Minha vida parou naquele dia, no meu trabalho. Foi como fechar os olhos e abri-los novamente.

Observo hoje tudo à minha volta e vejo que nada aproveitei. Vi minhas melhores horas passarem sem que eu fizesse valer à pena. Fui uma jovem tola e sonhadora que se deixou levar por devaneios infantis. Passei anos desta vida cruel presa a um passado que eu mesma criei.

Perdi meus entes queridos e hoje vejo que não tenho ninguém para chamar de “meu”. Olho cada fio branco de cabelo, observo cada ruga nova que me surge, e me espanto com o que me tornei. Uma imagem esquelética e fantasmagórica estampada no espelho. Perto dos oitenta anos de idade, vejo a morte se aproximar lentamente.

Sentada na varanda, olho à frente e apenas vejo meus cachorros velhos e alguns gatos sarnentos que me rodeiam a procura de alimento.

Por que não poder mudar o passado?

Se isso fizesse, veria agora meus netinhos correndo pelo quintal. Pendurada na velha ameixeira haveria uma balança. Da cozinha viria um aroma doce de torta de banana com canela que minha filha mais velha faria para mim.

Vamos, vovó, conte uma história! — pediria uma de minhas netinhas.

Mas isto é apenas utopia e aqueles velhos tempos não voltarão.

Fecho os meus olhos e tiro um cochilo. Como é bom dormir e sonhar, e em meus sonhos sempre sou melhor e tudo é mais bonito. Meus sonhos sempre são repetitivos. E a cada dia sinto mais sono como se de uma hora para outra não fosse mais acordar.

Vejo-me na minha juventude, trabalhando na mesma biblioteca. Uma garota cheia de planos e sonhos comuns de toda mulher. Sinto a mesma coisa que senti naquele dia quando o encontrei. Minha vida mudou totalmente. Meu coração se abriu e pude entender o que é o amor.

Por um momento meu cochilo é interrompido. Ouço passos firmes sobre as folhas secas do quintal. Abro os meus olhos devagar, puxo um pouco a colcha de retalhos sobre as pernas.

Um homem se aproxima. Seu andar é calmo, régio.

Não movo um músculo.

Ele me olha diretamente nos olhos que já pouco vêem, os últimos raios dourados de sol atravessam sua retina. Seu rosto é jovem e estranhamente doce.

Devagar ele sobe os dois degraus da varanda. Para um instante, volta a caminhar ficando à minha frente. Ajoelha, pega minha mão e a beija.

Neste instante meu velho coração acelerou como há muito tempo não o fazia. Apenas uma vez sentira isso antes. Este calor num crescendo dentro de mim, o leve tremor das mãos, o sorriso inesperado.

Aquele riso, aquele toque, eu nunca esqueci. E como poderia?

Ele levantou-se e me puxou para junto dele.

Já não me lembrava mais do reumatismo e da dor nos ossos que não me permitia mais ficar de pé. Levantei-me com a sua ajuda e o abracei cambaleante procurando em seus braços a força da juventude.

Venha comigo! — disse ele me puxando devagar pela mão.

Deixei a velha colcha de retalhos cair de lado e abandonei meus chinelos de dedo ficando descalça. Senti-me uma menina ao lado dele. Indefesa.

— Vamos ao salão de bailes, minha rainha!

Já não estava mais na minha antiga varanda, entramos pela porta da frente e o que vi me encantou. Um salão de festas lindo, todo iluminado, onde pessoas jovens e bem vestidas, dançavam com seus respectivos pares.

Olhei para os meus pés e eles já não estavam descalços. Calçava uma sandália toda enfeitada de brilhantes, meu vestido era longo e vermelho. A minha pele estava novamente macia e lisa.

Venha, minha rainha. Já não se lembra mais de mim?

Claro! Como poderia não me lembrar?

O meu Tobias.

Ele voltara como havia prometido e depois tanto tempo.

Sorria-me de uma forma que me queimava por dentro. Seu toque me acalentava e tudo o que eu mais queria era os seus braços ao meu redor.

Como esperei por este momento! Anos a fio a esperança que alimentei me manteve viva. A lembrança do nosso único encontro. O melhor encontro. A recordação que nunca me saiu da mente. Cada gesto, o toque das mãos dele, o modo como dançou comigo, o jeito que me olhava, nunca pude esquecer.

Não contive a alegria e me desfiz em lágrimas. Abracei-o e o beijei para nunca mais deixá-lo ir.

Ele me prendeu em seus braços e colados um ao outro, rodopiamos pelo salão até que nossos pés já não tocavam mais o chão.

Dançamos e dançamos por horas até notar que já estávamos sozinhos naquele salão. Já não havia mais música, o único ruído que prevalecia era o de nossa respiração ofegante.

Nossos lábios se uniram em um beijo fraternal e apaixonado, ansiado por séculos. Beijamos-nos com volúpia e desejo, quase um beijo violento que nos trouxe à boca o sabor do sangue.

— Vim lhe trazer o que prometi, minha rainha.

— Sim, Tobias. Eu aceito! Tudo o que vier de você porque o amo.

— Peço sua velhice em troca do meu amor.

— Eu lhe concedo. Dê-me seu amor!

— Eu vim no momento certo e quando mais precisou de mim. Nosso amor estava escrito desde outras épocas, quando em tempos atrás eu cheguei tarde e a perdi. Mas agora me pertence. Seu pai a envenenou para que não nos amássemos e eu prometi que teria a eternidade ao meu favor para esperá-la. E assim o fiz. Você desencarnou, mas quando você voltou, eu a encontrei. Não chegastes a ser uma rainha naquela época, mas agora eu a farei minha rainha.

— Sim, meu amo! Não sou sua rainha e sim, sua escrava, leve-me contigo para seu castelo.

Tobias apenas sorriu com seus caninos brancos.

Eu queria a juventude que emanava do corpo dele.

E assim se fez.

Entreguei-lhe meu velho sangue e ele me concedeu a vida num ato de amor infinito.

Uma promessa que se cumprira, um amor que o tempo não destruiu.

Tornei-me uma outra pessoa deixando para trás meu passado insólito.

O amor me fez renascer para uma outra vida além do que já tivera.

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