Francisco

 

Lina Stefanie

Era por volta de nove horas da noite quando Cristina saiu da faculdade para ir para sua casa. Sabia que esta seria sua última sexta-feira como estudante. Decidira que largaria os estudos e isto seria para sempre.

Estava ainda no primeiro ano do curso, mas já não suportava mais as piadinhas dos colegas de classe. Quando passou no vestibular não imaginou que seria assim, humilhação atrás de humilhação. Queria apenas estudar, apenas isto. Não imaginava que suas diferenças iriam lhe causar tantos problemas assim.

Compreendia que não era parecida com nenhuma das meninas bonitinhas que estudavam em sua classe, sentia que era diferente, mas isto nunca fora um problema para ela em sua vida simples no interior.

Morava longe da faculdade e precisava ir de ônibus para sua casa, que ficava em um lugar afastado da rodovia principal.

Não fazia questão de se arrumar, de ficar bonita como as outras porque para ela já bastava sua capacidade intelectual. Passara no vestibular com facilidade, sem contar com a ajuda de ninguém.

Mas para os outros isto não era suficiente.

“As pessoas da cidade sempre são diferentes!” — Isto costumava ouvir de sua avó.

Quando passou a enfrentar isto em sua pele, tudo foi duro demais.

Não sabia se vestir e não tinha roupas boas para isso. A faculdade era oriunda de uma bolsa de estudos que havia ganhado de um programa do Governo. Não trabalhava ainda, vivia apenas ajudada pela aposentadoria de sua avó. Tudo para ela era simples demais.

Vestia-se sempre de saias que eram confeccionadas pela avó que se saía muito bem na máquina de costura. Usava óculos de grau por causa da miopia avançada, noites em cima dos livros.

Apenas seguir em paz, era apenas isto que desejava, mas não era exatamente o que seus colegas de classe queriam. Adoravam aproveitar de sua simplicidade e bondade. Adoravam enrolar chicletes em seus cabelos, prender a barra de suas saias na carteira, entre outras coisas desagradáveis que faziam diariamente.

Cristina havia tentado entrar na brincadeira, mas nunca a levaram a sério. Na verdade eles só suportavam aquelas pessoas que sempre pareciam iguais às outras. Mas ela jamais seria igual.

Certo dia resolvera até mesmo usar maquiagem, coisa que jamais sua avó deixaria por ser religiosa demais, dizia que as mulheres têm de ser bonitas naturalmente sem precisar usar adornos. Talvez se sua mãe não houvesse sido morta há dez anos atrás, talvez a deixaria ser diferente do que era agora. Enfim, a história da maquiagem não havia resolvido muito, pois apenas atiçara ainda mais a fúria de seus colegas sedentos por risos.

Voltara para casa ainda mais arrasada do que saíra.

Seu ano letivo se resumira a isto. Decepções após decepções. Não queria mais prosseguir sua vida. Estava arrasada. Para ela havia sido demais. Talvez terminaria sua vida lavando banheiros imundos de uma lanchonete de beira de estrada. Não se importava, ao menos nem seria notada assim, não a julgariam por não ser alguém.

E tudo piorou muito quando Cristina viu-se apaixonada por um dos garotos mais populares da faculdade. A partir daí tornou-se definitivamente o alvo principal dos insultos e gozações dos colegas. O garoto se chamava Fernando, e este nome significava muito mais para ela do que um simples amor de escola. Só que na verdade Fernando não chegava a tratá-la mal, o que acontecia era que os colegas dele caçoavam desta proximidade que ele aceitava simplesmente porque precisava de Cristina para ajudá-lo nas notas. E ela fazia questão de ajudá-lo sempre mesmo que para isso tivesse de engolir a dor do preconceito dos demais.

Chegou certa vez a acreditar que Fernando realmente poderia chegar a sentir algo por ela, mas percebeu logo que não passava de ilusão, pois isto nunca chegou a acontecer. E ela descobriu isto quando decidiu se afastar dele e não ajudá-lo mais. Fernando reagiu de uma forma quase violenta e disse a ela tudo o que ela não precisava ouvir, que apenas suportava a presença dela por causa da ajuda nas notas. Isto ela já sabia.

Entretanto, Cristina se cansou de tudo. Cansara-se dos insultos, do amor não correspondido, das humilhações, dos trotes sem sentido.

Abandonaria a bolsa de estudos mesmo sabendo que isto era algo almejado por muitos, talvez daria chances para outra pessoa comum estudar.

Após voar alto em seus pensamentos caiu novamente na real. Estava indo para o ponto de ônibus sozinha em meio a uma tempestade. Chovia bastante e Cristina não tinha guarda-chuva.

“Será meu último dia, último dia!” — Pensava consigo mesma.

O ódio tomara conta de seu coração durante este ano letivo. Aprendera a sentir raiva, rancor, sentimentos que jamais experimentara antes.

Odiava os meninos de sua sala por a humilharem tanto, odiava as meninas por serem tão bonitas e tão indiscutivelmente perfeitas aos olhos dos demais, odiava, odiava, odiava. Detestava até mesmo os professores que mesmo na chamada mal se davam ao trabalho de levantarem o olhar quando se referiam a ela pronunciando seu sobrenome de modo errado. Ninguém parecia enxergá-la naquele lugar maldito.

Levava sempre a mão à boca quando dizia esta palavra. Malditos! Todos!

O ódio crescendo e a chuva só aumentava.

O caminho da faculdade até o ponto era curto, mas para ela parecia uma eternidade, pois todos se esbarravam nela de propósito apenas para fazerem seus livros caírem no chão para que ela se abaixasse para pegar e quando o fazia sempre era empurrada de cara no chão.

Neste dia deram uma trégua porque estava chovendo e todos procuraram seu caminho de casa para não se molharem.

A esta altura dos acontecimentos já estava encharcada. Sua saia de estampas floridas estava praticamente arrastando no chão.

Parou finalmente embaixo do abrigo. Não demoraria até que o ônibus saísse da garagem e finalmente poderia se encolher em um banco afastado até chegar em seu lar.

Mas o ônibus não vinha.

Sua raiva aumentava.

Percebeu um carro preto parar em sua frente. Estava sozinha no ponto e não poderia ser alguém que conhecesse também, não conversava com ninguém na faculdade.

O vidro do carro se abriu. Espiou de canto de olho. Era um jovem de olhos brilhantes e sorriso aberto que se abaixou para olhar para ela.

— Quer uma carona? – Perguntou ele.

Cristina fez de conta que não ouviu nada, virou-se para o lado e permaneceu calada.

— Eu perguntei se quer uma carona! – Insistiu ele com um sorriso ainda largo no rosto.

Ela o olhou, desconfiada. Percebeu que era um rapaz desconhecido. Talvez estudasse na mesma faculdade, não se lembrava dele e não conseguia entender porque ele queria dar carona à garota menos popular do mundo?

— Hei, moça, você mora longe daqui e o seu ônibus vai demorar a vir, estão trocando um pneu furado.

Cristina percebeu que ele não iria desistir por isto aceitou o convite, mesmo sentindo receio.

Entrou e sentou-se sem falar boa noite ao menos.

Não lembrava de ter visto aquele rapaz alguma vez em sua frente. Era bonito, estranhamente bonito, e simpático. Diferente dos demais que conhecia.

O carro começou a andar lentamente espalhando a água retida nas poças.

— Como se chama? – Ele puxou conversa.

Ela permaneceu calada.

— Não é por nada, moça, mas se vamos passar os próximos quarenta e cinco minutos juntos dentro deste carro, poderia ao menos dizer seu nome. Eu não mordo.

— Cristina! – Respondeu ela, ríspida.

— Cristina. Agora sim, bonito nome mesmo! Chamo-me Francisco. Sabe, como o santo. Pelo jeito parece ser religiosa.

Cristina apenas movimentava a cabeça. Não sentia vontade de falar, mas gostava da presença daquele jovem. Algo a deixava calma.

— Fale-me um pouco de você. Parece calada demais. Algo a aflige?

— Não. Ao contrário. Estou bem hoje!

— Fico feliz por você, Cristina! Posso saber se há um motivo em especial?

Cristina pensou. Que mal haveria em contar o motivo de sua alegria?

— Sim, o motivo é que deixarei de estudar a partir de hoje. Este é o motivo.

— Deixar de estudar? Isto não é bom. Porque deixar de estudar?

Agora ele já queria saber demais. Já dissera o suficiente, mas mesmo assim ele continuava perguntando e ela queria falar e falar a respeito de sua vida para este estranho. As palavras insistiam em sair e soarem educadas sempre. Nada que dissesse seria suficiente.

— Não suporto mais ser humilhada. Se você estuda nesta faculdade deve ter ouvido falar de mim. Sou a caipira desse lugar… – Quase dissera maldito novamente. – Apenas não suporto mais.

Francisco fez uma curva acentuada com o carro e ao trocar de marcha sua mão quase chegou a tocar o tecido molhado da saia de Cristina, o que a fez gelar por inteiro. Nunca tivera um contato tão próximo assim com um homem, sempre se afastava deles como o diabo foge da cruz, ou ao contrário, eles também se afastavam sempre dela, como se possuísse uma doença contagiosa.

Era bom, extremamente bom estar próxima a um homem tão educado e que não se importava com seus óculos fundo de garrafa e suas saias que se arrastavam no chão. Ele era encantador! Pela primeira vez conseguira sentir algo bom por alguém, e havia sido em poucos minutos de conversa.

Encantador. Até mesmo em silêncio Francisco era encantador!

— Não acho que você deve sair do curso. Tudo pode mudar se quiser. Não desista assim! Afinal são apenas quatro anos, depois tudo mudará, você terá sua profissão, sua vida própria. Não desista assim!

Vindo dele até soava como uma ordem, mas uma ordem que ela queria cumprir muito.

“Não saia do curso! Não saia!”.

Não sairia. Não agora que conhecera Francisco.

Conversaram durante todo o percurso e até mesmo riram juntos. Já se sentia diferente a partir daquele momento em que o conhecera. 

E assim seguiu sua vida.

Não desistiu da escola, graças a Francisco.

Mas quem era Francisco? O que sabia dele? Nada. Apenas que era alguém que lhe dera carona em um dia de chuva. E após este dia de chuva sua vida mudara por completo.

Seguiu sua vida normalmente e sem deixar de pensar um instante sequer em Francisco. Como o santo. Sua avó era muito religiosa e São Francisco era seu santo predileto, só não comentara isto com Francisco por vergonha.

O santo que recebeu as chagas de Cristo. Protetor da natureza e dos animais.

 Cada dia parecia não querer passar e isto a incomodava profundamente. Não sabia em que sala Francisco estudava, qual era seu curso, nada.

Procurava por ele, mas nada conseguia encontrar que lhe acalmasse.

Certo dia estava na biblioteca procurando alguns livros quando teve a impressão de que não estava sozinha. Ajustou os óculos no rosto e olhou para os lados. No primeiro instante nada viu, procurou novamente e gelou quando sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Em seguida uma mão tocou-a no ombro. Virou-se imediatamente e seu semblante mudou. Era ele.

— Como está, Cristina? – Disse apenas.

Ela não conseguiu responder nada no primeiro instante. Fora coincidência demais. Acabara de pensar nele e acontecera tão rápido.

— Bem, estou bem! Eu estava…

— Pensando em mim? – Francisco quase riu ao falar.

Cristina enrubesceu.

— Não era isto.

Cristina arqueou as sobrancelhas, estavam completamente sozinhos e em silêncio como se o mundo agitado da faculdade tivesse parado para aquele encontro.

— Como passou esses dias, Cristina? O que fez de bom? – Prosseguiu ele.

— De bom exatamente nada. As mesmas coisas de sempre.

Lembrou-se o quanto aqueles três dias demoraram passar.

— Ainda não parece tão feliz. Pensei que após aquela nossa conversa você talvez ficaria melhor. Ainda pretende deixar os estudos?

— Não. Continuarei, mesmo não sendo o que realmente quero. Ainda não me sinto bem aqui e sei que nunca estarei em qualquer outro lugar no mundo, mas sinto que devo continuar.

Pensou em fazer-lhe muitas perguntas, mas elas nunca saiam de sua boca, quando pensava em perguntar-lhe uma coisa saía outra totalmente diferente.

— Você… – Principiou ela.

— Eu?

— Bem, não sei bem o que dizer.

— Apenas diga!

— Bem, você sabe. Sou uma espécie de bicho de sete cabeças nesta faculdade. Você não se sente envergonhado se alguém vê-lo ao meu lado?

— Bicho de sete cabeças? Mas quem não é? Não pense assim. Não me importo com o que os outros pensam a nosso respeito. Não me importo. Para mim você é alguém especial, tem seu mistério e isto me atrai. — Francisco sorriu seu riso mais cálido.

Cristina não se lembrava de quando ouvira algo tão especial como o que acabara de ouvir naquele instante.

— Você pode ter tudo o que quiser, Cristina, pode ser tudo o que desejar, basta você querer realmente.

— Mas eu quero!

— Não quer da maneira correta. Não deseja no fundo de seu inconsciente.

— Quero!

— Seu desejo é fraco demais. Precisa desejar com mais convicção.

— O que quer que eu deseje?

— Ser diferente. Fazer algo melhor que os outros. Pense sempre assim. Que pode fazer!

—  Talvez eu não queira exatamente ser diferente.

— Mas já é. Pense a respeito. Você tem seu lugar reservado, em algum lugar.

Francisco não esperou que ela dissesse algo e saiu. Silencioso e discreto assim como entrara em sua vida.

Novamente não conseguira perguntar-lhe nada. Suas conversas ficaram no ar como perguntas que não foram respondidas.

Neste dia Cristina voltou para casa com uma convicção. Iria mudar seu visual.

Foi para casa e sonhou com tudo o que iria fazer no dia seguinte.

Levantou-se bem cedo e avisou sua avó que iria sair.

Foi até a cidade e visitou o banco. Tirou um pouco de suas economias e foi para as lojas de roupa.

Fez algo que nunca fizera antes. Comprou sapatos altos, calças jeans, blusas decotadas e coloridas, comprou também algumas maquiagens. Sentiu-se bem em fazer isto como se algo a impulsionasse a fazê-lo.

Voltou para casa e escondeu tudo de sua avó. Ela não gostaria nada de vê-la usando coisas como aquelas.

Na hora de ir para a faculdade não teve jeito, sua avó a surpreendeu colocando as roupas novas e usando a maquiagem.

— Valha-me Deus! O que é isto? Minha filha? – Disse a avó.

— Isto é a nova Cristina, vovó. Sua neta está mudando.

— Jamais, minha filha, deixarei que você use estas coisas do mal. Isto não presta, minha Cristina. Tire tudo, querida. — A velha estava em prantos.

— Não vovó, eu sinto muito, até agora eu vivi a sua vida, agora quero viver a minha.

— Eu sabia que esta história de querer estudar com aquelas pessoas iria acabar mudando você. Eu sabia, minha neta. Não faça isto. Eu estou aqui para cuidar de você e não deixá-la fazer isto. Lembre-se de sua mãe. A memória de sua mãe.

— Não me importo, vovó. Mamãe está morta e nada pode fazer por nós, por mim. Já estou bem madura para seguir suas crendices.

Ao mesmo tempo em que se sentia aliviada, Cristina também não acreditava no que acabara de dizer a sua avó. Sempre a tivera em primeiro lugar em tudo e agora decidira mudar tão nitidamente seu comportamento.

— O que a fez mudar assim, minha filha? Diga-me! – Sua avó implorou.

— Um homem, vovó. Um homem me fez enxergar a vida de outra forma. Fez-me ver que ainda estou viva.

— Um homem? Você está saindo com um homem, Cristina? Mas você…

– A mulher colocara a mão no peito em sinal de dor.

— Não é isso o que pensa, vovó. Eu conheci uma pessoa que me fez ver-me como sou. Não saí com ninguém, ainda.

Cristina deu um copo de água à avó e pegou suas coisas.

— Agora preciso ir, vó. Meu ônibus irá passar logo. Descanse! Isto não é o fim do mundo.

Saiu.

Sua avó neste dia não conseguiria dormir e em mais nenhum momento de sua vida.

 Quando chegou à faculdade Cristina caminhou por entre os corredores de cabeça erguida. Queria mostrar a todos que não se importava mais com ninguém. Neste momento todos os olhares eram para ela, todos se contorciam para ver quem era aquela garota nova. Não se lembravam mais da menina desastrada que tropeçava em tudo e esbarrava em todos, que usava saias longas e coloridas e que cobria praticamente o rosto com seus óculos de fundo de garrafa. Aquela morrera e Cristina nascera em seu lugar.

Estudou tranqüilamente como se um grande peso fora tirado de suas costas.

Os dias passaram e Cristina já não contava mais quantas brigas tivera com sua pobre avó por causa de seus novos hábitos.

A velha se entristecia cada dia mais em ver a neta tão adorada mudar daquela maneira. Mas isto não atingia Cristina, pois o que mais lhe importava era ver novamente Francisco e mostrar-lhe o quanto estava mudada. E este encontro novamente aconteceu em uma chuvosa noite de sexta-feira.

A faculdade toda estava em polvorosa. Havia acontecido um crime ou um possível assassinato, ainda não sabiam. Um jovem havia caído do quinto andar. Seu corpo ainda jazia no pátio, caído em meio à chuva que caía sem cessar.

As aulas foram suspensas e os alunos foram liberados para ir para casa.

A cena fora chocante demais para Cristina. Ela sentiu uma imensa vontade de se aproximar do corpo do rapaz. Caminhou lentamente até ele abaixou-se para olhá-lo de perto. Estava caído de bruços, com o rosto voltado para baixo, de sua boca saía muito sangue, vermelho, intenso, seus braços estavam virados de uma forma que ela não compreendia como ficaram assim, os olhos perdidos no vazio. Ela chegou a tocar o rosto ainda levemente quente. Todos ao redor se chocaram com a cena mórbida.

“— Descanse em paz!” — Disse ela após fechar os olhos do rapaz.

Após isto, decidiu ir logo para o ponto esperar pelo ônibus da faculdade. Ônibus este que novamente demorou a vir.

A imagem do garoto caído com a cabeça aberta e o sangue espalhado juntando-se às poças de água ainda a perturbava. Sabia quem era o garoto e isto apenas piorava a situação.

Ele era exatamente como ela. Incompreendido. E morrera cruelmente.

Ainda estava perdida em seus pensamentos quando o carro de Francisco parou.

— Talvez precise de carona, minha jovem.

Ela apenas sorriu e entrou no carro.

— Hoje parece um tanto quanto sombria, minha amiga. O que acontece?

— Você deveria saber. Hoje um garoto morreu. Isto nos abala de alguma forma. Você viu?

— Não há como fugir da morte, minha querida Cristina. Não tem jeito. Ela sempre vem.

Cristina parecia não enxergar que ele nunca respondia às suas perguntas. E quando fazia era sempre de uma forma misteriosa.

— Eu… Eu nunca o vejo na escola por mais que o procure. O que acontece?

— Talvez você me veja nas horas que tem de ver. Não precisa se preocupar com isto. E quanto a você? Resolveu seu conflito interno?

— Conflito interno? Não tenho mais. Tudo para mim está ótimo.

Francisco desviou o olhar para ela sem se preocupar com a pista que estava perigosa.

— Sabe Cristina, muitas vezes algumas pessoas precisam ficar tristes para que outras possam sorrir.

Os olhos dele brilharam neste instante.

Cristina olhou através do vidro do carro. A chuva piorava.

— O que quer dizer com isto, Francisco? – Estreitou os olhos como se quisesse ver dentro da alma dele.

— Digo que para tudo que é bom sempre há algo ruim. Se nascer uma pessoa, uma outra tem de morrer para isso, se você sorri agora, uma outra está chorando em algum lugar do mundo. É a ordem das coisas. Como opostos que se atraem. Estamos todos dentro do jogo da vida, ou da morte. Quando nascemos somos premiados com um bilhete dourado que devemos carregar sempre conosco.

— Você é sombrio. Suas respostas e conclusões são sempre muito vagas. O que você estuda?

— Psicologia. — Francisco pareceu pensar um pouco para responder.

— Percebe-se. E o que seria este bilhete dourado?

— Você descobrirá no decorrer de sua vida.

— Eu sei que minha vida mudou muito depois que nos conhecemos e isto faz pouco tempo. Será que também não é algo bom que trará algo ruim?

— Vai depender de você. As mudanças estão sempre ao nosso redor, basta descobri-las. Às vezes teimamos em não enxergar o que está ao nosso lado e nos convencemos em enxergar além, mesmo que jamais nada possa ser visto. Para vermos o futuro, precisamos ver o agora. Você está fazendo isso?

Novamente a dúvida e o pensamento de Cristina voou até o cadáver do garoto da faculdade.

— Não paro de pensar nele.

— No garoto morto! – Francisco afirmou como se lesse pensamentos.

— É tão cruel. A morte em si é tão dura. Não deveria ter levado alguém tão jovem. Sem motivos.

— Não julgue a morte se não conhece o sentido das coisas.  Existem formas diferentes de se morrer. Quando morremos por alguma causa natural, quando somos mortos por algo ou quando morremos por nossa própria vontade. Talvez aquele menino quisesse morrer. Talvez o suicídio fosse a decisão a ser tomada.

— Suicídio? Acredita mesmo nisso? O que sabe?

— Ora, não estou afirmando. Apenas me apóio naquilo que sei. O ambiente da morte me faz crer que possa ter sido isso. Na pior das hipóteses ele foi morto. Vendo pelo lado da personalidade do garoto, muito fraca por sinal, nos resta crer que é suicídio. Apure os fatos, ele quis morrer.

— Não sei. Ninguém sabe. Você fala com propriedade da morte. O que sabe sobre ela?

— O que sei? O mesmo que você! Ela existe. Está próxima da gente como alguém que espera para pegar nossos bilhetes quando chega a hora de embarcar em um brinquedo perigoso, desconhecido.

Cristina não percebeu, mas o carro parou perto de sua casa.

— Quando nos veremos novamente? — Ela perguntou.

— Você saberá.

Francisco partiu da mesma forma que aparecera em sua vida. Inesperadamente.

 Mal colocara os pés no quintal de casa e deu de encontro com sua avó. Segurava uma vela na mão e calçava seus velhos chinelos de pano.

Cristina não parara  para observara como ela havia envelhecido. As rugas acentuadas, o sorriso amarelo, a pele acinzentada. Ela ainda a observava com a ternura dos velhos tempos, com  a mesma lealdade de mãe e avó, de animal que lambe sua cria.

— Chegou agora, minha filha?

—      Sim, vovó, eu vim de carona. Não precisa começar seus sermões.

Entrou puxando a avó pelo braço.

Ao adentrar, encontrou a casa cheia de flores e um altar no meio da sala.       

— Vó, para quê tudo isso?

—      Para você, minha filha. Eu fiz para você! Não gostou?

—      Bem, eu não sei por que… Não precisava.

—      Você sabe que santo que é este ai, Cristina?

  A jovem virou lentamente os olhos para o santo, não havia reparado nele.

—      É São Francisco. Não o reconhece? — A avó inquiriu.

Cristina a olhou desconfiada.

— Por que São Francisco, vó?

— Por que, minha querida? Responda-me você!

— Vovó… — Cristina soltou um grito de espanto. — O que sabe sobre Francisco e eu?

— O que sei? Eu não sei. O que há com você?

  A garota ficou furiosa. Um sentimento inexplicável tomou conta dela. Jogou seus livros sobre o santo no altar, derrubando as flores no chão. Empurrou sua avó para longe e correu para o quarto.

 Trancou-se e chorou. Apenas o olhar de Francisco vinha em sua mente. Seu corpo já doía. Pensar nele era como mergulhar num paraíso em meio ao caos em que vivia naquele momento.

 — Abra a porta, Cristina! Vamos conversar. Acho que deve falar a respeito de tudo isso. Imploro pela alma de sua mãe, vamos!

Minutos depois ela decidiu deixar a avó entrar.As duas se abraçaram.

— Sente aqui, minha neta. Quando desejei seu mal? Diga-me!

— Nunca, vovó! Mas também nunca quis o meu bem.

— Não diga isso!

— Tudo o que eu queria era ter mamãe aqui, mas nunca a tive, vovó.

A velha deixou uma lágrima cair lentamente pela pele enrugada.

— Eu também a quero aqui, querida, mas a tiraram de mim. A tiraram.

— Mas mamãe não morreu acidentalmente, vovó?

— Sabe, querida. Muitas coisas deveriam ficar enterradas, mas nem sempre é assim. Sua mãe morreu de uma forma trágica. Mas não quis morrer, ela foi levada a isso.

  Cristina parara de soluçar.

  — Há muito tempo atrás…

 “Quando sua mãe tinha por volta dos vinte e cinco anos de idade, encontrou um rapaz. Você já tinha dois anos de idade. Ela havia sofrido muito com o último namorado que a abandonara grávida e nunca voltara para conhecer a filha. Ela um dia me contou que se encantara com um rapaz. Nunca me dava detalhes dele, fugia de mim para ficar com ele, até mesmo deixou você de lado. Uma paixão obsessiva. Esse homem foi a ruína de sua mãe. Demorei a descobrir tudo. Mas após uma briga, descobri que o rapaz, na verdade, era o seu pai. Ele voltara depois de tempos e reconquistara sua mãe que era muito inocente.

 Nunca pude conhecer o maldito, mas sabia que ele era o culpado de tudo. Minha vida desmoronou a partir daí. Tudo mudou. Cada dia ela piorava, quase não voltava para casa por causa dele. Cheguei a dizer a ela tudo o que achava dele, mas nunca me deu ouvidos. Não tive o que fazer. O amor dos dois era mais forte do que qualquer coisa. O rapaz conseguiu convencê-la de que deveriam fugir juntos. Ela chegou em casa um dia disposta a arrumar as coisas e partir levando você. Tivemos uma discussão feia e ela me disse que partiria mesmo sem você e que somente a morte a faria desistir. Saiu de casa para nunca mais. Saí com você nos braços e a vi entrar naquele carro preto. Senti um aperto no peito. Pude ver pouco daquele homem que causara toda aquela  desventura em nossas vidas. Os dois partiram e longe dali, sofreram um grave acidente. Tive a noticia pouco tempo depois, não sobreviveram. Os policiais chegaram em casa e me entregaram os pertences de sua mãe, uma mala com as poucas roupas que levara. Perguntei o que havia acontecido, como se já não soubesse. Não derramei uma lágrima. Contive-me. Perguntei  sobre ela e o rapaz. O guarda respondeu que ela estava sozinha. Não havia mais ninguém no carro. Ela estava ao volante. Não encontraram mais ninguém. Não compreendi no momento, pois eu a vi sair com ele. Os dias se passaram, fiz o enterro e realmente não apareceu mais nenhum corpo. Tempos depois decidi procurar por noticias do rapaz, investiguei a cidade inteira e com muito esforço descobri alguma coisa sobre ele. Fui até a casa de sua família e aos poucos tentei tirar algo deles. Por fim, disseram-me que ele havia morrido, mas o que me surpreendeu foi que disseram que a data da morte não coincidia com a morte de sua mãe. Mostraram-me as fotos, comprovei que era ele. Seu pai havia morrido, mas havia voltado para levar consigo a sua mãe. Imagina como vivo até hoje?

 — Vovó, só me responda uma coisa, como se chamava meu pai? — Cristina finalmente perguntou, com os olhos cheios de lágrimas.

A velha meneou a cabeça e por fim respondeu:

— Francisco, como o santo.

 Cristina soltou um grito e saiu de sua casa, correndo pela estrada.

 Em certo ponto viu a luz do carro. Era ele. Francisco viera buscá-la, só faltava ela. Entrou pela última vez naquele carro ao lado dele. Sua avó a observou de longe, com as mãos enrugadas balançando no espaço.

 A neta foi encontrada pouco tempo depois, caída ao lado do túmulo do pai, no cemitério da cidade. Sua avó chorou a morte da filha, da neta e do genro, que nem ao menos chegou a conhecer.

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Sobre Lina Stefanie

Formada em Letras com licenciatura em Inglês, Professora, nascida em São Lourenço da Serra, São paulo, Lina Stefanie alimenta desde a tenra idade o amor pelo lado sobrenatural da vida. Amante das estórias de terror e suspense, tem como ídolos da literatura fantástica mestres como Stephen King, Anne Rice e Lygia Fagundes Telles. Publicou em três Antologias de Fantasia: Caminhos do Medo (Editora Andross), Amores Impossíveis (Editora Andross) e Vírus Z (Editora Navras), publicou seu primeiro Romance no ano de 2016 através do Clube de Autores.
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