Presente para João

Lina Stefanie

 

Dona Tereza preparou a mesa do café da manhã com todo o carinho, assim como fazia todos os dias quando seu filho Edson estava em casa.

Edson tinha vinte e cinco anos de idade e há três anos havia conseguido um bom emprego como motorista de caminhão.

Os poucos momentos que ficavam juntos eram preciosos para Dona Tereza. Após o falecimento do marido há dois anos, e com o casamento da filha mais velha, ela sentia-se muito só. O filho mais novo viajava muito, passando até quinze dias fora, e isto a preocupava muito, pois o risco de dirigir pelas rodovias do Brasil sempre é elevado.

Nesta última folga, Edson conseguira uns dias a mais para ficar com a mãe, desejava também ir até a casa da irmã para conhecer o sobrinho que nascera quando ele estava na estrada. Na última cidade que passara, Edson parou em uma cidadezinha do Paraná para comprar uma lembrancinha para o sobrinho recém nascido. Não sabia bem o que comprar, mas após caminhar um pouco, simpatizou com um coelho de pelúcia que ao ser apertado na barriga dizia a frase: — Venha brincar!

Nem pensou duas vezes. Comprou o brinquedo.

 

Dona Tereza sentia-se um pouco mais feliz com o nascimento do neto. Nos últimos tempos a vida lhe dera angústias demais.

— É tão bom quando posso ver você aqui perto de mim. Tomar café junto… Sinto-me sozinha.

—Mas este é meu trabalho, mamãe. Precisamos do dinheiro.

— Sei disso, filho. Você parece tão cansado.

— É. Não está fácil dirigir até doze horas por dia. Às vezes cansa. Mas não se preocupe, mãe. Estou bem de saúde.

— Meu medo não é este, filho. Cada vez que assisto ao noticiário, meu coração fica apertado. Se passar um acidente de caminhão, eu falto perder os sentidos. A rodovia é muito perigosa.

— Se pensar assim, mãe, ninguém trabalha neste mundo. Viver é perigoso. Não gosto que pense deste modo.

A mulher molhou um pedaço de pão no café e levou-o à boca.

— Não falaremos mais disto. Você irá visitar sua irmã hoje?

— Se Deus quiser! Comprei um presentinho para o Joãozinho.

— Que bom! E o que é?

— Um coelhinho de pelúcia que fala.

— Nossa! Mas para um bebê recém nascido? Vai demorar um pouco até que ele possa usar.

A mulher sorriu.

— Ora, mas ele irá crescer!

— Se Deus quiser!

— E Ele quer, mamãe! Não critique meu presente. Não tenho jeito com crianças.

— Isto é verdade, e espero que um dia venha a ter. Por falar nisso, está na hora de arranjar uma namorada para começar a pensar no futuro.

— Vou para casa da mana. Almoçarei por lá. E pare com essa conversa de futuro. O futuro a Deus pertence. — Desconversou Edson, que deu um beijo carinhoso no rosto da mãe e saiu.

Não tinha porque reclamar da vida que levava. Sofrera com a morte do pai, mas sabia que toda perda pode ser recompensada.

Pegou o carro e foi até a casa da irmã. Havia movimentação no local. Entrou e sentiu o clima agradável do ambiente. Cumprimentou os presentes e foi até o quarto da anfitriã. O coração acelerou como se ele fosse o pai que iria ver o filho pela primeira vez.

Sua irmã estava sentada, escorada na cabeceira da cama, e Joãozinho estava deitado em seu colo mamando. Cumprimentou-a com um beijo silencioso. Sentou-se ao lado dela e observou o bebê. João era lindo. Gordinho e com as bochechas rosadas. Lindo!

Percebeu que sua irmã estava cansada. Decidiu deixar o presente no berço e deixá-los descansar. Foi um encontro rápido, porém, significativo. Seu sobrinho era encantador! Sentiu-se muito feliz em conhecê-lo. Ficou mais um pouco no local e a noitinha voltou para casa. Dormiu tranqüilo nesta noite.

 

Após uma semana teve de voltar ao trabalho. Logo de manhã ligou para a empresa e confirmou o horário que teria de partir. Arrumou suas coisas e foi tomar o café da manhã.

O cheiro dos ovos mexidos com queijo inundava o ambiente. Sua mãe não cansava de lhe agradar. Sentou à mesa e agradeceu mais uma vez a Deus por tudo que havia conquistado até aquele momento.

— Ligou para a firma, filho?

— Sim, mãe. Sairei daqui para São Paulo às duas horas da tarde. Farei apenas uma entrega por lá e acho que já volto.

— Que bom! Assim poderá ficar um pouco mais com seu sobrinho.

— Com certeza, mãe. Nossa! Esses ovos estão ótimos! A senhora sempre me paparica.

— Claro. Você é meu caçula. Até que case, eu tenho de cuidar muito bem de você.

Edson balançou a cabeça negativamente e sorriu.

— Bem, mãe, eu já vou indo.

Dona Tereza sentiu uma vontade imensa de abraçar o filho e dizer o quanto o amava.

— Vá com Deus, meu filho! Eu amo muito você e sinto orgulho em tê-lo como filho. — Disse apertando o filho entre os braços.

Edson a beijou e depois buscou sua bolsa. Assim que pôs os pés na soleira, sentiu vontade de ligar para a irmã a fim de avisar de sua viagem.

— Mana? — Disse ele ao fone.

— Sim. Edson?

— Estou ligando para avisar que estou pegando estrada.

— Ah, sim, mas já?

— Sim. Já se passou uma semana.

Edson ouviu o choro lamurioso do sobrinho do outro lado da linha.

— Bem, vou deixar você alimentar este garotão. Falamos-nos assim que eu voltar.

— Sim. Vai para São Paulo?

— Isso mesmo. Por quê?

— Ah, então traga um presente para o João de lá.

— Sim. O que devo trazer?

— Traga um cobertor bem bonito e quente. O frio do sul este ano vai ser cruel. Se não for incômodo, claro.

— Que é isso, mana? Claro que trarei! Agora de deixe-me ir! Fiquem com Deus!

— E você, vá com Ele.

Edson desligou o fone e deu um último beijo em sua mãe.

Pegou a estrada rumo a São Paulo. Ao chegar, cumpriu com suas tarefas e foi procurar o cobertor que a irmã pedira. Andou pelas lojas de roupas infantis, encantado com tudo que via. Quando já estava cansado de procurar, avistou em uma vitrine um cobertor amarelo, estampado com ursos bebê e sua ponta era bordada com linha dourada. Um encanto! Sabia que aquele era o presente perfeito para João. Já imaginava o sobrinho todo enrolado nele.

No dia seguinte logo de manhã já estava na estrada novamente. Fez questão de deixar o embrulho sobre o banco ao lado do seu. Dirigiu até a altura do quilometro trezentos da rodovia Régis Bittencourt. Pegou uma curva acentuada e neste momento em segundos, outro caminhão o fechou fazendo com que Edson manobrasse sua pesada carreta para a outra faixa da rodovia. Porém, esta manobra não deu certo, quando deu por si, um veículo pequeno estava em sua frente e, quando tentou desviar para não passar por cima dele, foi obrigado a jogar sua carreta para o sentido contrário da pista. O caminhão desgovernado e em alta velocidade, arrancou com violência o Guard Rail e capotou. Tudo foi muito rápido e violento. Em segundos, o caminhão de mais de trinta toneladas estava de cabeça para baixo. O acidente foi de enorme proporção.

Pouco tempo depois, o resgate e a polícia estavam no local. Um policial rodoviário correu até o caminhão. O embrulho com o cobertor foi o primeiro objeto que viu. O papel dourado do presente estava respingado com o sangue do rapaz. Edson estava desacordado e sangrava muito pela boca e nariz. O policial não mexeu no corpo, mas cuidou de apressar os paramédicos.

Com muito esforço conseguiram tirá-lo de dentro do caminhão. O médico deitou-o no asfalto. Após os primeiros exames, sua morte foi constatada.

— Ele já não está mais aqui. — Afirmou um dos paramédicos.

 

* * *

 

Os momentos que antecederam a minha morte foram de muito nervosismo. Eu fiz o que pude para salvar a vida dos passageiros que estavam naquele carro à minha frente. Tudo foi rápido demais. Agi com rapidez. Apenas agi. Não tive tempo de raciocinar. Quando meu caminhão atravessou o canteiro central, eu pensei: — Vou morrer! Meu Deus! — Foram as últimas palavras que balbuciei antes que o gigante de aço girasse na pista ficando com os eixos voltados para o céu. Foi como se o caminhão e eu fôssemos um só.

A morte veio como um golpe fulminante. Ainda tive dois segundos para me lembrar de mamãe e de João, que ficaram no sul.

O embrulho com o cobertor voou por sobre minha cabeça, dentro da cabine. Busquei o ar e não encontrei, a dor era constante e eu ainda ouvia os pneus girando nos eixos. Rapidamente me vi do lado de fora do caminhão. Mas como fui parar ali? Não me lembrava. Olhei para os lados e vi carros parados nos dois sentidos da rodovia. Havia pessoas por todos os lados que eu olhasse. Eu havia causado tudo aquilo. Logo à frente visualizei um grupo de policiais agachados em círculo no asfalto. O que estariam fazendo? Não andei, me arrastei até o grupo e, com esforço, pus-me de pé. Meu corpo estava pesado, meus joelhos e pés pareciam estar grudados ao solo. Olhei aqueles policiais do alto. Entre eles havia um corpo deitado no chão. Quando saíram da frente pude ver de quem se tratava. O espanto fez-me cair de costas. Era eu quem estava ali deitado.

Morto?

Os policiais saíram de perto do meu corpo ensangüentado. Colocaram em uma maca e logo depois desapareci dentro da ambulância.

O mundo parou, as pessoas desapareceram, mas eu estava ali, parado no asfalto. Minha mãe chorava muito e por todo lado eu pude ver dor e sofrimento. Mas eu não saía dali.

 

Outro caminhoneiro da empresa em que trabalhei fez um altar em minha homenagem. Senti-me mais calmo após isso. Não percebi o tempo passar, mas sei que um dia pude novamente sentir a felicidade.

 

Uma jovem passava todos os dias em frente ao meu altar, persignando-se. Ela falava comigo em pensamento, mesmo sem saber. Eu entendi que já não estava mais neste mundo, mas sentia-me vivo por ela. E aqueles dias repetiram-se sem que eu cansasse de vê-la passar com seu jeito meigo e respeitoso. Eu me encantei por ela e não poderia deixar que nada de mal lhe acontecesse nunca. E não deixei. Em uma manhã eu a salvei da morte, mesmo sabendo que se ela partisse, viria até mim. Mas não era isso que eu queria. Por este motivo, eu fiz o caminhão que iria matá-la, desviar o caminho. Sacrificou-se outra vida, mas ela permaneceu viva e continuará assim até quando tiver de ser.

Tive de abandonar este mundo para compreender que deveria ter feito mais coisas, que deveria ter planejado menos, que deveria ter vivido a minha vida. Interrompi meu destino e, junto com ele, destruí a vida de muitas pessoas mesmo que indiretamente.

Após sentir um cansaço mental muito grande, eu acordei daquele sonho, que em tudo não foi mal. Minha mãe me chamava, acordando-me do sonho.

— Acorda, Joãozinho! Hoje é seu aniversário, meu querido! Venha para o colo da mamãe!

Arrastei meu coelhinho pelo chão e caminhei até vovó.

— Meu Deus! Cada dia João se parece mais com Edson! — “Disse ela com lágrimas nos olhos.”

 

 

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