A Experiência

A experiência

Lina Stefanie

Após longos anos confinada nesta biblioteca, eu pude perceber o quanto a vida é mágica e vai muito além do que simples acontecimentos diários.

A rotina diária de doze horas, à qual fui submetida. Deram-me uma bagagem vasta para arrastar pelos tortuosos caminhos desta vida. Chegava a ler dois livros por dia. Isto acontecia sempre quando o movimento estava tranqüilo.

Trabalhei aqui durante sete longos anos. Talvez trabalhasse muito mais, se não fosse por algo que me aconteceu.

Eu tinha vinte e seis anos completos. Já morava sozinha, o que muito me orgulhava. Conseguia me manter, ainda por cima, para pagar os estudos, que eu pensava em começar um dia. O meu trabalho era bom, nunca tive o que reclamar.

Conheci muitas pessoas. Gostava de analisar o comportamento delas. Aprende-se muito observando o modo de ser dos demais. Não me classifico como intrometida, bisbilhoteira, apenas sou uma pessoa curiosa.

Certa vez comecei a perceber que um homem passou a freqüentar a biblioteca constantemente. Seus dias de visita geralmente eram as sextas-feiras. Ele não era um tipo comum. Seus gestos, suas roupas, tudo era sempre muito igual. Suas atitudes, também, todas incansavelmente iguais.

Chegava pontualmente no mesmo horário, às 19:49, faltando exatamente onze minutos para fecharmos a biblioteca. Passei a prestar mais atenção nele. Cada gesto, cada esgar, cada suspiro que soltava, tudo sempre se repetia. Lembro que eu me escondia por trás de um livro para poder vigiá-lo.

Era um homem de aproximadamente quarenta anos, aparentava apenas, mas ainda não tinha cabelos grisalhos, eram castanho-escuros, quase negros, sua pele era branca, pálida, seus olhos eram castanhos, mas pareciam mudar de cor sob as lâmpadas florescentes. Pegava sempre o mesmo livro, “A História sem Fim”, abria-o, folheava-o e em seguida o guardava no mesmo lugar. Cheguei algumas vezes a mudar o livro de lugar para ver a sua reação, mas o homem sempre ia exatamente ao lugar onde o maldito livro se encontrava escondido.

Ele sempre me olhava após colocar o livro de volta na estante. S seu olhar era sempre direto como uma flecha, era frio, quase congelante, mas me prendia por longos segundos e, quando eu prometia a mim mesma que não iria olhá-lo, uma força quase sobrenatural me obrigava a fazê-lo.

Certo dia cansei-me de tudo isso e enchendo-me de coragem, fui direto para a estante preferida dele. Prostrei-me lá, fingindo que estava tirando pó dos livros. Olhava insistentemente no relógio e como de costume, às 19 horas e 49 minutos, lá estava ele de pé na soleira da porta principal. Senti algo estranho invadindo meu corpo, uma sensação terrível que piorava ainda mais a cada passo que ele dava em minha direção.

No silêncio total do ambiente, ouvia-se apenas o barulho dos seus sapatos em contato com o piso brilhante de mármore. Quando ele finalmente se pôs ao meu lado, eu pensei que iria desfalecer imediatamente, tamanho foi o mal estar que se apoderou de mim naquele momento. Fingiu não ter me notado e esticou uma das mãos para apanhar o livro. Não consegui me conter, pois a vontade que eu tinha de olhá-lo de perto, era muito forte.

Nenhum gesto diferente. Cheguei até mesmo a derrubar o espanador no chão e ele ao menos fez menção de pegá-lo. Respirei fundo e decidi perguntar:

— Posso ajudá-lo, senhor? Nenhuma resposta. — Procura por algum livro em especial? — insisti.

Ele fechou o livro e esticou o longo braço para guardá-lo de volta na estante. Desta vez foi obrigado a me olhar, pois eu havia me colocado em seu caminho de propósito.

Levantei meu rosto para poder olhá-lo diretamente nos frios olhos. Jamais eu havia tremido tanto.

— Deseja efetuar um cadastro, para que possa emprestar ou comprar algum livro? — tentei novamente.

— Não. Muito obrigado você já me ajudou bastante. — Ele respondeu por fim.

Percebi o toque firme de suas mãos nos meus ombros, e logo após esse contato já não pude ver mais nada. O chão desapareceu sob meus pés, minha mente escureceu por completo. Eu não via nada, não sentia nada, mas de algum modo eu sentia que ainda estava viva. Foi exatamente como se as luzes tivessem se apagado, mas eu ainda continuava no mesmo lugar, lutando para voltar a ver.

Sentia que eu flutuava, ou era carregada levemente por alguma coisa. A sensação não era de ruim, ao contrário, era prazerosa. A velocidade dos movimentos pareciam aumentar constantemente e isso passou a me causar um incômodo suportável.

Algum tempo depois, senti que o mundo parou de girar ao meu redor, mas mesmo assim não tive de volta minha visão, e como é ruim ficar sem ela! Meus membros também não obedeciam aos meus comandos cerebrais. Será que tive um desmaio, um derrame, uma parada cardíaca?

Ou será que eu havia morrido? Não podia ser! Mas como morrer assim? Não tinha explicação para isso.

Comecei a notar que pessoas me tocavam e me colocavam deitada sobre um lugar frio, esticaram meus dois braços e os puseram ao lado do meu corpo imobilizando-os. Tentei me sacudir, chorar, gritar, mas não consegui. Era como se meu corpo estivesse morto e apenas o meu espírito vivesse, mas que por algum motivo ainda estivesse preso dentro do meu corpo. Era apavorante e a sensação de incapacidade era o que mais me afligia.

Consegui ouvir vozes e notei que uma delas me era familiar, o homem da biblioteca. Não consegui compreender nada da conversa, suas vozes chegavam até meus ouvidos como ecos, e pareciam estar falando em uma língua estranha, incompreensível. Em seguida fui atingida por uma dor alucinante no braço. Introduziram uma agulha com violência em minha veia e provavelmente injetariam alguma substância venenosa para me matar, definitivamente.

Eu havia lido muitas histórias sobre alienígenas, discos voadores, abdução, enfim, histórias extraordinárias sobre experiências incomuns. Cheguei a imaginar que estava passando por uma delas.

Não demorou para eu sentir que realmente algo estava sendo injetado em minha corrente sanguínea. Mas, ao contrário do que eu imaginava, não me senti mal. Notei que algo muito bom acontecia. Senti-me mais forte, mais disposta. Minha visão voltou aos poucos e notei que nada passava despercebido por ela. Minha audição também, eu havia melhorado espantosamente, chegava até mesmo a ouvir os ruídos ínfimos. Tentei me levantar, mas meu braço estava preso. Livrei-o com um rápido puxão.

A sala estava vazia. O lugar era úmido e escuro. Não havia janelas. A substância que injetaram em mim, era negra e pegajosa, pois ainda escorria em meu braço.

De repente ouvi vozes e passos. Alguém empurrou a porta. Era uma mulher. Elegantemente vestida num vestido de seda vermelha como o sangue, seus cabelos louros e ondulados lhe caíam em cascata sobre os ombros e colo. Ela era perfeita. Tive vontade de perguntar algo a respeito do que acontecera, mas as palavras não saíam.

— Tome, querida, vista isto! — Disse ela, logo que me entregou um embrulho.

Abri sem exitar. Era um vestido negro, lindo. Jamais em toda a minha vida eu possuí algo tão encantador. Senti a maciez do tecido encostando-o em meu rosto. Em poucas palavras, ela pediu que eu me vestisse. Concordei sem reclamar. Quando estava pronta, ela conduziu-me até em outro lugar. Paramos em frente a uma enorme porta de madeira toda trabalhada em formas de animais.

A porta se abriu e vi que era um salão imenso cheio de pessoas. Todas estavam muito bem vestidas e parecia haver uma festa. Fui conduzida até o centro do salão onde havia dois tronos e, em um deles, um homem estava sentado.

Era ele! Sim, o homem da biblioteca de novo. Desta vez estava muito bem vestido em um smoking. Tinha os cabelos penteados para trás, o que realçava ainda mais o seu rosto.

Quando eu me aproximei, ele me estendeu uma das mãos e sorriu largamente.

— Venha, minha princesa! Este é seu baile e este o seu castelo. — Abriu os dois braços e olhou em volta.

As palavras pareciam estar presas dentro de mim, não conseguia argumentar e nem questionar nada. Era como se meu corpo estivesse hipnotizado, e não obedecesse.

Sim, claro! Poderia ser hipnose. Também havia lido sobre isso.

— Em breve você será minha rainha! — Continuou a dizer.

Dito isto, ele me pegou pela mão e me abraçou. Iniciou uma valsa comigo, e eu sabia dançar. Rodopiamos e bailamos por toda extensão daquele lindo salão iluminado. As pessoas todas ao redor, nos olhando. Comecei a gostar de tudo aquilo. Todos pareciam estar ali por minha causa e para me ver. E ele, Tobias, este era seu nome, dizia palavras doces no meu ouvido e me abraçava apertado.

— Angeline, você será minha rainha!

Apertou-me ainda mais e passou os lábios levemente em meu pescoço, pude sentir a maciez de sua língua em minha pele, o que me causou arrepios.

Logo após o momento de prazer, senti que ele perfurou meu pescoço com os dentes e fui atingida por uma dor alucinante, senti que o sangue escorria sem parar encharcando meu vestido. A dor foi tão insuportável que pensei que fosse desmaiar. E realmente desmaiei.

Quando eu voltei do desmaio, assustei-me ao notar que ainda estava de pé na biblioteca e aquele homem ainda estava com a mão sobre meu ombro dizendo a mesma frase de outrora. Fiquei no mesmo lugar enquanto ele despediu-se e foi embora.

— Ei, qual o seu nome? — Gritei por fim.

— Tobias! — Ele respondeu sorrindo.

Passei a esperar o seu retorno desde esse dia.

fim

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