Apenas uma Lenda?

Na infância, muitas vezes nossa mente nos leva a imaginar e a inventar coisas que jamais um adulto poderia fazer com tanta grandeza.

Eu cresci em uma daquelas fazendas bem tradicionais no Rio Grande do Sul. Meus pais sempre trabalharam com lavoura e na criação de animais. Eu adorava acordar cedo e ir ajudar minha mãe na ordenha das vacas e na coleta dos ovos, que eram muitos. Recordo-me que quando a quantidade não era a esperada, ela costumava resmungar dizendo que provavelmente algum saci teria passado por ali e furtado alguns para o café. Depois, olhava-me com ternura e sorria com seus poucos dentes amarelados.

Eu sorria por fora, mas, por dentro, imaginava o que seria o tal saci de que tanto ela se queixava. Aprendi que as lendas como as dos sacis, dos boitatás, Iara e toda a sorte de seres mitológicos, sempre rondou o Sul e demais estados do Brasil. Mas, para mim, um garoto simples de sete anos de idade, isto tudo ainda era algo amedrontador. Vivia como se fosse perseguido por estes seres desconhecidos, muitas vezes terríveis, horrendos e que provavelmente quando aparecessem iriam fazer miséria com a minha carcaça.

Minha avó muitas vezes me sentava em seu colo e me acalentava dizendo que eles realmente existiam, mas que eu não tinha motivo de temer, pois eles não queriam fazer mal às pessoas. Queriam apenas proteger os animais e as florestas.

— Deixe estar, moleque. Você vai crescer e ver que tudo isso passará. Já vivi muito, vi muitos sacis e outros seres. No entanto, nunca tive problemas com eles. A não ser… — Minha avó parou um instante e fitou o chão com seus olhos esbranquiçados pela catarata.

— A não ser… — Quis eu completar.

— Bem, isto é história de velha e você, um garoto tão bonito e esperto não irá se interessar.

— Sim, vovó. Eu quero saber. Apenas por saber. Curiosidade. Por favor.

— Bem, já que insiste, contarei um pouco do que me lembro.

Sentei-me com as pernas cruzadas e acomodei meu rosto sobre os cotovelos. A curiosidade me queimava por dentro.

— Bem… — Ela cuspiu um pedaço de fumo que mascava e continuou. — Eu também era jovem quando ouvi minha mãe falar sobre lobisomens…

Quando ouvi aquela palavra gelei completamente.

— …mas a história aconteceu perto de onde morávamos. Metade da vila partira por medo do tal lobisomem. Eu ainda não compreendia o que era tudo aquilo, mas sabia o que era sentir medo. Vi o estrago que ele fizera na casa de um vizinho nosso. O homem acabara de se tornar pai. E aconteceu exatamente no sétimo dia da criança nascida, quando havia uma esplêndida lua cheia no céu. A lua estava enorme e brilhante, o vento estava levemente úmido, as folhas não balançavam e nem mesmo ouvia-se ruído de coisa alguma.

De repente ouviram-se gritos estridentes de uma mulher. Sua bisavó me agarrou e me apertou em seus braços. Eu pude sentir suas lágrimas caindo sobre minha fronte, enquanto me apertava cada vez mais. Meu pai pegou a velha cartucheira e saiu para o quintal. Ficamos quietinhos, esperando.

A vela iluminava parte do rosto de minha mãe e eu pude ver o medo estampado nele. Papai entrou como um raio em casa arrastando a mulher pelo braço. Acomodou ela no velho banquinho e gritou para que mamãe buscasse um copo com água. Eu não saí do lugar, mas espiei um pouco aquela mulher e a cena que vi ficou gravada em minha mente até hoje. Ela estava vestida com uma camisola branca que chegava aos pés. Seus cabelos estavam desgrenhados e por toda sua roupa havia sangue, muito sangue. E aquele sangue exalava um odor como se ali estivesse por muito tempo. Meu estômago se revirou em um misto de pavor e nojo. Ela chorava copiosamente e suas lágrimas se misturavam às manchas em seu rosto.

Minha mãe voltou logo com o copo de água e ofereceu-o à mulher. Ela o segurou com firmeza, pois tremia demais. Seus olhos estavam fixos em algum ponto qualquer.

— Vamos, mulher! Diga. O que aconteceu? Onde está seu filho e marido? Por que partiu deixando-os para trás? — Meu pai quase chegava a gritar e eu nunca cheguei a vê-lo tão nervoso assim. Mas a mulher não conseguia responder. Apenas tremia e tremia, e isso só aumentava o meu pavor.

Tempos depois ela conseguiu falar. Contou que estavam dormindo quando ouviu passos ao redor da casa. Chamou o marido para que visse do que se tratava, mas ele parecia estar morto de tanto que dormia. Ela ficou deitada, ouvindo o barulho dos cães que começaram a brigar entre si. Por causa do barulho intenso seu bebê acordou chorando. Ela não teve escolha senão levantar-se e apanhar a criança. O marido finalmente acordou assustado e confuso. Algo grotesco sacudia a velha porta de madeira e a arranhava de cima a baixo. Em seguida a porta foi jogada ao chão e o que viram foi um ser diabólico de uns dois metros de altura, com um focinho cheio de presas salivantes. Seus olhos eram vermelhos e brilhantes, parecia um lobo de pé sobre as patas traseiras, mas não poderia ser, pois no lugar dos pêlos parecia que a pele estava virada ao avesso e havia sangue e pêlos cobrindo o corpo horrendo. O monstro partiu para cima da sua família com uma fúria quase indescritível, jogou o marido de lado e arrancou a criança do colo da mãe. Não deu tempo para que fizessem algo em defesa daquele ser inofensivo. Olhou para a criança ainda salivando, enfiou os dedos no seu peito arrancando-lhe o coração. A mãe não resistiu àquela cena e desmaiou. O pai permaneceu imóvel, como se não acreditasse em que seus olhos acabavam de lhe mostrar. O maldito, após devorar o coração da criança sem piedade, jogou o pequeno corpo no chão e partiu noite à dentro, sendo engolido pelas trevas.

Isso foi o que ela conseguiu nos contar depois. Seu marido, após sair do estado de choque, saiu atrás do monstro com um facão, repetindo que iria vingar a morte do filho. Meu pai foi até a casa daquela família para ver o que restara da batalha. O corpo do bebê ainda jazia na cozinha, três cachorros estavam mortos no quintal e a porta da cozinha estava totalmente dilacerada como se alguém a rasgasse por inteiro com um metal perfurante. Uma cena chocante.

Eu fiquei paralisada com tudo aquilo por muito tempo. Nossa vizinha enlouqueceu tempos depois, pois o marido dela também não retornou. Ela não conseguiu superar as perdas e tirou a própria vida. Nós também nos mudamos logo daquele lugar. A história correu pelas vizinhanças e muitos temiam os fatos.

Minha vó pausou sua história por um instante. Eu, porém, já não estava mais ali sentado. Não sentia meu corpo, tamanho era o pavor que tomara conta de mim. Minhas pernas sacolejavam e eu suava frio dos pés à cabeça.

— E foi isso, meu neto. Você quis que eu contasse. Me desculpe se o assustei, não queria isso. Mas você pediu. Porém, esqueça isso agora. Essa é uma história antiga e hoje em dia não existem mais lobisomens.

Eu olhei o campo verdejante por onde os cavalos corriam livres. Ao redor estávamos cercados por uma floresta onde apenas meu pai adentrava quando ia caçar com os meus tios. Não queria ao menos levantar dali.

— Vovó… — Balbuciei assim que consegui respirar.

— Diga! — Disse ela olhando-me com ternura.

— Essa história aconteceu realmente?

Ela continuou a me fitar.

— Aconteceu? ? Eu insisti.

— Bem, eu não devo mentir para você. Infelizmente aconteceu. É uma história verdadeira que muitas pessoas fazem questão de não lembrar. Por aqui ninguém sabe disso. Agora apenas você. Lobisomens deve ser apenas uma lenda, algo que a modernidade não nos permite acreditar. Mas o que devemos saber é que este mundo é vasto, existem muitas coisas por aí. Boas ou ruins, mas existem. E nós devemos respeitá-las para que nos respeitem.

— Eu devo ter medo, vovó?

— Sei não, meu netinho. Mas nunca duvide. Apenas isso. Respeite.

— Há como matar um lobisomem?

— Talvez sim. Ele é vivo e sangra, então deve morrer também.

— E como surge um ser desses?

— Bem, dizem que quando uma mulher que tem sete filhos homens, o sétimo filho que nascer em noite de lua cheia, transforma-se em um a partir dos dezessete anos de idade.

— E como impedir isso?

— Matando a criatura quando criança ainda. A única forma que sei. Mas como poucos têm coragem de fazê-lo, nos resta deixar que as coisas aconteçam. ? Vovó sorriu enigmática.

Neste momento mamãe chegou tirando minha concentração.

— O que estão fazendo sentados aí há tanto tempo? Vamos almoçar?

— Já vamos, mamãe. Vovó e eu estávamos…

Vovó lançou-me um olhar inquietante. Recebi o recado e calei-me.

— Não estava contando suas histórias absurdas para o menino, não é, mamãe?

— Imagina minha filha. Estávamos apenas jogando conversa fora. — Vovó esboçou novamente seu riso mais cínico e piscou para mim.

Mamãe voltou para a cozinha e fomos almoçar logo em seguida.

A história vivida por vovó nunca saiu da minha cabeça. Vivi atormentado por um bom tempo, imaginando que chegaria o dia em que teria de enfrentar um lobisomem, ou não. O medo era meu fiel companheiro, e esse medo me tornou capaz de muitas coisas, me fez respeitar a vida e a tomar cuidado.

Tempos depois, uma moradora vizinha à nossa fazenda, deu à luz e fiquei sabendo que era o seu sétimo filho homem e que nascera em plena noite de lua cheia. Todos estavam contentes com a chegada da criança, menos eu, que passei a não mais dormir por conta do que sabia.

Vovó havia falecido dias antes de esta criança nascer. Mas ela sempre repetia que eu saberia o que fazer na hora certa. Parecia que eu a via sorrir para mim com a gengiva sem dentes e repetir que eu sempre saberia.

E foi assim que fiz. Saí escondido numa noite qualquer e tomei a decisão. Acabei com o monstrinho que havia nascido. Se fiz certo ou não, ninguém nunca me disse, pois jamais contei o meu segredo a ninguém.

O medo me fez corajoso. O pavor me fez tomar uma grave decisão. Se o que matei era um monstro, não sei, mas também não deixei vivo para comprovar.

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