O Velório

lg-3c2cdbea-d96f-46c6-a963-d292fb8f025c

As coroas de flores baratas eram os únicos itens de decoração ambiente na sala de velórios.

Na parede, um relógio velho arrastava os segundos, os minutos e as horas. Familiares se abraçando e chorando um pranto muitas vezes sem lágrimas.

No centro da sala o caixão era a atração principal. Uma caixa de madeira de qualidade questionável onde jazia o corpo, obviamente sem vida, de um homem com seus sessenta e seis anos.

Murmurinhos, palavras de conforto e até mesmo risos ecoavam pelo cômodo frio e nada acolhedor. Devaneios, divagações a respeito da morte, questionamentos e comentários, lembranças do defunto em vida.

“Mas ele era tão novo! Estava tão bem! Não imaginei que iria morrer…”

Sim, as pessoas morrem! A vida finda e não importa se és um jovem com 67 anos ou com 20 anos. A hora chega!

E nessa profusão de sentimentos, conflitos, choros, abraços e lamentações, uma velha chama a atenção. Caminha pela sala de velórios, observa os parentes, olha as coroas de flores, lê as homenagens. É da família porém passa despercebida por entre os vivos presentes.

Com os braços cruzados sobre os peitos caídos, aproxima-se sorrateira e cabisbaixa do ataúde. Abaixa o olhar e encara o rosto esquálido do morto. Seu velho coração dá um ou dois pulos no peito, um torpor invade sua mente, o sangue gela nas veias já frágeis de seu corpo. Num último pensamento lúcido lhe vem à mente: “Minha hora não tarda! Mas como será morrer? A morte caminha tão próxima a mim. Em pouco tempo serei eu nesse caixão mal arrumado.”

Meneou a cabeça ainda observando cada detalhe do defunto, as mãos sobrepostas no abdômen, a barba malfeita, a boca ajeitada com cola num sorriso falso. “Quem morre sorrindo? A morte é feia! Quem sorri para a feiura? Nós sorrimos “da” feiura.

A morte do velho é diferente do jovem. Quando morre um jovem não há aceitação. “Foi-se tão novo, não viveu nada, tadinho, era um anjo ainda…”. Velho quando morre é normal! Envelhecer, morrer…. sequência correta da vida! NASCER, CRESCER, REPRODUZIR, ENVELHECER E MORRER!

 

E em meio ao turbilhão de reminiscências a velha não se movia. Permanecia imóvel admirando o morto. A quantos velórios já teria ido? Perdera as contas. “Morre gente demais!” Pensava ela enquanto mastigava o canto da língua.

O jovem normalmente não pensa na morte. A juventude traz esse ar de superioridade, de poder, de longevidade e de eternidade. Acredita-se que nunca irá morrer. “Sou invencível!” Jovens são malinos e burros. Acabam por esquecer que a “danada” sempre vem. A mulher da foice. Bicha ruim que busca quem já fez hora extra.

A velha imagina por debaixo de seus cabelos brancos, ensebados e malcheirosos que cada um tem “sua hora”. Essa é a desculpa mais ouvida nos velórios: Chegou a hora dele!

Mas que hora é essa? Existe um relógio da morte? Existe um tempo certo para morrer?

Os pensamentos começaram se entrelaçar na cabeça da velha e ela ficou confusa. Sentiu um mal estar. Cambaleou um pouco pra trás e respirou fundo olhando o relógio na parede de rabo de olho.

“Minha hora não tarda, eu sei! Já passei dos sessenta.”

Arrastando os chinelos devagar pelo piso frio deixou a sala sem olhar pra trás. Ainda cabisbaixa, braços cruzados sobre os seios caídos, caminhou o mais rápido que pôde atravessando a movimentada rua sem olhar para mais nada.

Em apenas um segundo um ônibus em alta velocidade a atingiu jogando seu corpo violentamente contra o poste.

A vela caiu ao chão, morta. Ossos quebrados e a face dividida em duas partes por onde escorria um rio de sangue e cérebro.

Agora já não podia mais pensar. O turbilhão de pensamentos cessara.

Silêncio…

 

No dia seguinte seu corpo fora velado na mesma sala, com as mesmas pessoas ao redor, porém o ataúde fora lacrado o que não permitia que admirassem sua face sem vida e divagassem a respeito da morte.

Sua hora chegou? Não sabemos.

Mas as conversas ainda foram as mesmas:

“Coitadinha! Tão nova! Que azar! É… quando chega a hora…”

Por fim, nossa hora chega ou nós fazemos com que chegue?

***

Lina Stefanie

 

 

Anúncios
Publicado em Contos | Deixe um comentário

Você se sente sozinho?

triste-600x330

Você já se sentiu sozinho?
Mas uma solidão sorrateira que te atinge até mesmo quando estás entre centenas de pessoas?
Já olhou para os lados sentindo um aperto no peito que não sabe explicar de onde vem, os pulmões arfando, as mãos suando, as pernas trêmulas, o coração acelerado fazendo pressão até sua garganta?
Sozinho?
Já acordou com aquela sensação de peso no corpo e na mente onde sentiu ecoar a frase: Mais um dia…
Mas não aquele ânimo de ver que mais um dia lindo chegara para que você o aproveitasse e sim, um peso de mais um dia para viver de forma solitária.
Olhou ao redor e viu que tens família, tem comida, tem um teto, um trabalho, que tens o necessário para não se preocupar, porém não tem o principal: ALEGRIA
E essa solidão não te abandona nem mesmo quando ajoelhado aos pés do altar clama aos céus que Deus leve sua tristeza ou leve… Você!
Já chorou sozinho escondido como se cometesse um crime lembrando de todas as palavras das pessoas ao seu redor te cobrando um sorriso, te cobrando fé, te cobrando ânimo, pessoas apontando o dedo em sua face e dizendo: tu não tens o direito de sentir-se só: tu tens filhos e família, tu não tens o direito de sentir-se triste: tu tens dinheiro, saúde, emprego. Tu és um filho ingrato, Deus está irado contigo!
Mas sozinho na escuridão de seus aposentos você chora e pede perdão a Deus e a todos pois falhou, pois não és merecedor de nada que tens, pois não és forte o suficiente, não és bom o suficiente… E sozinho decide partir desse mundo… Fecha os olhos… e quando os abre novamente, vislumbra um novo dia que DEUS lhe deu com a promessa de que não, você não está sozinho, assim como você milhares de pessoas estão se sentindo assim e para cada uma delas por mais doloroso que seja viver, nascerá um novo dia.
Se você não mudar… Nada mudará! Tente…
Lina Stefanie

Publicado em Contos | Deixe um comentário

Intocável

choro1

A brisa suave e morna daquele início de verão balouçava as folhas do milharal fazendo um barulho que mais parecia um chiado irregular num vai e vem de sons familiares.

Maria observava o pequeno milharal no quintal de sua casa fazendo mil castelos em sua cabeça de criança malina. Planejava a próxima brincadeira escolhendo uma bela e rechonchuda espiga de milho de cabelos grandes e vermelhos. As espigas de sua avó transformavam-se em belas princesas de cabelos longos com as quais brincava até o sol se esconder atrás dos pinheiros.

– Menina! Você vai acabar com meu milharal! Pare de “bobage” – gritava a avó quando descobria as bonecas de espigas jogadas pelo quintal.

Porém logo a avó deixou de ter tantos cuidados com o milharal e foi morar em outra casa após casar-se com um homem que Maria foi obrigada a chamar de “avô”.

A mãe trabalhava dia após dia para trazer o pão. Com a avó revezando os cuidados da casa de sua filha e sua própria casa, Maria passou a ser deixada por muitas vezes aos cuidados de uma das filhas desse novo avô.

A princípio Maria gostava da babá substituta. Márcia fazia tudo para agradar a menina e a mostrar à família todo o seu zelo. Mas logo as espigas do milho murcharam, os pés de milho secaram e desfizeram-se caindo no chão. Exatamente como a vida da pequena menina das bonecas de espigas.

Maria tinha por volta dos cinco anos de idade, pele branquinha e bochechas rosadas, os cabelos loiros e desgrenhados sempre presos sem cuidado num coque semidesfeito.

– Maria, venha aqui, peste! – quando Márcia gritava seu nome, o pequeno coração disparava numa corrida louca dentro do peito.

“Coisa boa não vem, coisa boa não vem.” A menina pensava consigo.

– Ah, sua peste! Só porque eu sou preta e tenho cabelo “ruim” você pensa que vai continuar com esse cabelinho de algodão doce? “Num vai não”. Olhe o creme que preparei para tratar seu cabelinho de algodão!

Maria observava com os olhos arregalados enquanto Márcia esbravejava e espumava pelo canto da boca. Em uma vasilha misturou farinha de trigo, água, ovo e borra de café fazendo um creme espesso e fedorento.

Sem cuidado algum, arrastava a menina pelos cabelos, a sentava numa cadeira em pleno sol de meio dia e aplicava o creme asqueroso por todo cabelo dourado.

Márcia ria alto, prazerosamente enquanto observava a menina sentada ao sol com os cabelos duros como cola.

Cabisbaixa, Maria chorava baixinho e suas lágrimas faziam um caminho retilíneo de dor pelo rostinho sujo de poeira vermelha.

Após a sessão de prazer cruel, Márcia corria, levava a menina até o tanque de roupas e a lavava com fervor debaixo da água fria a fim de tirar todos os resquícios do creme fétido do cabelo para que não houvesse desconfiança por parte da mãe ou da avó da menina quando chegassem.

– Pronto “verme branco de goiaba”. Fique aí caladinha pois se abrir o bico, se falar um “ah”, eu acabo com você.

A menina passou a vivenciar os maus tratos em silêncio. Não brincava, não falava, não reclamava.

Todavia as coisas passaram a piorar muito rápido. Além das surras, das humilhações e crueldade, Márcia passou a arrastar a menina para o quarto, onde fechava as janelas e porta, tirava suas roupas e ali fazia todo o tipo de ato sexual asqueroso com a menina.

Maria virou um fantoche sem vida e que apenas respirava.

Os abusos se repetiam e as ameaças eram cada vez piores. A criança cheia de vida que outrora brincava no milharal fora “sepultada sem lápide”. Morta viva.

Não bastasse os abusos constantes com Maria, Márcia passou a abusar também do irmão da menina de apenas onze messes de idade. Maria observava em silêncio pela fresta da porta.

 

Mas como não há alegria que nunca acabe e tampouco tristeza que não tenha fim, o tempo passou e Márcia foi embora carregando consigo o demônio que existia dentro dela.

Maria nunca chorou, nunca gritou, nunca contou. Ela era apenas uma criança, um ser que deveria ser intocável pela maldade humana.

Criança que cresceu com cicatrizes na alma que nunca pararam de sangrar e cicatrizes nos braços surgiram depois para lhe fazer lembrar de que muitas vezes uma dor física pode dissimular uma dor na alma.

Lina Stefanie

***

Publicado em Contos | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Flores na relva

ossonsdafloresta

Acendo mais um cigarro e observo a fumaça acinzentada subir devagar em direção ao firmamento. Os pensamentos se desfazem em direção ao céu como a fumaça da nicotina recém inalada. Já não sei porque acendo um cigarro após o outro sendo que ao menos sou fumante. Um comprimido após o outro me deixam em um estado de torpor, de anestesia da realidade como se todos os meus traumas e minhas dores fossem se dissipar como a neblina na chegada do sol. Mas não. Meus traumas, minhas dores, meu luto me deixa viva para vivenciar cada dor lancinante do meu sofrimento para me lembrar que estou viva. Apenas um corpo pulsante e uma mente insana e quase morta. Que dor é essa que desatina em Minh ‘alma? Rogo aos céus por misericórdia implorando meu renascimento. Sim, aqui jaz uma mulher morta em um corpo vivo. A minha presença física acalenta aqueles que me amam e que lutam por mim.

Ah… Mas o paraíso parece estar tão perto daqui! tudo que minha mente doentia busca é descanso. Meu corpo adoece e me sinto fenecer a cada segundo que deixo de viver. Minha cama é meu porto seguro onde aconchegada com minha cachorrinha tenho devaneios de minha vida passada recente. Na memória, lapsos de lembranças de minha mãe falecida recentemente perguntando-me: Filha, você está bem? quer um chazinho? Deita no meu colo e tudo passará.”

Mas não passou! A morte é irreversível.

Junto com ela vovó partiu por vontade própria entregando-se à doença para que se juntasse à minha mãezinha no céu o mais breve possível.

Eu pergunto: Por que tive de ser tão amada? Duas mães que me amaram e me mimaram mais do que tudo nessa vida tornando-me parte delas. Uma parte minha, talvez a mais importante apodreceu e morreu no instante daqueles enterros.

Aquela jovem forte, poderosa, inteligente morreu. E digo-lhes meus amigos, a pior morte é aquela de corpo vivo. Sim. Muitos perambulam por aí somente de corpo presente.

Pessoas tentam ajudar, mas não podem. Não existe medicamento para curar a alma. A dor chega a ser tão insuportável que tudo que se deseja é partir. E eu tentei!

Minha cabeça hoje é um emanharado de dúvidas, de saudades, de dor, de tristeza.

Ah como eu odeio os espelhos! Eu odeio as fotos onde me vejo sorrindo e sinto ânsia de vômito pois não me reconheço mais. Quem é aquela mulher que fazia a todos sorrirem? Quem era aquela pessoa que iluminava os ambientes? Hoje sou uma sombra, fraca, doente, inútil, alguém que apenas vegeta dentro de si mesma.

A depressão é real, meus amigos. Eu mesma nunca aceitei que um dia diria essa palavra, mas hoje descobri da pior forma que a depressão mata e estou morrendo, lenta e dolorosamente.

Dias sem dormir, fantasmas de um passado que me assombram e me tiram a última gota de energia.

Estou exausta! Sonho com um leito de relva verde e macia onde me deitarei e terei sonhos com campos de flores coloridos onde toda essa dor terá ido embora.

 

Publicado em Contos | Marcado com , , , , , , | 2 Comentários

Querubim

querubim

O céu negro era momentaneamente iluminado por violentos raios que apareciam e desapareciam sem que meu olhar conseguisse acompanhar. Gotas pesadas de chuva açoitavam minha face e em meio ao caos e aos destroços da luta sangrenta em que participara, a vida que habitava meu ventre se fez notar. Pequenos chutes no meu abdômen me acordaram do torpor. Não tinha noção de quanto tempo estava caída no chão esperando a morte me levar para qualquer lugar que não fosse aquele.

Não havia sinal de que ele retornaria. Não havia chances de concretizar todos aqueles planos.

***

Rue Saint Séverin – Paris

Após o encontro com anjo negro que me salvara e ao mesmo tempo roubara meu coração, meus dias seguiram vazios e sombrios. Não restara nada de minha antiga vida. Minha mãe morta pelo monstro o qual ela jurou amor eterno. As cenas da tragédia corriam pela minha mente como uma corredeira de águas negras. O que me acalentava era a esperança de rever meu salvador. Mauro, o anjo negro de olhos brilhantes e sorriso vívido. Do alto da torre de Notre Dame provavelmente ele espreitava buscando o momento certo para ganhar vida e caminhar pelas ruas estreitas de Paris durante a noite.

Isso apenas era uma suposição palpável para mim. Na minha mente quase infantil cheguei a crer que tudo não passara de um sonho louco, sonho de garota que construiu castelos por toda uma vida imaginando encontrar seu príncipe encantado que a tiraria da desgraça em que via-se submersa por toda uma vida.

Mas Mauro não era um sonho, foi extremamente real e palpável. Eu o sentia, sentia o calor dos seus lábios macios nos meus, sentia a firmeza de suas mãos nas minhas e isso causava um rebuliço dentro de mim a cada instante em que as lembranças retornavam.

Real. Ao menos em minha mente… Real!

Porém a vida não me dera motivos de desejar viver. Órfã de mãe, estuprada e espancada durante uma infância infeliz, sem ao menos um lugar para descansar meus ossos durante as frias noites. Não demorou até que minha vida se resumiu a mendigar pelas ruas de Paris. Eu já não tinha condições psicológicas de levar uma vida normal. Não dormia e quando chegava a cochilar era arrebatada pelos sonhos terríveis dos momentos em que encontrei minha mãe morta aos pedaços no chão da sala.

Como algo que já estava escrito para mim, mina sina se resumia em apenas uma saída naquele momento. A morte. E isto passou a ser uma obsessão para mim. Dormia e acordava com isso em mente. Planejava de todas as formas morrer, apenas isso, deixar de existir, dormir o sono dos justos e dos incautos, para sempre. E a cada dia eu morria um pouco por dentro, então porque adiar algo inevitável?

No dia do meu suposto suicídio acordei em meio a uma enxurrada de entulhos e lama. Dormira em um beco escuro e muito sujo e a chuva caiu por toda noite. Estava decidida. Não fazia sentido continuar vivendo.

O suicídio para mim não passava de uma libertação. A palavra morte não tinha peso neste momento, eu desejava apenas matar a dor que me consumia a cada instante.

Esperei o dia passar com a convicção de que faria tudo no cair da noite. Logo que o céu enegreceu parti rumo à catedral de Notre Dame. Esgueirei-me por entre os transeuntes e me escondi por um tempo até conseguir me dirigir para a torre dos sinos. Em pouco tempo estava na torre mais alta de onde se via uma Paris sombria sob um céu escuro, nebuloso, entremeado por raios que explodiam como num show de luzes. Enquanto subia a escadaria meus velhos trapos de roupas prendiam-se vez ou outra nas farpas de madeira do caminho.

Cheguei ao topo da catedral com o coração disparado. O vento batia leve no meu rosto. Por um instante fechei os olhos e senti o cheiro de Paris vindo de todos os lugares. As coisas sempre podem ser diferentes, pensei comigo mesma, porém no meu caso não foi assim. Sina de dor e destruição.

Escorreguei os pés para próximo do peitoral e olhei ao redor. O vento ainda mais intenso açoitava minha face como tapas que fariam acordar para o ato. Vacilei por um instante e as lágrimas desceram como corredeiras por meu esquálido rosto. Caí de joelhos, aos prantos, as sujas mãos cobrindo a vergonha que minha alma exalava.

­— Você realmente fará isso? – uma voz angelical me tirou do torpor.

Levantei o olhar, admirando aquele ser que se sobressaía das trevas como se a lua brilhasse para ele.

Quando as negras asas se abriram como à espera de um abraço eu caí enfraquecida.

Com mãos firmes como aço e macias como as nuvens ele me segurou. Sorriu com os dentes mais alvos que até mesmo a luz da lua intimidou-se.

– Eu voltei, meu amor… Eu voltei. E não há nada, não há pedra ou fogo, não há aço ou ferro de correntes que nos prenderão nessa vida de desgraças.

Nos beijamos e o mundo parou. A lua adormeceu e o sol acordou. Foi nossa noite de amores sob a relva de um jardim de flores de mil cores.

Eu sorri admirando o céu. “Só o amor salva!”. Minhas palavras foram um sussurro.

Os momentos de amor foram eternos e extasiantes até o momento em que meu amado foi tocado por um chamado dos seus semelhantes. Uma luta entre vampiros e gárgulas assolava Paris. Mauro precisava partir e não o abandonei.

Enquanto a batalha transcorreu horrenda entre mortos e destroços, eu estava segura. Admirando a cada instante a alva pele de meu abdômen se contorcer e esticar rapidamente. Um bebê lindo e amado crescia feliz e protegido dentro de mim.

E no pior momento da batalha senti as primeiras dores lancinantes do parto. Rastejei-me até a rua e gritei aos céus, gritei para que o vento levasse meu chamado.

Meu ventre já se dilatava intensamente quando deitei-me enfraquecida pela dor.

Meu filho nascia.

Num segundo abri os olhos embaçados de lágrimas e o vi.

— Mauro…

– Não diga nada! – ele calou-me com um beijo terno.

Com nosso filho e seus braços ele chorou como nunca o vi chorar. Suas lágrimas eram como prata líquida desenhando no rosto negro de ébano.

— Esse é nosso filho, minha musa, a criança mais bela que os deuses nos deu.

O bebê era alvo como a neve sob a luz do sol e pequenas asas negras e macias adornavam suas costas.

— Vlad será o seu nome!

Abraçamo-nos os três e neste momento as nuvens se dissiparam e os raios do sol saudaram nosso amor.

***

Publicado em Contos | Deixe um comentário

Catedral

image

Rue Saint Séverin – Paris

– Moça, passe o cartão, por favor. Moça?
O silêncio em que me vi mergulhada por segundos foi quebrado por uma voz feminina que me chamava insistente. A cliente segurava o cartão de crédito enquanto me olhava curiosa. Atendi rapidamente e voltei meu olhar para o que prendia minha atenção.
Um homem misterioso, sentado sozinho na última mesa da cafétéria. A pele da cor do ébano parecia reluzir como diamantes negros sob a luz fluorescente. Olhar calmo e um meio sorriso nos lábios macios. Folheava um livro antigo enquanto bebericava um cappuccino. Eu não sabia nada a seu respeito, porém me perdia em encantos toda vez que o via.
Mistério. Palavra que o definia para mim.

Nesse instante o vi levantar-se e se aproximar de mim. Meu semblante mudou, as pernas enfraqueceram e algo se revirou no meu estômago causando-me náuseas.
O seu andar era lento e parecia flutuar sobre o piso reluzente.
– O cappuccino estava divino, senhorita. – ele estendeu o dinheiro e me sorriu com dentes alvos como marfim.
Eu apenas congelei. Não tive reação. Aquele ser mexera comigo de forma sobrenatural.
Um momento inusitado e mágico que me fizera sair das profundezas de tristeza em que se resumia minha desgraçada existência. Aos vinte e sete anos de idade, garçonete de uma cafétéria próxima ao Rio Sena, filha de mãe bêbada,  abusada e espancada por um padrasto viciado. Não havia muitos motivos que me faziam sorrir. Vez ou outra me perder nesses sonhos de menina me tirava do chão.

Neste dia não fora diferente. Voltei para casa exausta do trabalho. Morávamos numa velha casa nos arredores do Rio Sena. Ao chegar estranhei o silêncio. Mamãe não estava,  somente Jean Paul, o padrasto motivo de minha desgraça. Procurei ir para meus aposentos sem ao menos dirigir-lhe a palavra. Mas a sorte não seria minha companheira nessa noite. Fui agarrada violentamente pelo braço e atirada contra a parede. O barulho de minha cabeça batendo contra os tijolos foi assustador. Senti o calor do sangue escorrendo pela fronte e antes que conseguisse balbuciar algo, minha boca foi atingida por um soco violento. Cambaleei e caí de lado, desfalecendo. Jean Paul neste instante já estava sobre meu corpo, arrancando minhas roupas, rasgando-as como trapos. Já não tinha forças, de minha garganta saiu um gemido de dor, quase um grito gutural. Minha boca foi tapada com os restos de minhas vestimentas, meus olhos reviraram nas órbitas tamanha a dor de meus ferimentos. Não reagi. Não havia o que fazer. Mais uma vez fui violentada e jogada como bicho no frio piso do banheiro.
– Fique aí, vagabunda. Isso é pouco pelo que merece. – Jean Paul ligou o chuveiro e a água caiu fria como metal cortante ao tocar minha pele.
Lavei-me como fosse o ser mais repugnante e imundo do planeta. Estava suja, fisicamente e interiormente, como se minha alma estivesse podre.

Os dias que se seguiram foram dolorosos, dias frios de inverno e a dor na alma que me consumia segundo após segundo.
Quase um mês se passou até que visse novamente o homem misterioso. Ah… Como a visão do seu semblante me acalmava! Era como bálsamo ao meu sofrimento.
Neste dia eu lhe sorri. Sorri com toda pureza de minha alma sofrida, sorri como se o tempo fosse parar naquele encontro.
Não tinha pretensão de seduzi-lo com minha beleza quase inexistente. Ajeitei os cabelos que me caíam em cachos dourados sobre os ombros, estiquei o velho e amassado vestido e sorri para ele. Porém nesse dia ele não me devolveu o sorriso. Olhou-me firme nos olhos, afastou os cabelos do meu rosto e inquiriu:
– O que é isso? – apontou para o corte ainda visível em minha fronte.
Eu corei. Baixei o olhar e sussurrei:
– Isso? Apenas um tombo no banheiro.
Não sabia mentir. Minha desculpa soou ridícula. Ele apenas me fitou com os olhos negros como a noite sem luar e despediu-se.
– Nos vemos por aí, senhorita. Tenha uma ótima noite.
Partiu e, com ele um pedaço de mim.

Voltei para casa nesse dia com o coração em frangalhos. Minha vontade era me jogar em seus braços e contar-lhe o motivo de minha tristeza. Talvez fugissemos juntos para nunca mais voltar, talvez nos amássemos e eu nunca mais experimentasse o fel do sofrimento. Mas tudo não passava de sonhos de mulher sofredora. Meu destino era outro.

Abri a velha porta de madeira da sala e entrei cabisbaixa. Sob meus pés observei marcas escuras e ao acender a luz deparei-me com marcas de sangue espalhadas por todo o cômodo. Forcei as pernas trêmulas e caminhei até a cozinha. Qual não foi o horror que me dominou ao ver o corpo de minha mãe caído ao chão. O abdômen aberto, as vísceras espalhadas, os cabelos num emanharado em meio às poças de sangue e miolos.
O chão me faltou e caí de joelhos. Rastejei ao redor do corpo como fosse acordar de um pesadelo horrendo.
Em instantes Jean Paul apareceu em minha frente com uma faca nas mãos. O metal reluzia.
Num último esforço atirei uma cadeira sobre ele.
– Monstro! – gritei.
Jean Paul caiu de lado e pude pular sobre ele tentando uma fuga desastrada.
Passava de meia noite e não havia luar. Saí em disparada, numa corrida louca em direção à catedral de Notre Dame. Jean Paul logo atrás de mim, os olhos faiscavam de ódio.
O esforço extremo e o pavor me dominaram. Caí em frente ao portal principal da catedral. Jean Paul riu alto. Um riso de vitória. Jogou-se sobre mim e cravou a faca em meu ombro. Virei os olhos para o céu. Nesse instante o céu iluminou-se como se a lua saísse de trás das nuvens. Tudo que meu olhar alcançou foram as gárgulas da catedral e ainda delirando de dor e desespero tive a impressão de que uma das estátuas se movera e em seguida alcançara o céu num vôo ágil. Não passou um minuto até que Jean Paul fosse atingido por uma sombra negra que o atirou violentamente sobre a escadaria da catedral. Num esforço extremo arranquei a faca do meu ombro e deitei de lado para observar o ocorrido. À minha frente vi levantar-se uma gárgula enorme, com asas negras reluzentes e caminhar em direção a Jean Paul. Estava morto.
Esfreguei os olhos como se tudo aquilo não passasse de minha imaginação. Tentei rastejar em direção à estátua que ganhara vida. Ela virou-se para mim e como uma visão sobrenatural transformou-se em um homem. O homem da cafétéria. O negro encantador que me roubou o coração.
Não tive reação. Deitei-me de bruço buscando forças para enfrentar os acontecimentos. O homem me ergueu do chão sem esforços. Pegou-me nos braços e abriu asas que nos levaram para o céu em um salto. Eu flutuava naqueles braços. Não havia dor, não havia sofrimento, somente nós dois presos num abraço em direção ao céu infinito.
Fui colocada deitada no chão da nave da catedral.
Ainda sorrindo perguntei-lhe:
– Qual seu nome?
Ele com os olhos brilhando como estrelas, balbuciou:
– Mauro. O seu salvador.
Fechei os olhos e recebi seu beijo fraterno. Nossos labios se uniram, assim como nossas almas, juntos, num vôo através da eternidade.

Publicado em Contos | Deixe um comentário

Fim

image

Foi um lance de segundos e meus olhos se fecharam involuntariamente. Meu corpo bateu no chão bruscamente. Minha mente trabalhava incessante com os pensamentos pairando no meu cérebro como aves que voam sem seguir uma lógica, um caminho. O coração disparado, batendo no peito anunciava uma parada iminente.

Parou.

Rapidamente vi o rosto de minha filha irreconhecível, triste, com lágrimas escorrendo pela face pálida, eu estava parada em um corredor branco, comprido, cheio de portas abertas. Tentei me arrastar pelo chão, estava sentada, meu corpo estava pesado, quas
e inerte. Num impulso animalesco levantei – me. Atrás de mim estava minha mãe com o semblante sisudo, vestida de branco, rosto rosado, cabelos da cor da palha de milho. Me estendia a mão sem esboçar sentimento. Chacoalhava a mão como se me ordenasse: – Venha!

Mas este semblante em seu rosto eu nunca presenciei. Mamãe sempre sorriu, nunca chorou. Seu olhar era quase uma súplica: – Me siga!

Vovó estava perto, os cabelos longos e negros como breu. Vestido comprido, tão longo que não pude ver seus pés. Na minha cabeça o turbilhão de pensamentos ainda pairando, descontrole total. Não havia batimentos cardíacos, dentro de mim supremas dores me dilacerando de dentro pra fora. Eu podia sentir o sangue escorrendo e dançando entre minhas entranhas. Era o fim. E esse fim não era ameno como ouvíamos dizer. “A morte é o fim de tudo”. Não era. Eu estava ali, podia sentir a dor carnal. Já não pensava em mim, no meu corpo já sem vida. Pensava em quem ficaria. A dor dos meus entes queridos velando o que restara do meu corpo. O mesmo corpo que deu à luz uma bela criança, o mesmo corpo que tanto fez pelas pessoas. Eu tinha vivido. Sorri, chorei, brinquei, amamentei e acalentei minha filha em meus braços.

O fim é injusto e inevitável.

De súbito minhas divagações post mortem foram interrompidas por pancadas fortes no meu peito. Eu fui sacolejada como um boneco velho arrastado por uma criança.

Numa luta extrema e dolorosa, arrancaram – me dos meus devaneios imortais.

Ao abrir os olhos, minha retina foi trucidada por uma luz branca e intermitente.

Ela voltou. Leva para o CTI.

Ouvi uma voz firme e estranhamente calma dizer.

Um frio incontrolável sacudiu meu corpo, fazendo com que me debatesse sem parar. Sob mim uma gélida mesa de inox.

O silêncio gritou por dentro alguns instantes, fechei os olhos e dormi um sono profundo.

Lina Stefanie

Publicado em Contos | Deixe um comentário