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Lina Stefanie e Jack Sawyer
O tic-tac do relógio na parede e minha respiração eram os únicos sons que meus ouvidos captavam, vez ou outra o roçar do lápis sobre o papel, riscando uma palavra escrita pela metade. Minha mente estava vazia. Indescritível como uma ameaça pode acabar com o bom desempenho de uma mente fértil.
As palavras do diretor da revista foram bem claras para mim. Era a chance que eu precisava. O objetivo de qualquer jornalista, um cargo na editora mais prestigiada do país. Tudo o que mais queria estava ali, naquela proposta.
Um vazio.
Eu simplesmente não conseguia pensar em nada. Revirei os jornais, a internet em busca de algum assunto interessante que merecesse ser apurado, minuciosamente explorado. E nada. Nada, foi o que encontrei. As coisas só mudaram quando conversei com um amigo que trabalhava na editora como assistente do assistente do Diretor. Ele era o tipo de cara que sabia das coisas. Vivia esgueirando-se pelas salas e corredores da editora. Ouvia e via tudo o que se passava ali dentro.
— Valkyr San Venez. Ouvi muito bem, sim. – disse o assistente. — Mas quem é este homem?
Ele terminou com o café em um gole só.
— Pelo que ouvi dizer, trata-se de um empresário mega bilionário da indústria farmacêutica francesa que está interessado em abrir filial no Brasil. O senhor Carlos parecia muito interessado na história de San Venez.
O assistente parou um instante, deu uma mordida no pão de queijo fumegante e em seguida prosseguiu.
— Ouvi-o dizer que uma entrevista com San Venez renderia boas vendas.
Enquanto o rapaz devorava seu pão de queijo, aquelas informações eram processadas no meu cérebro. Aquele nome não me era estranho. Deveria se tratar realmente de alguém mundialmente conhecido.
— O que sabe mais sobre San Venez? – Perguntei.
— Trata-se de um emergente. Em pouco tempo ficou conhecido por reerguer uma indústria farmacêutica já falida e criar um império. Está à frente de um grande laboratório de pesquisas que reúne profissionais do mundo todo. Mas o que mais interessa à editora é conhecer a vida do homem por trás do empresário, o que ninguém conseguiu até hoje. Uma aura de mistério o cerca.
— Está aí! – exclamei. — Vou fazer uma matéria sobre a vida de San Venez. Vou conseguir meu cargo naquela editora.
O assistente me fitou com um ar quase melancólico.
— Acho que você não entendeu bem. É impossível alguém tirar alguma informação de San Venez ou de sua equipe. Isso já foi tentado. Já contrataram os melhores detetives particulares, mas nada foi descoberto. Não quero desanimá-lo, estou sendo bem realista com você.
— Você não sabe quão importante este cargo é para mim. Farei o possível para conseguir uma entrevista com ele.
— Bem… Se puder ajudá-lo, me coloco à disposição. Sei que ele estará em um evento de medicina que acontecerá amanhã no centro da cidade.
— Você me ajudou muito. Agradeço. Tenha um bom dia.
Paguei a conta e saí rapidamente.
Logo que cheguei em casa, fui até o computador. Vasculhei diversos sites de busca à procura de alguma informação sobre a vida pessoal de San Venez. Bem como me afirmara o assistente, nada encontrei. A única esperança estava em encontrá-lo no evento.
No dia seguinte levantei-me cedo, preparei meus materiais de trabalho e me dirigi ao local.
Havia muitas pessoas no evento. Dentre os nomes dos palestrantes estava o nome de Valkyr. Seria possível que concedesse uma coletiva à imprensa.
Nada ocorreu como pensara. San Venez não concedeu nenhuma coletiva. Falou brevemente sobre seus interesses no Brasil. Comentou sobre suas pesquisas com células-tronco na recuperação de pessoas com deficiências físicas e a busca da cura para o câncer entre outras doenças.
Como última tentativa, decidi seguir San Venez e sua equipe. Estavam de carro. Desci me esgueirando como felino até o estacionamento.
Escondi-me detrás de uma coluna de concreto e esperei. Não demorou até que avistasse o grupo. Não pareciam muitos desta vez, mas pareciam mais misteriosos agora do que quando estavam diante das luzes do evento. Falavam pouco, olhavam papéis, gesticulavam.
Logo mudaram o passo e vieram em minha direção. Os carros estavam próximos. Abriram o porta-malas e jogaram algumas pastas lá dentro. No primeiro descuido de um de seus homens, me joguei no porta-malas me cobrindo com um plástico preto.
Foi tudo muito rápido. Com um pouco de sorte não me notaram. Bateram com força a porta do carro e logo o veículo começou a movimentar-se.
Meu coração palpitava.
O trajeto pareceu o mais longo de toda minha vida. O silêncio só era cortado pelo ronco potente do motor. Tive tempo suficiente para pensar se o que estava fazendo era certo ou não.
Assim que o veículo parou, rapidamente alguém abriu o porta-malas. Foi como se já soubessem da minha presença.
Um dos homens me encontrou.
— Valkyr, veja isto! O tom de voz era brando.
— Leve-o! – ordenou Valkyr.
Seu tom de voz era mais para um pedido do que uma ordem.
Rapidamente me tiraram do carro, dois homens brancos e longilíneos, rasgaram uma tira do plástico preto e amarram sobre meus olhos. Levaram-me para dentro e me jogaram com violência em um quarto. O local não tinha janelas, não havia nenhum móvel, apenas uma vela e uma caixa de fósforos.
Desta vez senti que podia me desesperar.
San Venez me observou durante algum tempo, mas logo bateu a grossa porta de ferro me deixando naquele lugar escuro.
Segundos depois acendi a vela.
A espera por algum sinal de esperança foi longo. Esperei sentado no chão frio durante intermináveis horas. Por sorte o celular ainda estava comigo, mas não dava sinal. Também não saberia explicar onde estava. Desliguei o aparelho para economizar bateria.
Era por volta das oito horas da noite quando um dos homens veio me trazer comida. Um prato generoso de macarronada. Comi sob o olhar frio de meu carcereiro.
Antes que terminasse a refeição, San Venez veio até nós.
— Leve-o para baixo. – ordenou sem tirar os olhos de mim.
— Para baixo? – indaguei incrédulo. — O que querem comigo? Por que estão fazendo isso? Deixem-me ir.
Tentei gritar e me sacudir, mas fora em vão. Logo prenderam meus braços e pernas e me carregaram. Descemos por uma escada estreita até chegar a um corredor extenso, todo iluminado como um corredor de hospital, mas ao invés de salas comuns havia uma espécie de jaulas. A maioria vazia.
Fui jogado em uma das celas.
As luzes eram muito fortes e brancas, a propósito, tudo ali era branco, as paredes, o chão, as grades, o que irritava demasiadamente meus olhos.
Algumas salas estavam ocupadas e a que estava de frente para a minha era uma delas. Havia um homem sentado no chão encostado na parede ao fundo. Ele me olhava friamente.
— Que lugar é este? – perguntei em voz alta.
O homem aproximou-se da grade.
— Não sei. – disse ele.
— Há quanto tempo está aqui? – insisti.
— Não faz muito. Mas não vai demorar.
— Demorar? Demorar a que?
— Morrer. Todos vão morrer! E não demora.
Aquelas palavras me atingiram como uma pancada. Fiquei trêmulo, suando frio. Não podia ser! O que havia feito com minha vida?
— Não pode ser. Por que diz isso? – eu gaguejei.
— É verdade. Já estou aqui há alguns dias e observo tudo. Sei que minha vez está próxima. Ninguém sai vivo de lá. – apontou para uma sala no fim do corredor. — Os “brancos” vêm aqui, leva as pessoas e depois trazem o corpo já sem vida.
— Como pode ter certeza? Podem estar apenas dormindo. – eu queria um fio de esperança.
— Saem de lá apenas corpos em pedaços.
Eu caí de lado. Faltou-me o ar. Minha cabeça latejava. Era a confirmação da morte certa.
Neste momento, três homens aproximaram-se seguidos por San Venez.
A tensão era total.
Um rapaz da cela ao lado fora o escolhido.
— Valkyr San Venez! – gritei quando se afastaram.
Desta vez olhou em minha direção. Um olhar frio e penetrante. Não desviei um momento sequer. Ele não esboçou reação alguma. Seguiu com o que estava prestes a fazer.
Escorreguei pela grade até cair no chão. Fiquei naquela posição tempo suficiente para adormecer. Um sono sem sonhos.
Logo que acordei, nada havia mudado. O homem da cela em frente permanecia lá.
— Eles já o levaram. – o homem comentou.
— Estava vivo? – indaguei.
Ele balançou negativamente a cabeça. Seus olhos fitavam o chão.
— Morto também. – concluiu.
— O homem… De cabelos pretos… Ao passar pelo corredor, parou e olhou durante alguns segundos em sua direção.
O comentário tirou-me do chão. Estava em um estado de dormência. Difícil explicar, mesmo para um jornalista, o que se sente em um momento como esses. Duas vertentes: uma é quando se noticia uma história de sequestro, de morte, e outra totalmente diferente é quando se vivencia tudo isso na pele. É nesse momento que o ser humano compreende seu verdadeiro valor, e é insignificante. Senti-me como o gado no frigorífico à espera da execução.
O que me restava era esperar.
Os carrascos não demoraram a aparecer seguidos de seu possível líder.
Valkyr San Venez aproximou-se e abriu a fechadura. Logo dois homens me seguraram e me vestiram com uma camisa de força. Não demonstrei resistência. Levaram-me para a tão temida sala.
O medo que se apoderou de mim foi tão violento que estive perto de perder os sentidos.
Em seguida, sentaram-me em uma cadeira e me prenderam pelas mãos e pés.
O local parecia uma sala de cirurgia. Era fria e tinha uma bancada de instrumentos cirúrgicos. Não havia sangue, isso me deu uma falsa esperança.
San Venez parou próximo a mim. Virou meu rosto e examinou o meu pescoço.
— Não é um deles. – comentou com um de seus homens.
— O que querem comigo? – inquiri.
— O que queremos? Acho que devíamos fazer-lhe esta pergunta, senhor…
— Marcos Corrêa… Ao seu dispor. – respondi sarcástico.
— Vejo que há um mal entendido aqui, senhor Corrêa. Poderia explicar o seu súbito aparecimento em nosso caminho?
A névoa de tensão dissipou-se neste momento.
— Eu… Posso explicar!
— Estamos aqui para ouvir sua explicação, senhor Corrêa. Podem soltá-lo. – ordenou San Venez.
Rapidamente livraram minhas mãos.
Senti-me aliviado.
— Bem… Eu sou jornalista e estou em busca de um cargo em uma grande editora. A única condição que tenho para conquistar o cargo é conseguir fazer uma matéria sobre sua vida.
— Uma matéria jornalística. Vejamos… Você está aqui para falar comigo, não é isso?
Balancei a cabeça.
— E o que vê de tão importante em minha vida?
— Sinceramente nunca havia ouvido falar a seu respeito. Fui buscar informações somente quando recebi o ultimato do diretor da editora. Caso eu conseguisse uma entrevista ou uma matéria que revelasse mais do que se sabe a seu respeito, o cargo seria meu.
— Vejo que conseguiu mais do que isso. Descobriu nosso segredinho.
— Talvez eu não saiba exatamente o que se passa aqui neste lugar.
***
— Mas vai saber. Não só vai saber como vai fazer parte do que acontece aqui.
— Ainda não consigo entender.
— Por ser jornalista deve saber que as células-tronco são o futuro da medicina. O processo de inserção de DNA e a sua remoção para os fins específicos nos modos normais, é muito complicado e demasiadamente demorado. Então decidimos pular a parte de experimentos com animais e partir para a produção em massa usando humanos, ou seja, quase humanos.
— Não entendi o que quis dizer com “quase humanos”? – Venez olha compassivo para mim e, após um suspiro prossegue.
— Há indivíduos entre nós que são diferentes. Dezenas de pessoas desaparecem diariamente e ninguém faz caso disso. Creio que seu jornal deve ter pelo menos uma estatística sobre esse assunto. Mas voltando, essas criaturas tem uma marca, geralmente…
— Seria a marca que você procurou em mim?
— Correto! O que nos facilita a sua identificação. Veja bem, não quero explicar meus atos, justificá-los, mas o que fazemos é para o bem da ciência e da humanidade. Retiramos esses espécimes das ruas, evitando que eles façam mais vítimas e utilizamos seu DNA para criar novos órgãos saudáveis, sem o cromossomo responsável pela mutação que eles sofreram.
— E o que a sociedade acha disto, ou o que ela vai achar quando essa história vier a público?
Com uma breve risada Venez responde a minha provocação.
— Quem disse que ela precisa saber? Está dando certo, não está? Você pode me recriminar agora, repudiar o que eu faço, condenar meus métodos, mas se você fosse um pai e seu filho tivesse um problema renal e precisasse urgentemente de um rim, sabendo que se ele ficar na fila nacional de espera pode não aguentar, garanto a você, que faria qualquer coisa para ver seu filho curado, sem se importar como.
Usei de toda a frieza que consegui reunir. Minha veia jornalística de falava mais alto que a razão.
— Com tudo o que acabou de me dizer, imagino que não sairei vivo daqui e essa estória nunca vai ser publicada, não é mesmo?
— Pelo contrário, não tenho interesse nenhum em você. Matar você seria simplesmente assassinato e acabaria com meu anonimato, afinal, um jornalista desaparecido sempre atrai a imprensa. Não meu caro, se depender de mim, você ainda vai viver muitos anos.
— Mas… – balbuciei incrédulo.
Após um aceno de Valkyr, um dos assistentes me aplicou uma injeção atrás da orelha. Não vi mais nada.
No dia seguinte, lembro-me de ter acordado em meu apartamento, com uma forte dor de cabeça e um curativo na testa, vários arranhões, nos braços, mãos e joelhos e o corpo muito dolorido.
A luz da secretária eletrônica piscava intermitentemente, Que horas eram afinal? Pela luz que adentrava a janela, já passava das 10:00 da manhã.
Caminhei com dificuldade até a secretária eletrônica e a acionei.
“Você tem oito novas mensagens: primeira nova mensagem:” (Piiiiiiiiiii)
“— Ei cara, já leu a última edição da revista? Me liga.”
(Piiiiiiiiiii) “Segunda nova mensagem:” (Piiiiiiiiiii)
“— Acorda dorminhoco e vem trabalhar!”
(Piiiiiiiiiii) “Terceira nova mensagem:” (Piiiiiiiiiii)
“— E aí cara, só porque conseguiu o emprego, acha que não precisa trabalhar, vem logo para a redação.”
Desliguei imediatamente a secretária eletrônica. Não me lembrava de nada que acontecera no dia anterior, não me lembrava de como fui ferido.
Aprontei-me rapidamente. Saí de casa e parei na primeira banca de jornal.
Dei uma olhadela nas revistas da banca e logo encontrei o que inconscientemente procurava.
Uma matéria de capa:
“Jornalista é atropelado por milionário após evento, leia mais detalhes nesta edição”.
***
Longe dali…
— Enviou a matéria para a editora?
— Sim senhor Venez.
— E o jornalista?
— Garanto ao senhor que ele não se lembrará de nada que aconteceu aqui.
***