Brinquedo Macabro

terça-feira | 13 | abril | 2010 às 11:06 am | Publicado em Contos | Deixe um comentário

Olá meus amigos. Este conto eu escrevi em dueto com meu querido amigo, Jack Sawyer.

1ª parte – Jack Sawyer

A menina acordou com o som de pequenos passos batendo no assoalho de madeira. Lá fora se anunciava uma tempestade, e os galhos da árvore batiam na janela, como se fossem grandes mãos com dedos esqueléticos arranhando a vidraça.
Ainda esfregando os olhos, pode perceber certa bagunça em seu quarto. Entre o lampejo de um relâmpago e outro, notou que havia vários brinquedos espalhados pelo chão. Não se lembra deixá-los ali. Principalmente as bonecas. Ainda mais, aquela boneca. Não gostava dela. Ganhara em seu aniversário, no dia anterior, mas preferia as outras. Sua coleção de Barbie e Poly estava quase completa. Meio assustada ainda resolveu descer da cama para guardar as bonecas. Ao pisar no chão, sentiu uma picada no calcanhar. Rapidamente retornou à cama e ficou procurando o que a havia acertado. Quando olhou para baixo, percebeu que seu medo era infundado. Havia pisado em um dos acessórios da Barbie. Recolheu todas as pequenas peças e foi em direção às bonecas espalhadas. Deu um grito de susto, ao perceber que haviam removido as cabeças de todas as suas bonecas. Quem poderia ter feito uma malvadeza dessas? Poderia ser o filho da vizinha, que vez ou outra aparece em sua casa. Mas é noite, e ela lembrava muito bem de ter colocado as bonecas na estante, menos a… Menos a boneca que havia ganhado de aniversário. Mas onde estava ela? Olhou o quarto todo, até embaixo da cama, mas não a encontrou. Ela não poderia sair andando por aí. Riu da ideia absurda, bonecas não andam, não as suas.
Lembrou-se de ter ouvido pequenos passos antes de se levantar e pensou:
“Será que mamãe comprou um filhote pra mim? Isto explicaria a bagunça no quarto e as bonecas sem cabeça”. Abriu a porta do quarto e olhou para os dois lados do corredor, já animada com a ideia de ter um cãozinho ou um gatinho para brincar. Quando deu um passo para fora do quarto pisou em algo, perdeu o equilíbrio e bateu o ombro na mesinha do corredor. Ao observar o que havia causado seu tombo viu uma das cabeças de Barbie. Com o flash de outro relâmpago, pode ver pelo canto do olho, um pequeno movimento à sua esquerda em direção ao outro quarto.
Levantou-se, apoiando com o braço direito, pois o esquerdo doía violentamente. Caminhou até o quarto onde vira a figura se esgueirar. Quando entrou nada encontrou a não ser algumas cabeças de bonecas arrumadas em cima da cama, olhando para a porta. Em sua direção.
“Quem estaria fazendo isso comigo?”.  — Pensou. Agora completamente assustada.
Ouviu novamente passos atrás dela, passando muito rápido, acompanhado de uma risadinha divertida, em direção às escadas, a caminho da cozinha.
Mal dava para ver, só conseguiu perceber o vulto. Correu para as escadas e escorregou em mais uma cabeça de boneca.  Caiu sentada na escada, batendo o ombro machucado no corrimão. Ficou ali, chorando de dor, no ombro e nas nádegas.

Lá embaixo, na cozinha, ouvia o barulho dos talheres, a risada cada vez mais alta e a voz ressoando pela casa inteira, dizendo “Por que você não brinca comigo?”, repetia.
Do alto da escada, ela via a sombra se projetando na porta da cozinha, revelada pelos relâmpagos. Como gostaria que sua mãe estivesse em casa. Mas não estava. Ela só chegaria mais tarde.
Decidiu descer as escadas e ir até a cozinha. A curiosidade era maior que o medo. Ficou mais atenta para qualquer ardil que aquela coisa, seja o que fosse, estivesse preparando.
Devagar, chegou ao pé da escadaria, olhou dentro da cozinha, e lá estava ela, em cima da pia, com uma faca em sua pequena mão. A boneca falava e dava risada, dizendo baixinho com sua voz doce “Por que você não brinca comigo?”, depois mudando o tom, acrescentado um som mais sinistro, mais gutural “EU VOU TE MATAR”.

2ª parte – Lina Stefanie

A garota parou, estarrecida ante aquela cena grotesca. Seus olhos não lhe mostravam a verdade. Aquilo tudo não passava de sua imaginação brincando de assustá-la. Não deveria assistir tantos filmes de terror assim, sua mãe não cansava de alertá-la. Mas agora sua mãe não estava ali para ajudá-la, o mundo havia parado naquele instante e ela, sozinha, enfrentaria seu pior pesadelo.
Moveu um pouco o corpo em direção a boneca, imaginando que ela permaneceria em seu lugar. A boneca sorriu e não se moveu. Tentou aproximar-se um pouco mais, sem sucesso, seus pés não lhe obedeciam.
— Eu irei matá-la! Não se aproxime! Eu sei que irei.
Os olhos arregalando, os trovões explodindo violentamente do lado de fora. A tempestade estava em fúria.
— Venha boneca! Você me pertence agora e ninguém mudará isso.
— Você não me desejou, eu sei. Eu sinto. Por este motivo você irá morrer. Devo cumprir meu destino. Nasci boneca para ser amada, e você não me quer aqui. Morrerá agora e quantas vezes for preciso.
— Venha… — A menina estendeu os braços carinhosamente.
A boneca olhou-a de soslaio. Os olhos de feltro não se moviam. A faca não se movia em suas mãos pequeninas, indefesas.
— Não importa o que senti por você antes, boneca. Quero amá-la, me ensine. Faremos parte da vida uma da outra. Basta você acreditar.
O coração da garota saltava dentro do peito.
Em um breve instante pensou que conseguiria enganar a boneca, mas este instante não durou e novamente tomada de fúria, a boneca partiu para cima dela com a faca em punho.
— Não! — A menina gritou apavorada ante o prenúncio da morte certa.
Caíram no chão as duas disputando uma guerra louca pela vida.
A faca deslizou cortante no pulso da menina deixando-lhe um rastro de sangue e dor no antebraço.
Rolaram por alguns minutos pelo chão até descerem violentamente escada a baixo.
A faca voou longe, dando tempo para a garota livrar-se do brinquedo amaldiçoado.
Num ímpeto de força atirou a boneca para longe, acreditando livrar-se dela. Levantou e rastejou pelo chão da sala. A boneca teve tempo de apanhar novamente a faca e partir novamente para cima da garota.
Nada daria fim aquela disputa. O fim teria chegado naquele instante.
O brinquedo amaldiçoado havia adquirido uma força sobrenatural e desta vez não daria chances para a menina.
— Venha, vamos brincar. Não tema. — A menina tentou um último agrado.
A boneca não vacilou, atacou sem piedade a pobre garota. Esfaqueou várias vezes o pequeno corpo frágil. O sangue jorrou espalhando-se pela camisola.
O monstro soltou um grito estridente e uma risada mais alta ainda.
A menina agonizava caída no chão.
— Filha… Vamos, fale comigo! Responda! Estou aqui. — Dizia a mãe da garota, em pânico.
Porém, nada foi suficiente. Ela não respondia.
Após várias tentativas, a mãe não suportando a angústia da filha, disparou um tapa no rosto dela.
— Aiiiii… — O grito ecoou no quarto vazio.
A camisola da menina estava encharcada de suor. A dor a fez acordar do pesadelo.
Abraçou a mãe fortemente e chorou.
Ao olhar em sua cômoda, viu a boneca olhando e sorrindo seu riso macabro.
— Filha. O que houve? Por que está assim? Tão desesperada? Diga-me!
— Mamãe… Por favor… Jogue aquela boneca fora. Bem longe de mim. Não a quero aqui. Por favor.
— Sim, querida, jogarei, mas não fique mais assim. Tudo ficará bem. Eu prometo.
— Prometa que nunca mais me dará uma boneca de presente. Prometa!
— Sim, eu prometo. — A mãe respondeu.
A menina fechou os olhos e suspirou. Assim que os abriu viu o semblante demoníaco da boneca transformar-se novamente. A faca estava ainda sobre a cômoda.
Mas tudo não passara de um sonho. Apenas um sonho de garota.
E a boneca foi jogada no lixo, com a promessa de que iria ser o presente de outra garota indefesa que pudesse servir-lhe de vítima para que desse continuidade ao seu legado de dor.
A garota teve problemas por toda sua vida, nunca mais dormiu como antes, nem teve brinquedos.
E, como poderia?

 Lina Stefanie

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